Chapa Moro-Deltan-Bolsonaro exclui Zema de palanque no Paraná

Sergio Moro (PL), Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL) levam a Londrina, na sexta-feira, 3 de julho, uma chapa fechada para o Governo do Paraná e as duas vagas ao Senado. O encontro repete a montagem lançada em Curitiba sob a liderança presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e transforma Romeu Zema, pré-candidato oficial do Novo ao Palácio do Planalto, no ausente mais importante do palanque paranaense.

O ato está marcado para as 19 horas, no Tsuru Centro de Eventos. A propaganda conjunta apresenta Moro como pré-candidato ao Palácio Iguaçu, enquanto Filipe e Deltan aparecem como postulantes às duas cadeiras senatoriais. As marcas do PL e do Partido Novo dividem o mesmo material.

Londrina não inaugura essa composição. Em 29 de maio, Flávio Bolsonaro participou, em Curitiba, do lançamento das pré-candidaturas de Moro, Deltan e Filipe. O desenho político estava completo: Flávio para a Presidência, Moro para o governo estadual e a dupla PL-Novo para o Senado. Zema não ocupou cadeira, microfone nem espaço simbólico naquele palco.

Formalmente, o Novo continua sustentando a pré-candidatura do ex-governador de Minas Gerais. O presidente nacional da legenda, Eduardo Ribeiro, afirmou em março que Zema seria candidato “até o fim” e descartou a hipótese de ele disputar a Vice-Presidência na chapa de Flávio Bolsonaro.

Politicamente, o Novo do Paraná trabalha em outra direção.

Deltan Dallagnol declarou em 12 de maio que “não tem espaço para uma terceira via” no cenário presidencial. Segundo ele, a eleição tende a ficar entre Lula e Flávio Bolsonaro. O dirigente do Novo também admitiu que a legenda paranaense, aliada ao PL, trabalharia pelos dois presidenciáveis, uma fórmula que tenta servir a Zema no discurso nacional e a Flávio no palanque estadual.

A contradição não é pequena. Deltan é o principal nome eleitoral do Novo no Paraná, disputa uma das vagas ao Senado e depende da estrutura política montada por Moro e pelo PL. Quando ele afirma que não há espaço para Zema, não apresenta apenas uma análise de conjuntura. Ele reduz o candidato do próprio partido à função de figurante regional.

Chamar a candidatura de Zema de fake é uma leitura política, não uma negação de sua condição formal de pré-candidato. No papel, a candidatura existe. Na terra das araucárias, porém, a principal operação eleitoral do Novo age como se o candidato presidencial fosse Flávio Bolsonaro.

Uma candidatura ao Palácio do Planalto precisa de palanques estaduais, candidatos competitivos, agenda pública e pedido de voto. No Paraná, Zema não recebeu nenhum desses ativos no lançamento de 29 de maio. Também não aparece no encontro de Londrina. Quem ocupa esse território é Flávio Bolsonaro.

Moro tampouco trata Zema como alternativa presidencial relevante. Ao aderir ao PL, lançar sua candidatura estadual ao lado de Flávio Bolsonaro e manter Deltan na composição para o Senado, o ex-juiz construiu um entendimento bolso-lavajatista. O acordo reúne o eleitorado de Jair Bolsonaro, a memória política da Operação Lava Jato e a estrutura partidária necessária à campanha estadual.

O ato de Londrina consolida essa escolha. Não se trata mais de uma fotografia isolada em Curitiba. O mesmo trio percorre o Paraná sob as marcas de PL e Novo, enquanto o presidenciável oficial do Novo permanece fora do enquadramento.

A operação também comprime a disputa pelas duas vagas ao Senado. Filipe e Deltan tentam ocupar antecipadamente o espaço conservador, atingindo diretamente Alexandre Curi (Republicanos), Alvaro Dias (MDB), Cristina Graeml (PSD) e outros nomes da direita e do centro. No campo progressista, o movimento estabelece confronto com Gleisi Hoffmann (PT).

A questão presidencial, porém, produz o conflito mais incômodo. O Novo pede votos para Zema nacionalmente, mas oferece a Flávio Bolsonaro seu principal candidato ao Senado no Paraná. O partido vende autonomia em Brasília e pratica subordinação eleitoral no estado.

O conteúdo político do palanque também pertence a Flávio Bolsonaro. Moro, Deltan e Filipe adotaram a segurança pública como eixo comum, enquanto o presidenciável do PL divulgou o programa “Brasil Sem Medo”, com 12 propostas de endurecimento penal e combate às organizações criminosas. No lançamento de Curitiba, Moro e Filipe elogiaram a articulação de Flávio Bolsonaro para tratar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

A adesão política exige uma conta que ainda não apareceu. O trio precisa informar quantas vagas prisionais pretende abrir no Paraná, quanto custaria ampliar o efetivo policial, quais investimentos seriam destinados à inteligência e como seria financiado o reforço da fronteira.

Classificar facções como organizações terroristas pode alterar instrumentos de investigação e cooperação internacional, mas não constrói presídios, não contrata policiais e não equipa delegacias. Sem orçamento, a plataforma de segurança permanece como peça de campanha.

Londrina poderá medir público, militância e capacidade de mobilização no norte do Paraná. A principal revelação, entretanto, já ocorreu antes da abertura das portas: o Novo paranaense escolheu a chapa de Flávio Bolsonaro enquanto a direção nacional ainda tenta convencer o país de que Zema está no jogo.

No Paraná, Moro não abre palanque para Zema. Deltan afirma que não existe espaço eleitoral para Zema. Filipe trabalha pela candidatura de Flávio Bolsoanro. O ex-governador mineiro pode continuar percorrendo o Brasil como presidenciável, mas sua própria legenda deixou o Paraná sob administração do bolsonarismo.

Chama o síndico: o Novo nacional anuncia Zema, enquanto o Novo paranaense trabalha para Flávio Bolsonaro.

Compartilhe esta reportagem e acompanhe no Blog do Esmael a cobertura das alianças que disputam o Palácio Iguaçu e as duas vagas do Paraná no Senado.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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