Por Marcelo Zero*
A reação dos candidatos de Trump à Presidência do Brasil ante as últimas agressões geopolíticas e geoeconômicas ao nosso país, por parte do governo de extrema-direita dos EUA, além de abjeta e vergonhosa, é também ridícula.
Flávio Bolsonaro e sua turma de parvos acreditam que a submissão a Trump e a aceitação de imposições, que quebrariam a economia brasileira e destruiriam o futuro do país (como abrir setores industriais inteiros, sem nenhuma reciprocidade), fariam o governo estadunidense “aliviar” suas agressões.
Ora, a estupidez dessa, por assim dizer, “tese”, é abissal. Revela total desconhecimento da natureza do governo Trump.
Trump, uma clara dissidência do Homo sapiens, tem crenças obsoletas e arcaicas sobre a economia e sobre as relações internacionais, que ele “herdou” do pitoresco presidente McKinley, o qual era tachado ironicamente, pelos seus próprios colegas do Partido Republicano, de “Tariff Man”.
Trump realmente acredita que grandes e irracionais tarifaços, aplicados universalmente, inclusive a aliados, somados à total destruição das regras multilaterais de comércio, poderão:
a) Reerguer as velhas indústrias dos EUA e estimular o reshoring geral da indústria de transformação estadunidense.
b) Criar uma fonte de renda importante para o Estado norte-americano, de modo a poder reduzir impostos para as grandes companhias dos EUA. Esse segundo ponto é uma promessa eleitoral importante.
Trump e seus “assessores” econômicos, como Kevin Hassett, Peter Navarro, Howard Lutnick etc., realmente acreditam nisso. Acreditam que o planeta pode ser colocado numa máquina do tempo para fazê-lo regressar aos tempos de McKinley ou aos idos do pós-guerra.
Durante a campanha, falando sobre os tempos de “grandiosidade” dos EUA, Trump mencionou que esses “tempos áureos” teriam ficado comprometidos, a partir de 1916.
Por qual razão 1916?
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Porque foi em 1916 que os EUA promulgaram a 16ª Emenda Constitucional, a qual introduziu o imposto de renda federal na economia estadunidense.
McKinley e muitos membros do Partido Republicano sempre tinham sido a favor de altíssimas tarifas de importação e contra o imposto de renda. E sempre acreditaram que tais tarifas, que McKinley pretendeu fixar em 50%, seriam essenciais para desenvolver e manter a indústria dos EUA.
As tarifas grandiosas, dessa forma, apresentavam uma dupla solução: financiar os gastos do Estado e, ao mesmo tempo, promover a industrialização e o desenvolvimento dos EUA, sem prejudicar os interesses dos ricos e das grandes empresas.
Fortemente regressivas, as tarifas de importação extremamente elevadas colocariam os custos do desenvolvimento sobre a população em geral.
É o que Trump está emulando, mais de um século depois.
Hoje, Trump pretende impor tais custos não apenas à população dos EUA, mas também à população mundial. A população dos EUA pagaria com o aumento dos preços internos, já a população estrangeira pagaria com a perda de empregos e rendimentos.
Por isso, posições humilhantes e “genuflexórias”, como a de Flávio Bolsonaro, de oferecer participação aos EUA na própria equipe de transição (algo claramente ilegal e inconstitucional), não farão diferença alguma para Trump.
Ao contrário, o alinhamento vergonhoso à geopolítica trumpista só acelerará a ruína do Brasil, pois a intenção de Trump e, principalmente, de Marco Rubio, é a de transformar o Brasil em um quintal, um protetorado.
Esse é o “futuro” do Brasil com Flávio Bolsonaro e com os demais candidatos da direita.
Mas esse nem é o ponto principal. O ponto principal, que ninguém parece enxergar, é que a associação a Trump é uma associação com o fracasso.
Trump está destinado ao fracasso, tanto no campo interno quanto no campo externo.
No campo interno, a industrialização forçada por tarifaços não está funcionando. O reshoring não está ocorrendo e o custo de vida está sendo muito impactado pelas tarifas bizarras, feitas sem uma política industrial bem-desenhada. Trump está despencando nas pesquisas e deverá perder a maioria no Congresso, nas próximas eleições.
No campo externo, a geopolítica predatória e isolacionista de Trump, centrada no autismo do “American Only” (unicamente a América) e na crença obtusa de que as relações internacionais são um “jogo de soma zero” (para que os EUA ganhem, os “outros”, aliados ou não, têm de perder), também não está produzindo os resultados esperados.
O evidente fracasso de Trump no Irã é uma clara demonstração dos limites dessa geopolítica totalmente deslocada no tempo.
Alguns analistas mais lúcidos do próprio Partido Republicano, como A. WESS MITCHELL, consideram que os EUA serão forçados a fazer o que se chama de “consolidação”, um movimento estratégico que os britânicos realizaram em 1904.
Na época, o principal almirante da armada britânica, John “Jacky” Fisher, preocupado com a ascensão econômica, tecnológica e militar da Alemanha (como hoje os estadunidenses se preocupam com a ascensão da China), delineou uma estratégia para fortalecer a posição britânica, que foi caracterizada como de “consolidação”.
Consolidação é quando um Estado se concentra em seus principais interesses, reduzindo sua presença em áreas de menor significado estratégico, ao mesmo tempo em que aumenta os recursos nacionais para ampliar o poder à sua disposição ao longo do tempo. Não obstante, isso não era visto como recuo, e, muito menos, aquiescência a um declínio nacional.
Fisher decidiu que, em vez de tentar manter todas as bases navais dispersas do Império Britânico, priorizaria as águas adjacentes às Ilhas Britânicas para deter a Alemanha, a principal ameaça ao Reino Unido.
Porém, para suprir as lacunas criadas em outras áreas, ele pretendia contar com aliados regionais, como o Japão e a França, que os diplomatas britânicos estavam cortejando. Ao fazer isso, ele esperava ganhar tempo para que o Reino Unido mobilizasse suas poderosas indústrias e se mantivesse à frente de seus rivais em tecnologias de ponta.
Em outras palavras, a consolidação implicava não apenas a concentração de recursos em áreas prioritárias para conter o principal rival e o aumento dos investimentos em recursos nacionais (algo que Trump já vem tentando fazer), mas também fortes alianças para manter a hegemonia em outras áreas geográficas.
Trump, obviamente, está fazendo uma consolidação equivocada, pois despreza a necessidade de estabelecer alianças fortes para exercer hegemonia em áreas geopolíticas não prioritárias.
O Rei Charles III, diga-se de passagem, chamou a atenção para este ponto, em seu discurso no Congresso dos EUA.
Portanto, muito provavelmente, os EUA serão forçados a refazer, com muito esforço, sua antiga política de alianças (principalmente a aliança transatlântica), bem como rever sua política tarifária irracional, feita fora do contexto de uma política industrial sólida e das normas constitucionais dos EUA.
Trump é um fracasso monumental e quem a ele se associar fracassará também.
Entregar anéis não preservará dedos.
*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
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Publicação de: Viomundo
