A anestesia afetiva que sustenta o fascismo

Vladimir Safatle, no seu livro “A ameaça interna”, explica que o fascismo não é histórico, é estrutural. Está latente na organização social que tem no capitalismo a sua base e recrudesce sempre que atravessamos crises. Desde 1970, vivemos o aprofundamento desta crise, que se apresenta num campo ampliado e de forma contínua, com momentos agudizados como o de 2008. Ela é ecológica, demográfica, territorial, econômica, social e sobretudo psíquica.

Como bem se sabe, a crise é um dos elementos da manutenção do capitalismo. Mais que um elemento, ela é necessária, afinal, é através da criação de novas demandas pela crise que a manutenção do sistema acontece e se mantém. O que é preciso levar em consideração é que, nos séculos anteriores, as crises eram periódicas e tinham começo, meio e fim, hoje não. Elas se estendem, se amplificam e não têm data para acabar. Diante dessa premissa, chega-se à conclusão de que não há sociedade para todos. A proteção social é apenas para alguns. O ideal democrático do Estado Moderno, com promessa de igualdade de direitos, falhou.

Nesse sentido há dois caminhos, ou buscamos uma nova forma de organização social e política que atenda os anseios civilizatórios, ou buscamos nos proteger. É aí que o discurso da extrema direita é eficiente. Ele acena ao sujeito que, ao aderir às práticas neoliberais e meritocráticas, que são eminentemente de natureza individual e não coletiva, haverá uma salvação. Porém soluções individuais não são inclusivas, ou seja, alguns acessam a proteção social, os demais são excluídos. Está formado o panorama para as condições de uma tomada de decisão racional pelo fascismo. Safatle afirma que a escolha pelo fascismo é racional.

Essa escolha aciona o mecanismo de dessensibilização frente à violência. Ora, se é possível salvar-se individualmente, e para que isso aconteça um contingente de pessoas precisa perecer, é preciso desligar os afetos ligados a essa decisão. Um processo de dessensibilização se estabelece de modo contínuo, e o que antes era inadmissível em termos civilizatórios, hoje é naturalizado. Ferenczi, psicanalista húngaro, nomeou esse processo de clivagem. Diante de uma situação traumática, o sujeito se desliga de seus afetos como modo de proteção do psiquismo, uma espécie de anestesia afetiva.

O filósofo apresenta dados que impressionam. O estudo da Statista mostra que, no universo de 21 países, do qual o Brasil faz parte, há uma incidência em que 30% da população sofre de estresse, depressão e ansiedade, e que nos Estados Unidos, por exemplo, 11% das pessoas fazem uso de antidepressivo hoje. Há um estudo apontando o crescimento do mercado de antidepressivos. De acordo com os dados da market.us, em 2034 impressionantes 38% da população fará uso deste tipo de medicamento. O que nos leva a pensar que a crise psíquica tende a se aprofundar. O problema é ainda maior. Além do agravamento da crise psíquica combatida com psicofármacos, não há crença nem esperança de que a sociedade consiga a transformação necessária de modo a estender a proteção social a todos. É o decreto da falência do arranjo civilizatório vigente até aqui.

Não precisamos ir longe para verificar as evidências da anestesia afetiva que vivemos. O recrudescimento de genocídios, guerras, o descaso com vidas humanas durante a pandemia, chacinas nos morros, balas perdidas ceifando vidas, são muitos os exemplos, e a sociedade permanece passiva diante de tantos horrores. Para Safatle, isso é resultado de uma escolha racional pelo fascismo.

Como buscar mudança? O filósofo aposta na psicanálise. Para ele, esse é o instrumento que permite ao sujeito conhecer seus limites e acessar a compreensão de que o bem e o mal são imanentes à condição humana. Esse percurso pode abrir caminho para considerar o outro além de si mesmo, permitindo uma conduta menos narcísica e mais coletiva.

Estive no lançamento do livro “A ameaça interna”, de Vladimir Safatle, na UFPR, por ocasião do I Colóquio Internacional Medo e Político, promovido pela UFPR e pela USP, e vi muitos filósofos e pouquíssimos psicólogos e psicanalistas, o que me levou à reflexão sobre a importância da aproximação de temas como esse ao universo da saúde mental. Não é possível pensar no psiquismo apenas a partir do aspecto intrapsíquico, é preciso, assim como propôs Ferenczi, pensá-lo também politicamente, considerando os aspectos ambientais e relacionais. Torço pela ampliação desse debate necessário.

Jessica Nevel é psicóloga e psicanalista (CRP 04/07404)

Jessica Nevel

Jessica Nevel é psicanalista.

Publicação de: Blog do Esmael

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *