Flávio Bolsonaro testa bolsonarismo de focinheira em Minas

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, tentou se apresentar nesta quarta-feira (3), em Minas Gerais, como uma versão mais administrável do bolsonarismo, mas a fala contrasta com a própria agenda recente nos Estados Unidos e com o palanque agressivo montado em Curitiba em 29 de maio.

Em entrevista ao jornal O Tempo, Flávio Bolsonaro disse ter “sangue de Bolsonaro”, comparou o pai, Jair Bolsonaro, a Pelé e afirmou que parte do eleitorado procura um perfil mais próximo dele do que do ex-presidente. A frase revela o tamanho do problema: o filho zero um quer herdar o sobrenome sem carregar inteiro o estilo que tornou o pai inelegível politicamente para o centro.

A operação testada em Minas tenta vender um Bolsonaro com focinheira. Menos grito, mais verniz. Menos tropa, mais ponte. Menos rompante, mais conversa. Só que a embalagem bate de frente com os fatos acumulados nas últimas semanas.

Em Curitiba, no ato de 29 de maio, o Blog do Esmael registrou que Flávio Bolsonaro, Sergio Moro, Deltan Dallagnol, Filipe Barros e Paulo Martins subiram no mesmo palanque em uma noite marcada por ataques a Lula, ao PT, a Gleisi Hoffmann e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Ali, a direita não apresentou um programa para o Paraná. Preferiu reacender a nostalgia da Lava Jato.

A imagem de Minas é outra. Flávio Bolsoanro tenta falar como candidato palatável ao centro, interessado em pontes, articulação e governabilidade. O problema é que a viagem aos Estados Unidos, os encontros com Donald Trump e Marco Rubio, o debate sobre tarifaço, Pix e facções criminosas recolocaram o filho de Jair Bolsonaro no centro de uma crise de soberania nacional.

O governo Trump propôs tarifa de 25% sobre produtos brasileiros após investigação comercial que mira, entre outros pontos, serviços de pagamento eletrônico. O Pix entrou no radar americano. Flávio Bolsonaro, depois de ter buscado interlocução direta em Washington, divulgou carta pedindo que empresas brasileiras não fossem punidas. A sequência abriu espaço para Lula e aliados associarem o bolsonarismo a uma pressão externa contra a economia brasileira.

Esse é o ponto que encosta no Paraná. Moro, Deltan, Filipe Barros e Paulo Martins não apenas dividiram palco com Flávio Bolsonaro. Eles ajudaram a transformar Curitiba em vitrine nacional da candidatura do PL. Agora, terão de explicar se o projeto que apoiam é o Flávio Bolsonaro moderado de Minas ou o Flávio Bolsonaro da camiseta lavajatista, da pressão em Washington e da guerra verbal contra instituições brasileiras.

A conta política não é pequena. O Paraná depende de exportações, portos, agroindústria, crédito, logística e empresas que não podem virar dano colateral de uma disputa entre bolsonarismo e governo Lula. Se o tarifaço avançar, o prejuízo deixará de ser discurso de palanque e poderá chegar ao contrato, ao frete, ao emprego e ao preço final.

Flávio Bolsonaro também carrega o desgaste do caso Dark Horse. Reportagens apontaram repasses milionários atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro para o filme sobre Jair Bolsonaro. O senador nega irregularidade e afirma que se tratava de patrocínio privado. Ainda assim, o episódio feriu a tentativa de construir uma imagem limpa, previsível e pronta para o eleitorado de centro.

Minas virou laboratório porque a direita nacional ainda procura um candidato capaz de unir bolsonaristas, mercado, agronegócio e eleitores que rejeitam Lula, mas também se cansaram do confronto permanente. O roteiro de Flávio Bolsonaro tenta resolver essa equação com uma promessa simples: manter o sangue Bolsonaro e trocar o tom.

Curitiba mostrou o limite dessa promessa. No Paraná, o bolsonarismo não apareceu domesticado. Apareceu de coleira lavajatista, com xingamento, revanche e saudade da prisão de Lula como cola política. O contraste interessa porque Moro tenta vender uma candidatura estadual, mas seu palanque nasceu amarrado à sucessão presidencial de Flávio Bolsonaro.

A pergunta que fica para a direita paranaense é concreta. Se Flávio Bolsonaro quer ser a versão com focinheira do pai, quem vai segurar a corrente quando a campanha voltar ao Paraná?

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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