Flávio Bolsonaro leva ataque às urnas a 42 países

O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) associou as urnas eletrônicas brasileiras à Smartmatic durante encontro com representantes diplomáticos de 42 países, realizado em Brasília na terça-feira, 21 de julho. A afirmação contraria documentos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e transporta para uma audiência internacional a contestação do sistema no qual ele pretende disputar a eleição de 4 de outubro.

O evento “Debatendo o Brasil” reuniu representantes de delegações dos Estados Unidos, Paraguai, Alemanha, Reino Unido e Israel, entre outros países. A relação completa dos participantes não foi divulgada.

Flávio Bolsonaro pediu que os países enviem “a maior quantidade de observadores possível” e especialistas em tecnologia eleitoral para acompanhar o pleito. O senador afirmou que não estava questionando o sistema brasileiro, mas sua declaração seguinte repetiu uma associação falsa já desmentida pela Justiça Eleitoral.

“Só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”, declarou Flávio Bolsonaro, segundo áudio obtido pela imprensa.

A afirmação não corresponde ao funcionamento das urnas brasileiras. O TSE informa que a Smartmatic não fornece urnas nem programas usados na votação.

O projeto da urna e do sistema eletrônico de votação foi desenvolvido e é administrado pela Justiça Eleitoral. Empresas escolhidas em licitações fabricam os equipamentos sob coordenação do tribunal, mas não recebem o código-fonte para programar a votação.

A Smartmatic prestou treinamento a profissionais encarregados do suporte técnico e operacional. Também celebrou contratos de conexão de dados e voz. Segundo o TSE, a empresa não participou do desenvolvimento, da programação ou da operação das urnas. Ela disputou uma licitação para fabricar equipamentos destinados às eleições de 2020, mas perdeu para a Positivo.

A resposta à pergunta central, portanto, é objetiva: a Smartmatic não fabrica nem programa as urnas brasileiras.

Flávio Bolsonaro citou ainda um suposto documento da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) sobre manipulação nas eleições venezuelanas de 2010. A eventual atuação da empresa na Venezuela não comprova vínculo com a tecnologia eleitoral usada no Brasil.

O senador também declarou que Jair Bolsonaro estaria preso “justamente por um encontro com diplomatas”. A frase mistura processos diferentes.

O TSE declarou Jair Bolsonaro inelegível por oito anos por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação na reunião realizada com embaixadores no Palácio da Alvorada, em 18 de julho de 2022. A decisão foi tomada por cinco votos a dois e não determinou sua prisão.

Naquele encontro, Jair Bolsonaro utilizou a estrutura da Presidência e a transmissão da TV Brasil para lançar suspeitas sem provas sobre as urnas. O tribunal concluiu que houve desvio de finalidade eleitoral destinado a favorecer sua campanha à reeleição.

Flávio Bolsonaro retomou a mesma arena diplomática quatro anos depois. A diferença institucional é que ele não ocupa a Presidência nem comandou o encontro com recursos da estrutura presidencial. Essa distinção impede uma equivalência jurídica automática entre os dois episódios.

O paralelo político, porém, está documentado: pai e filho apresentaram suspeitas sobre a votação brasileira a representantes estrangeiros antes de uma eleição na qual estavam diretamente interessados. Nos dois casos, alegações já respondidas pela Justiça Eleitoral foram usadas para sustentar dúvidas sobre as urnas.

O pedido de observadores internacionais, isoladamente, não representa irregularidade. As eleições de 2026 já contarão com Missões de Observação Eleitoral credenciadas pelo TSE. Elas podem acompanhar etapas da votação e produzir relatórios sobre transparência, integridade e cumprimento das normas eleitorais.

O conflito está no uso desse pedido legítimo como moldura para uma afirmação tecnicamente falsa. Flávio Bolsonaro diz defender transparência enquanto atribui às urnas uma origem empresarial que o TSE nega documentalmente desde 2020.

Não há registro público, nas informações divulgadas sobre o evento, de que representantes dos 42 países tenham endossado as declarações do pré-candidato. Também não foi apresentada manifestação específica do TSE sobre o discurso de 21 de julho.

A iniciativa antecipa uma disputa política sobre a legitimidade do pleito antes da abertura da votação. Flávio Bolsonaro pretende concorrer pelo sistema que colocou sob suspeita diante de delegações estrangeiras. O precedente de 2022 mostra que a fronteira entre crítica eleitoral, desinformação e abuso de poder depende do conteúdo divulgado, dos meios empregados e da avaliação posterior da Justiça.

Acompanhe no Blog do Esmael a cobertura das eleições de 2026 e da segurança do sistema eleitoral brasileiro.

Interlinks:

  • Jair Bolsonaro fica inelegível após reunião com embaixadores
  • TSE explica como funciona a urna eletrônica
  • Pesquisas para presidente nas eleições de 2026
  • Segurança e transparência das eleições brasileiras

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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