O Datafolha divulgado na sexta-feira, 21 de agosto, colocou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 39% contra 33% de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno e 47% a 43% num eventual segundo turno. No Paraná, onde Flávio supera Lula entre os eleitores do Sul, a fotografia nacional aumenta o valor político dos palanques estaduais e empurra candidatos ao governo e ao Senado para escolhas que podem definir a transferência de votos a partir de 28 de agosto.
A pesquisa ouviu 2.058 eleitores em 128 cidades e tem margem de erro de dois pontos percentuais. Lula lidera numericamente as duas simulações, mas a diferença no segundo turno, de quatro pontos, está dentro da margem de erro. No recorte regional, porém, Flávio aparece à frente entre os sulistas, com 38% contra 33% de Lula no primeiro turno.
É justamente aí que a disputa paranaense ganha uma variável nacional. O Paraná não está diante de uma eleição presidencial abstrata. Os principais candidatos ao Palácio Iguaçu e ao Senado já construíram relações diferentes com Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado (PSD) e o campo bolsonarista. A partir de 28 de agosto, quando começa a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, essas escolhas deixarão de aparecer apenas em eventos e declarações e passarão a disputar espaço diariamente diante do eleitor. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) fixou o período do horário eleitoral gratuito do primeiro turno entre 28 de agosto e 1º de outubro.
Sergio Moro (PL) é o caso mais definido. O candidato ao governo do Paraná transformou sua chapa em palanque de Flávio Bolsonaro. O PL decidiu apoiar Moro para o Palácio Iguaçu justamente para criar no estado uma estrutura eleitoral para a candidatura presidencial do partido. Moro também declarou apoio a Flávio durante sua filiação ao PL.
A equação favorece uma estratégia simples: Moro pode apresentar a eleição estadual e a presidencial como partes de um mesmo projeto político. O risco é igualmente evidente. Se a vantagem nacional de Lula persistir ou aumentar, o candidato do PL terá de administrar no Paraná uma associação direta com um presidenciável que, embora lidere no Sul, está quatro pontos atrás no segundo turno nacional.
O palanque de Sandro Alex é mais complexo. O candidato do PSD declarou apoio a Ronaldo Caiado para a Presidência, mas admitiu que seu grupo poderá abrigar eleitores e lideranças favoráveis a Flávio Bolsonaro, Renan Santos ou Romeu Zema. Sandro atribuiu essa dispersão à relação histórica entre Ratinho Junior (PSD) e Jair Bolsonaro.
Essa fórmula pode ser eleitoralmente conveniente enquanto a campanha presidencial estiver aberta. Mas o horário eleitoral coloca uma questão prática: até onde uma candidatura estadual consegue vender continuidade no Paraná e, simultaneamente, manter uma base nacional dividida entre Caiado e Flávio?
Sandro já afirmou que, num eventual segundo turno presidencial entre Lula e Flávio, apoiaria o candidato do PL.
A posição de Requião Filho (PDT) é o contraponto. O candidato ao governo apoia a reeleição de Lula e transformou a disputa contra Flávio em parte de sua identidade nacional. Em sabatina, afirmou que considera Flávio Bolsonaro “abjeto” e disse que, apesar das críticas ao governo federal, mantém propósitos em comum com Lula.
A aliança partidária reforça essa posição. O PT oficializou Gleisi Hoffmann e Dr. Rosinha para o Senado e confirmou o apoio da Federação Brasil da Esperança à candidatura de Requião Filho ao governo, consolidando o palanque de Lula no Paraná.
Requião, portanto, tem uma vantagem de coerência: sua candidatura estadual já está encaixada no campo presidencial lulista. A dificuldade será transformar essa associação em voto fora do eleitorado tradicional de Lula, especialmente num estado em que o Datafolha aponta vantagem de Flávio sobre o presidente.
No Senado, a matemática fica mais delicada. Deltan Dallagnol (Novo) está claramente no campo de Flávio Bolsonaro. O próprio presidenciável do PL declarou apoio a Deltan e Filipe Barros para as duas vagas do Senado no Paraná. Deltan também participou de agendas com Flávio e Moro apresentando a disputa como uma composição da direita paranaense.
A candidatura de Deltan, entretanto, carrega uma variável adicional: sua situação de elegibilidade ainda está submetida ao Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR). O Ministério Público Eleitoral (MPE) apresentou parecer favorável à possibilidade de disputar a eleição de 2026, mas a decisão judicial ainda é uma peça relevante da campanha.
Alexandre Curi (Republicanos) ocupa uma posição diferente. Sua candidatura ao Senado está integrada à aliança que sustenta Sandro Alex e Rafael Greca (MDB) na disputa pelo governo. Republicanos, PSD e MDB formam parte da estrutura estadual comandada politicamente por Ratinho Junior.
Isso não significa, automaticamente, um palanque presidencial fechado. O próprio Republicanos já havia sinalizado em julho que não tinha fechado apoio a Flávio Bolsonaro. A posição nacional da legenda deixou Curi numa área diferente daquela ocupada por Deltan e Filipe Barros, mesmo dentro de uma coalizão estadual que abriga eleitores de direita e mantém diálogo com o bolsonarismo.
Para Curi, o desafio é transformar a força municipal da aliança estadual em voto para o Senado sem necessariamente importar para sua campanha toda a polarização presidencial.
Gleisi Hoffmann (PT), por outro lado, tem o caminho inverso. Sua candidatura ao Senado está diretamente associada ao projeto de Lula e ao palanque de Requião Filho. O PT oficializou a candidatura da ex-presidente nacional da legenda e consolidou a aliança estadual em torno da reeleição presidencial de Lula.
A disputa pelo Senado ainda tem uma particularidade que pode amplificar o efeito dos palanques. Em 2026, cada eleitor votará em dois candidatos diferentes para o Senado, e os dois mais votados de cada estado serão eleitos.
Isso cria espaço para combinações que não existem na eleição para governador. Um eleitor pode escolher um candidato ligado ao campo de Flávio no primeiro voto e um candidato associado ao centro ou à esquerda no segundo. Pode votar em Curi e Deltan, Deltan e Gleisi, Curi e Gleisi ou em qualquer outra combinação permitida pela urna.
É justamente nessa segunda escolha que a disputa pelos palanques pode ficar mais agressiva. O Datafolha mostra que a polarização nacional ainda não eliminou a possibilidade de combinações. Lula tem 39% e Flávio, 33% no primeiro turno, enquanto Caiado aparece com 5%, Renan Santos com 4% e Zema com 3%. No segundo turno, Lula marca 47% contra 43% de Flávio.
A fotografia também mostra um eleitorado dividido por perfil. Lula lidera entre mulheres, eleitores de menor renda, mais velhos, nordestinos e católicos. Flávio aparece à frente entre eleitores com ensino médio e superior, sulistas e evangélicos.
Para o Paraná, o dado regional é particularmente relevante porque o estado está dentro do Sul, onde Flávio aparece numericamente à frente. Isso não permite concluir que todos os votos presidenciais serão transferidos para candidatos estaduais. Permite, porém, identificar o tamanho do ativo eleitoral que os palanques associados ao bolsonarismo tentarão mobilizar.
A transferência automática não existe. Voto presidencial não é voto estadual, e eleitor não precisa seguir a indicação de um candidato para todos os cargos. Mas uma campanha pode usar a associação entre nomes, partidos, imagens e discursos para reduzir a distância entre as escolhas.
É isso que o horário eleitoral pode acelerar. A partir de 28 de agosto, Moro terá condições de apresentar uma chapa presidencial-estadual mais homogênea com Flávio. Requião Filho poderá explorar a associação com Lula. Sandro Alex terá de administrar publicamente a combinação Caiado-Flávio dentro de sua própria base. Deltan poderá buscar o eleitorado de direita a partir da aliança com Flávio e Moro. Curi terá de preservar a amplitude de sua aliança estadual. Gleisi poderá transformar a presença de Lula no Paraná em voto para a segunda vaga do Senado.
A questão política, portanto, deixou de ser apenas quem apoia quem. Passou a ser quanto cada presidenciável consegue carregar consigo para as disputas de governador e senador.
Se Lula consolidar a vantagem nacional, o palanque lulista ganhará um argumento adicional para disputar votos no Paraná. Se Flávio ampliar sua vantagem no Sul, Moro e Deltan terão mais espaço para transformar a identidade bolsonarista em voto estadual. Se a disputa presidencial continuar apertada, candidatos como Sandro Alex e Alexandre Curi terão mais incentivos para preservar a flexibilidade.
O Datafolha não responde qual dessas estratégias vencerá no Paraná. A pesquisa nacional também não mede diretamente a transferência de votos entre presidente, governador e senador no estado.
Mas ela coloca um relógio sobre as campanhas. Em seis dias, o eleitor paranaense começará a receber os palanques também pela televisão e pelo rádio. E, nesse ambiente, a escolha do presidenciável deixará de ser apenas uma questão de convenção partidária. Poderá virar uma das principais ferramentas de diferenciação entre candidatos que disputam o mesmo eleitorado.
O próximo capítulo da eleição paranaense será, portanto, menos sobre quem tem o maior palanque e mais sobre quem consegue transformar o palanque presidencial em voto para o Paraná.
Leia também a cobertura da Superlive do Blog do Esmael sobre os efeitos do Datafolha na eleição paranaense.
Acompanhe no Blog do Esmael a disputa pelos palanques, as pesquisas e os movimentos que podem decidir a eleição de 2026 no Paraná.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
