O ex-prefeito de Santa Helena, Evandro Miguel Grade, o Zado, virou peça de entrada de Sergio Moro (PL) no setor produtivo do Oeste do Paraná, região onde o senador lidera as pesquisas para o governo estadual e onde a eleição não se decide apenas por antipetismo, Lava Jato ou ataque ao Supremo Tribunal Federal.
O movimento tem endereço político claro. Zado tenta costurar apoio entre lideranças do cooperativismo, prefeitos, vereadores, associações comerciais, sindicatos rurais e empresários num território em que Lar e Frimesa pesam mais do que muito diretório partidário. A presença dele no palanque de Moro dá ao ex-juiz um tradutor local para conversar com produtores, dirigentes e municípios que cobram estrada, energia, hospital, segurança e retorno dos impostos pagos pela região.
O dado eleitoral explica a disputa. Na pesquisa Radar Inteligência, a DataTraiano, registrada no Tribunal Regional Eleitoral do Paraná sob o número PR-01737/2026, Moro aparece com 41,7% no recorte Oeste no primeiro cenário estimulado. Sem Rafael Greca, Tony Garcia e Luiz França, o senador chega a 43,8%.
A força de Moro no Oeste cria uma dor de cabeça para o Palácio Iguaçu. Ratinho Junior (PSD) tem aprovação alta na região, com 78,5% no mesmo levantamento, mas Sandro Alex ainda não herdou esse capital político. O governador aparece bem avaliado, enquanto o candidato governista fica distante do senador. A conta revela um desencaixe entre máquina, aprovação e voto.
Zado tenta ocupar esse desencaixe.
Ele foi eleito vice-prefeito de Santa Helena em 2016 e governou o município em duas passagens, a mais recente entre 2021 e 2024. Eleito pelo PSD em 2020, depois se deslocou para o PL. Em nota enviada ao Blog do Esmael, afirmou ter sido a primeira liderança política do Oeste a declarar apoio à pré-candidatura de Moro ao governo do Paraná. A frase tem cálculo: quem chega cedo a um palanque competitivo tenta cobrar lugar de comando depois.
A reunião “Representatividade e Resultados do Extremo Oeste”, realizada no início de janeiro deste ano na Associação dos Funcionários da Cooperativa Lar, em Medianeira, mostrou o tamanho da pauta regional. O encontro reuniu prefeitos, vereadores e lideranças empresariais para discutir a dispersão de votos e a falta de uma bancada forte em Curitiba. A presidente do Conselho de Desenvolvimento de Medianeira (CODEMED), Margarete Caovilla, citou que apenas Medianeira distribuiu votos entre 391 candidatos a deputado, retrato de uma região rica na economia e fraca na conversão política.
Zado apareceu nesse ambiente defendendo que os impostos gerados no Extremo Oeste retornem em obras estruturantes. Na época, ele destacou apoios de lideranças como Irineo da Costa Rodrigues, da Lar, e Elias Zydek, da Frimesa. Não há, nessa informação, declaração institucional das cooperativas em favor de candidatura. O fato político é outro: Zado tenta usar relações no cooperativismo para dar capilaridade ao palanque de Moro no coração produtivo do Oeste.
Essa costura interessa a Moro porque o Oeste exige mais do que frase pronta. A região quer duplicação e ampliação de rodovias, melhoria da energia distribuída pela Companhia Paranaense de Energia (Copel), investimentos em hospitais regionais, segurança pública, habitação e presença efetiva na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). Quem pedir voto ali terá de dizer onde entra o dinheiro, qual obra sai do papel e quem responde quando o serviço público falha.
O agro do Oeste também impõe uma pergunta que o palanque de Moro ainda não respondeu com programa: o que fazer diante da maquila paraguaia? O Blog do Esmael já mostrou que o regime de maquila atrai empresas brasileiras para o Paraguai, pressiona empregos no lado paranaense da fronteira e desloca parte da disputa industrial para um ambiente de menor custo tributário. O tema atinge Foz do Iguaçu, Cascavel, Toledo, Medianeira, Marechal Cândido Rondon, Guaíra e a cadeia produtiva que vive entre indústria, logística, alfândega e comércio.
Zado pode aliviar Moro quando adversários perguntarem ao senador o que é a maquila paraguaia. Aliviar, neste caso, não significa responder por ele. Significa impedir que o debate do Oeste seja engolido pelo repertório nacional do ex-juiz, que costuma render mais no confronto com Lula, Supremo Tribunal Federal e bolsonarismo do que na explicação sobre emprego, fronteira, tributo, energia e competição industrial com o país vizinho.
A ironia é que Moro tenta entrar no agro pelo discurso da segurança jurídica, mas o Oeste quer saber de segurança econômica. Produtor, cooperativa, indústria e trabalhador não vivem de operação policial aposentada. Vivem de estrada que aguenta caminhão, energia que não derruba produção, hospital que atende a região, crédito que chega na ponta e política industrial que não empurra emprego para o Paraguai.
Para Zado, a candidatura à Alep ganha outra dimensão. Ele não disputa apenas uma cadeira de deputado estadual. Disputa a função de xerife regional de Moro no Extremo Oeste, com a missão de transformar liderança municipal, cooperativismo e descontentamento econômico em voto organizado. Se conseguir, vira ponte entre o palanque do PL e o setor produtivo. Se falhar, será mais um nome usando a bandeira da representatividade regional para engrossar projeto eleitoral de Curitiba.
A pergunta para o eleitor do Oeste é direta: Zado levará as demandas da região para dentro do palanque de Moro ou levará o palanque de Moro para capturar as demandas da região? A resposta não virá por fotografia com cooperativista, reunião em Medianeira ou declaração de apoio. Virá por compromisso público sobre rodovias, energia, hospitais, segurança, habitação, impostos e defesa do emprego diante da maquila paraguaia.
O Oeste já mostrou força econômica. Agora cobra consequência política. Moro lidera a pesquisa regional, Zado tenta abrir portas no agro, Ratinho Junior mantém aprovação alta e Sandro Alex ainda busca herdar a máquina. A disputa pelo Palácio Iguaçu começa a ficar mais concreta quando sai do slogan e entra na conta do produtor, do trabalhador e da indústria que olha para o Paraguai do outro lado da fronteira.
Acompanhe a cobertura das eleições de 2026, da disputa pelo governo do Paraná e dos bastidores do poder no Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
