Por Marcelo Zero*
Taiwan faz parte oficialmente da China desde a dinastia Qing. À exceção do período do domínio colonial japonês sobre essa ilha chinesa (1895-1945), sempre foi assim.
É preciso considerar que Taiwan, como nação independente e representante oficial da China, foi uma ficção, criada por Chiang Kai-shek e o Kuomintang, com o apoio dos EUA e aliados.
Derrotado pelas forças de Mao Zedong (Mao Tsé-Tung) em 1949, Kai-shek fugiu para Taiwan e de lá se autoproclamou o legítimo governante da China, embora dominasse efetivamente apenas uma ínfima fração da população e do território chinês.
Essa ficção geopolítica, essa espécie de país-Guaidó, durou até 1971, quando a ONU se curvou à realidade e finalmente reconheceu o regime de Beijing como o verdadeiro representante da China e comprometeu-se com o princípio de “uma única China”.
Com efeito, a Resolução 2758 da Assembleia Geral das Nações Unidas, intitulada “Restauração dos direitos legítimos da República Popular da China nas Nações Unidas”, foi adotada em 25 de outubro de 1971 justamente para alterar a representação da China na ONU.
Ela reconheceu a República Popular da China (RPC) como a única representante legítima da China nas Nações Unidas e expulsou “os representantes de Chiang Kai-shek” (referindo-se ao então regime do Kuomintang como o partido dominante na República da China, cujo governo havia se retirado do continente para Taiwan) das Nações Unidas.
Os próprios EUA acabaram também, em 1978, na esteira da diplomacia de aproximação a Beijing, por reconhecer a então chamada “China continental” como a única China.
Hoje em dia, apenas 12 países no mundo, entre os mais de 190, reconhecem Taiwan como país independente e soberano. São países, frise-se, de pequena expressão, como Tuvalu, Palau, Belize, Haiti etc. Na América do Sul, apenas o Paraguai assim o faz, o que impede uma maior cooperação entre a China e o Mercosul, prejudicando os interesses do bloco.
Não obstante, ante as novas diretrizes da política externa dos EUA, que colocam o combate à ascensão da China como prioridade máxima, seja em governo democrata ou republicano, Washington, já há algum tempo, tenta descumprir aquilo que fora acordado na década de 1970 e incentivar, ainda que de forma indireta, o secessionismo taiwanês, com a justificativa cínica e esfarrapada da defesa da “democracia”.
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Trata-se de um caminho extremamente perigoso para todo o mundo.
A estadunidense “Lei de Relações com Taiwan, de 1979”, obriga o governo dos EUA a defender militarmente essa ilha, caso ela sofra alguma agressão. Por outro lado, a China, em 14 de março de 2005, aprovou a “Lei Anti-Secessão”, a qual impõe uma intervenção armada, em caso de declaração formal da independência de Taiwan.
Um possível choque armado já está previsto, por conseguinte, na legislação dos EUA e na legislação da China.
Portanto, qualquer movimento em prol do secessionismo taiwanês poderia, no limite, acarretar uma guerra de consequências muito graves e imprevisíveis. Dado o estreitamento das relações China/Rússia e o atual conflito na Ucrânia, essa poderia ser uma guerra mundial.
É claro que, no momento, ambos os países não querem um enfrentamento militar. A China faz somente exercícios militares regulares nas proximidades de Taiwan. E parece que Trump já reconheceu, com o que acontece no Irã e com sua popularidade interna em forte queda, que há limites concretos à sua hegemonia predatória.
Mas é necessário observar que, muitas vezes, as guerras começam devido a atitudes intempestivas e irracionais. A estupidez humana nunca pode ser menosprezada. A da equipe de Trump, ignorante e intempestiva, muito menos.
Esperemos que o common sense (the least common of the senses, como dizia Voltaire) prevaleça, para o bem de todos.
* Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
O Perigo Taiwan
Marcelo Zero
Taiwan faz parte oficialmente da China desde a dinastia Qing. À exceção do período do domínio colonial japonês sobre essa ilha chinesa (1895-1945), sempre foi assim.
É preciso considerar que Taiwan, como nação independente e representante oficial da China, foi uma ficção, criada por Chiang Kai-shek e o Kuomintang, com o apoio dos EUA e aliados.
Derrotado pelas forças de Mao Zedong (Mao Tsé-Tung) em 1949, Kai-shek fugiu para Taiwan e de lá se autoproclamou o legítimo governante da China, embora dominasse efetivamente apenas uma ínfima fração da população e do território chinês.
Essa ficção geopolítica, essa espécie de país-Guaidó, durou até 1971, quando a ONU se curvou à realidade e finalmente reconheceu o regime de Beijing como o verdadeiro representante da China e comprometeu-se com o princípio de “uma única China”.
Com efeito, a Resolução 2758 da Assembleia Geral das Nações Unidas, intitulada “Restauração dos direitos legítimos da República Popular da China nas Nações Unidas”, foi adotada em 25 de outubro de 1971 justamente para alterar a representação da China na ONU. Ela reconheceu a República Popular da China (RPC) como a única representante legítima da China nas Nações Unidas e expulsou “os representantes de Chiang Kai-shek” (referindo-se ao então regime do Kuomintang como o partido dominante na República da China, cujo governo havia se retirado do continente para Taiwan) das Nações Unidas.
Os próprios EUA acabaram também, em 1978, na esteira da diplomacia de aproximação a Beijing, por reconhecer a então chamada “China continental” como a única China.
Hoje em dia, apenas 12 países no mundo, entre os mais de 190, reconhecem Taiwan como país independente e soberano. São países, frise-se, de pequena expressão, como Tuvalu, Palau, Belize, Haiti etc. Na América do Sul, apenas o Paraguai assim o faz, o que impede uma maior cooperação entre a China e o Mercosul, prejudicando os interesses do bloco.
Não obstante, ante as novas diretrizes da política externa dos EUA, que colocam o combate à ascensão da China como prioridade máxima, seja em governo democrata ou republicano, Washington, já há algum tempo, tenta descumprir aquilo que fora acordado na década de 1970 e incentivar, ainda que de forma indireta, o secessionismo taiwanês, com a justificativa cínica e esfarrapada da defesa da “democracia”.
Trata-se de um caminho extremamente perigoso para todo o mundo.
A estadunidense “Lei de Relações com Taiwan, de 1979”, obriga o governo dos EUA a defender militarmente essa ilha, caso ela sofra alguma agressão. Por outro lado, a China, em 14 de março de 2005, aprovou a “Lei Anti-Secessão”, a qual impõe uma intervenção armada, em caso de declaração formal da independência de Taiwan.
Um possível choque armado já está previsto, por conseguinte, na legislação dos EUA e na legislação da China.
Portanto, qualquer movimento em prol do secessionismo taiwanês poderia, no limite, acarretar uma guerra de consequências muito graves e imprevisíveis. Dado o estreitamento das relações China/Rússia e o atual conflito na Ucrânia, essa poderia ser uma guerra mundial.
É claro que, no momento, ambos os países não querem um enfrentamento militar. A China faz somente exercícios militares regulares nas proximidades de Taiwan. E parece que Trump já reconheceu, com o que acontece no Irã e com sua popularidade interna em forte queda, que há limites concretos à sua hegemonia predatória.
Mas é necessário observar que, muitas vezes, as guerras começam devido a atitudes intempestivas e irracionais. A estupidez humana nunca pode ser menosprezada. A da equipe de Trump, ignorante e intempestiva, muito menos.
Esperemos que o common sense (the least common of the senses, como dizia Voltaire) prevaleça, para o bem de todos.
Publicação de: Viomundo
