O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, colocou exportadores brasileiros no relógio de julho ao propor tarifa de 25% sobre uma ampla lista de produtos do Brasil, após investigação comercial do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). No Paraná, a conta chega à madeira, à indústria, ao agro e ao palanque da direita em 2026.
A consulta pública vai até 1º de julho. A audiência está marcada para 6 de julho. A decisão precisa sair até 15 de julho. Para empresas que vendem aos Estados Unidos, esse calendário mexe com preço, contrato, frete, câmbio e planejamento de embarque.
A investigação da Seção 301 acusa o Brasil de práticas consideradas prejudiciais ao comércio americano em comércio digital, serviços de pagamento, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, etanol, combate à corrupção e desmatamento ilegal. O governo Lula terá de responder tecnicamente antes que a disputa vire apenas combustível eleitoral.
A tarifa proposta não atinge todos os produtos brasileiros. Carne bovina, café, terras raras, aeronaves, partes de aeronaves, petróleo, compostos farmacêuticos, químicos orgânicos e fertilizantes aparecem entre as exceções citadas na cobertura internacional. Ainda assim, exportadores precisam conferir produto por produto.
O Paraná entra nessa disputa pela economia real. Em 2024, o estado vendeu US$ 1,587 bilhão aos Estados Unidos, segundo o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Os Estados Unidos foram o segundo destino das exportações paranaenses, atrás apenas da China.
A madeira paranaense é o ponto mais sensível. Ela respondeu por 38,71% das vendas do Paraná aos Estados Unidos em 2024. Produtos alimentícios ficaram com 14,30%. Máquinas e equipamentos somaram 13,70%. A tarifa, portanto, fala com serrarias, cooperativas, fábricas, transportadoras, tradings e trabalhadores.
Mesmo setores fora da tarifa direta não ficam isolados. Fertilizantes, combustíveis, seguros, peças, dólar e frete entram na planilha de quem produz no Paraná. Uma crise comercial não para na alfândega. Ela passa por porto, banco, fornecedor, contrato e folha de pagamento.
A crise também não caiu do céu. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), está nos Estados Unidos e já havia defendido tarifaço e novas sanções americanas contra o Brasil, segundo registros públicos do Blog do Esmael. Não há, nas fontes consultadas, documento público que prove pedido direto dele por esta tarifa específica de 25%, mas há registro de articulação por punições econômicas ao país.
A nova tarifa tem base formal na investigação do USTR. A sua temperatura política, porém, cresce porque a família Bolsonaro transformou Washington em palco de pressão contra o Brasil, contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e contra o governo Lula.
O outro filho de Bolsonaro também levou a crise para dentro da disputa nacional. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou, depois de reunião com Trump, que pediu ao presidente americano a classificação de facções brasileiras como organizações terroristas estrangeiras. O governo Lula reagiu dizendo que a medida fere a soberania nacional e pode abrir caminho para pressão econômica e jurídica sobre empresas que operam no Brasil.
Aqui também há um limite necessário. A classificação de Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas não transforma automaticamente qualquer empresa brasileira em terrorista. O risco apontado por especialistas é outro: aumento de escrutínio, compliance, isolamento financeiro e sanções indiretas para setores expostos a áreas sob influência dessas facções.
É esse risco que torna a pauta explosiva para 2026. Se Washington mistura tarifa, crime organizado, sanções e eleição, empresas brasileiras podem virar alvo colateral de uma guerra política. No Paraná, o problema alcança cooperativas, madeira, carnes, máquinas, portos, fertilizantes e instituições financeiras que dependem de crédito, seguro ou relação com o mercado externo.
O palanque de Sergio Moro (PL), Deltan Dallagnol (Novo), Filipe Barros (PL) e Flávio Bolsonaro subiu em Curitiba no fim de semana com ataques a Lula (PT), Gleisi Hoffmann (PT) e Requião Filho (PDT). A nova tarifa desloca esse discurso para uma pergunta menos confortável: quem defende negociação técnica para proteger exportadores brasileiros e quem aposta na crise como arma eleitoral?
Ratinho Junior (PSD), a bancada federal do Paraná, Moro, Gleisi, Requião Filho e o setor produtivo precisam se posicionar antes de julho. O estado tem empresas expostas ao mercado americano e cadeias que dependem de insumos dolarizados. Slogan não renegocia tarifa, não destrava porto e não segura emprego.
A tarifa de Trump chega ao Paraná antes da campanha oficial de 2026. Se a direita paranaense tentou transformar Curitiba em laboratório de xingamento, Washington devolveu a fatura em forma de tarifa, sanção e risco econômico. A audiência de 6 de julho dirá se o país vai tratar o caso como defesa comercial ou deixar a crise virar palanque contra a própria exportação brasileira.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
