Antonio de Azevedo: Super El Niño e o enfraquecimento da corrente do Atlântico

Por Antonio Sérgio Neves de Azevedo*

Há uma diferença fundamental entre catástrofes que chegam de surpresa e aquelas que chegam anunciadas.

O que o planeta está vivendo em 2026 pertence à segunda categoria, uma confluência de alertas científicos, dados observacionais e projeções convergentes que apontam para uma janela de risco climático sem precedentes na história humana recente.

Dois fenômenos, aparentemente distintos em sua natureza e geografia, estão se aproximando em simultâneo. Um deles, o Super El Niño, agita as entranhas do Pacífico equatorial com anomalias térmicas que podem rivalizar com os eventos mais intensos dos últimos 150 anos.

O outro, a desaceleração acelerada da Amoc, a grande corrente de circulação do Atlântico que regula o clima de continentes inteiros, levou parte da comunidade científica a considerar plausível a possibilidade de colapso ainda neste século.

Juntos, esses dois processos não representam mera soma aritmética de riscos. São multiplicadores de uma crise que o mundo ignorou por décadas.

O El Niño é um velho conhecido da ciência climática. Seu mecanismo é relativamente simples, o aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial altera os ventos alísios, que por sua vez reorganizam os padrões globais de precipitação, temperatura e pressão atmosférica.

O que transforma um El Niño convencional em “super” é a intensidade, anomalias da temperatura da superfície do mar superiores a 2°C acima da média histórica na região denominada Niño 3.4.

Eventos dessa magnitude foram registrados em 1982-1983, 1997-1998 e em 2015-2016, todos com consequências globais severas, inundações devastadoras nas Américas, secas históricas no Sudeste Asiático e na Austrália, colapso de safras, surtos epidêmicos e bilhões em prejuízos econômicos.

O evento mais intenso da série histórica remonta, porém, a 1877-1878, um benchmarking que os modelos atuais tomam como referência máxima de severidade.

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O que os modelos climáticos mais atualizados de 2026 projetam vai além dos episódios mais recentes.

A atualização de maio do modelo climático europeu ECMWF indicou probabilidade de 100% de formação de um Super El Niño até novembro, com anomalias na região Niño 3.4 projetadas acima de +3°C, nível de calor oceânico não registrado desde o histórico episódio de 1877.

Super El Niño: The Washington Post

O Centro de Previsão Climática da NOAA estima que a probabilidade de formação do El Niño supera 62% já no trimestre junho-julho-agosto de 2026, podendo ultrapassar 90% no segundo semestre.

A Organização Meteorológica Mundial reforçou o diagnóstico ao indicar probabilidade elevada de consolidação do fenômeno no segundo semestre, com intensidade rara na série histórica. Um ex-cientista-chefe da NOAA descreveu o cenário atual como “Código Vermelho” para o sistema climático global.

Do outro lado do globo, outra fronteira está sendo ultrapassada silenciosamente.

A Amoc, Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, é um dos sistemas mais complexos e essenciais do clima planetário. Ela funciona como uma gigantesca esteira transportadora, leva águas quentes tropicais em direção ao Atlântico Norte, onde essas águas esfriam, afundam e retornam pelas profundezas oceânicas em direção ao sul, completando um ciclo que distribui calor, regula temperaturas e sustenta padrões de chuva em três continentes.

Sem ela, a Europa perderia a suavidade de seus invernos. Sem ela, as monções africanas e sul-americanas se deslocariam. Sem ela, o nível do mar na bacia do Atlântico subiria significativamente além do já projetado.

O problema é que a Amoc está enfraquecendo. Em 2021, cientistas identificaram sinais de alerta de um possível ponto de não retorno. Pesquisas paleoclimáticas confirmam que a corrente já colapsou no passado geológico da Terra.

Agora, um estudo publicado no periódico Science Advances em abril de 2026 pelo pesquisador Valentin Portmann, do Inria Centre de Bordeaux Sud-Ouest, trouxe um resultado considerado preocupante, os modelos climáticos que preveem a maior desaceleração da Amoc são justamente aqueles que melhor se ajustam aos dados observacionais do oceano real.

As projeções indicam que a Amoc pode se enfraquecer entre 43% e 59% até 2100 em relação à sua média pré-industrial, com a estimativa central em torno de 51%, representando um enfraquecimento aproximadamente 60% mais severo do que a média dos modelos convencionais sugeria.

“Descobrimos que a Amoc vai declinar mais do que o esperado em comparação com a média de todos os modelos climáticos”, declarou Portmann. “Isso significa que estamos com uma Amoc mais próxima de um ponto de inflexão.”

O professor Stefan Rahmstorf, do Instituto Potsdam de Pesquisa de Impactos Climáticos, afirmou que o risco de colapso da Amoc passou a ser tratado com preocupação crescente por parte da comunidade científica.

Corrente Amoc

Segundo ele, um enfraquecimento da Amoc da magnitude projetada pelo estudo colocaria a corrente em trajetória de alto risco para um colapso total antes de 2100, embora a localização exata do limiar de não retorno permaneça incerta, e o próprio Portmann reconheça que não se sabe ao certo se o sistema possui dois estados estáveis distintos como sugerem modelos matemáticos.

Rahmstorf alertou ainda que muitos modelos não incorporam plenamente o efeito do derretimento acelerado da Groenlândia sobre a circulação oceânica, o que poderia tornar as projeções ainda mais conservadoras do que o risco real.

O mecanismo é autorreforçante, o aquecimento global eleva a temperatura do Ártico, tornando as águas menos densas; a menor densidade retarda o afundamento necessário para impulsionar a corrente; esse retardo permite maior acúmulo de água doce na superfície, tornando-a ainda menos densa; e assim o ciclo se aprofunda. Um eventual colapso poderia ocorrer de maneira abrupta em determinadas condições climáticas, produzindo impactos duradouros por séculos.

A grande inquietação da ciência climática em 2026 é que esses fenômenos não estão operando em isolamento. Estão interagindo entre si e com um terceiro fator determinante, a linha de base da temperatura global já é mais alta do que era em qualquer El Niño anterior.

O El Niño de 2023-2024 contribuiu para que as temperaturas médias globais atingissem a marca histórica de 1,55°C acima dos níveis pré-industriais. Um Super El Niño sobre esse piso mais quente amplifica a severidade dos eventos extremos derivados, ondas de calor tornam-se mais letais, secas mais prolongadas e inundações potencialmente mais destrutivas.

Pesquisadores afirmam que, na história humana moderna, jamais se vivenciou um evento El Niño forte em condições globais pré-existentes tão quentes.

A Organização Meteorológica Mundial alertou em 2026 que o planeta está “mais desequilibrado do que em qualquer momento da história observada”.

Desde o início do ano, incêndios florestais queimaram mais de 150 milhões de hectares globalmente, o maior registro já documentado para o período de janeiro a abril, 50% acima da média do período 2012-2025 e 20% acima do recorde anterior, segundo o World Weather Attribution.

Pesquisadores do Imperial College London observam que um El Niño forte pode ampliar significativamente o risco de incêndios no restante do ano, especialmente diante da combinação entre altas temperaturas, estiagens prolongadas e vegetação já ressecada.

Existe ainda o risco de que os oceanos percam gradualmente parte de sua capacidade reguladora, reduzindo o efeito de resfriamento natural típico da fase La Niña. Isso poderia empurrar o planeta para um estado persistente de aquecimento, alterando biomas inteiros, comprometendo sistemas agrícolas e ampliando deslocamentos populacionais em escala global.

Para o Brasil, os impactos do Super El Niño seguem um padrão de brutal assimetria regional, já observado em 2024 e que os dados de 2026 indicam poder se repetir com maior intensidade.

As enchentes históricas que devastaram o Rio Grande do Sul em abril e maio de 2024 foram impulsionadas pela fase final de um El Niño forte, que intensificou o jato subtropical e favoreceu a permanência de frentes frias estacionárias sobre o estado, combinadas com o aquecimento anômalo do Atlântico tropical sul.

O INMET aponta que, para o trimestre maio-junho-julho de 2026, há maior probabilidade de chuvas acima da média no Rio Grande do Sul. A MetSul Meteorologia avalia que o período de maior risco para eventos extremos no Sul do Brasil será o segundo semestre de 2026, especialmente entre setembro e novembro.

Especialistas apontam ainda que os primeiros efeitos relevantes devem ser sentidos no Sul do país a partir de junho, avançando posteriormente para Santa Catarina e Paraná, com auge na primavera.

Enquanto isso, no Norte e no Nordeste, o El Niño tende a produzir o efeito oposto, redução das chuvas, agravamento das secas e aumento das queimadas.

Entre 2023 e 2024, segundo o Cemaden, cerca de 60% do território brasileiro foi afetado por seca extensa e intensa.

O El Niño de 2026 não encontrará um país plenamente recuperado; incidirá sobre regiões ainda fragilizadas, com infraestrutura precária, sistemas preventivos insuficientes e vulnerabilidade social agravada. Na Amazônia, as fumaças das queimadas viajam com o vento até os grandes centros urbanos do Sul e Sudeste, ampliando problemas respiratórios e dificultando a própria formação de chuvas necessárias para conter os incêndios.

A agricultura será uma das primeiras vítimas. O Super El Niño tem um padrão severo de distribuição hídrica, no Sul, o excesso de chuva compromete lavouras e impede colheitas; no Centro-Oeste, secas prolongadas e ondas de calor reduzem drasticamente a produtividade agrícola. O resultado é pressão inflacionária sobre os alimentos, quebra de safra e ameaça à segurança alimentar.

Como se o quadro climático não fosse suficientemente grave, 2026 trouxe um elemento adicional de preocupação sanitária, a Organização Mundial da Saúde declarou emergência de saúde pública de importância internacional em razão do surto de Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda.

Até o balanço divulgado pelo Africa CDC em 17 de maio de 2026, foram registradas 88 mortes e 336 casos suspeitos na província de Ituri, no nordeste do Congo, com propagação confirmada para Uganda e risco de disseminação transfronteiriça.

O elemento que preocupa os epidemiologistas é a cepa envolvida, trata-se da variante Bundibugyo, identificada pela primeira vez em 2007 em Uganda, para a qual não existe vacina aprovada nem tratamento específico estabelecido. Esta é apenas a terceira vez na história em que um surto por essa variante é registrado.

A conexão com o cenário climático não é apenas retórica. Regiões devastadas por eventos extremos, enchentes, secas e deslocamentos populacionais, tendem a apresentar capacidade reduzida de resposta sanitária, sistemas de saúde sobrecarregados e populações mais vulneráveis. O aquecimento global também altera habitats de reservatórios animais de vírus zoonóticos, ampliando o risco de contato com comunidades humanas.

O que torna esse cenário não apenas preocupante, mas politicamente insustentável, é a distância entre o que a ciência afirma e o que os governos fazem.

Os pontos de não retorno climáticos, os chamados tipping points, funcionam como interruptores, uma vez acionados, determinados processos podem tornar-se autossustentados, independentemente da redução posterior das emissões de carbono.

O Global Tipping Points Report 2025, elaborado por mais de 160 cientistas de mais de 20 países, indicou que a Terra pode já ter ultrapassado alguns desses limites críticos, entre eles o branqueamento irreversível de parte dos recifes de coral.

A Amoc representa um desses potenciais pontos de inflexão de primeira grandeza. Um colapso deslocaria padrões globais de precipitação, alteraria monções africanas e sul-americanas, afetaria diretamente a produção de alimentos e modificaria o próprio ciclo hidrológico do Brasil. Diferentemente de uma catástrofe pontual, seus efeitos poderiam persistir durante séculos.

Rahmstorf afirma que um desligamento da Amoc deve ser evitado “a qualquer custo”. O problema é que o custo de preveni-lo, reduzir drasticamente as emissões globais de carbono em tempo recorde, continua sendo justamente o preço que as grandes potências econômicas hesitam em pagar.

Enquanto isso, combustíveis fósseis seguem subsidiados, acordos climáticos permanecem insuficientes e países vulneráveis enfrentam dificuldades para financiar infraestrutura resiliente.

Há uma tentação compreensível de tratar essas projeções como exagero ou alarmismo. Foi a mesma tentação que alimentou décadas de negacionismo climático e atrasou respostas necessárias.

Mas os números de 2026 não são abstrações, são leituras de satélite, boias oceânicas, sondas atmosféricas e modelos computacionais validados por décadas de observação. O Pacífico já está aquecendo. A Amoc já está enfraquecendo. Os incêndios já estão avançando. O nível do mar já está subindo. O debate deixou de ser se esses processos estão ocorrendo; a questão agora é com que velocidade eles convergirão para pontos críticos.

O Brasil precisa agir em duas frentes simultaneamente.

A primeira é a adaptação urgente, sistemas de alerta precoce para enchentes e secas, infraestrutura hídrica resiliente, planos de contingência agrícola e investimentos em habitação segura nas áreas de risco, porque o Super El Niño de 2026 não aguardará que o país esteja preparado.

A segunda é a mitigação estrutural, desmatamento zero na Amazônia, transição energética acelerada e posicionamento diplomático firme nas negociações climáticas internacionais, porque, sem isso, cada El Niño futuro ocorrerá sobre um planeta ainda mais quente.

A humanidade chegou a um momento em que o silêncio dos termômetros não é mais possível.

O aquecimento já não é projeção, é realidade mensurável, com endereço, data e vítimas identificáveis. O que ainda está em aberto não é se a crise chegará, mas se as instituições políticas do século XXI serão capazes de responder na velocidade que a física do clima exige.

A história registrará este período como aquele em que a ciência gritou com precisão inédita e o mundo escolheu, mais uma vez, a velocidade confortável da inércia. Ou, se houver lucidez suficiente, como o momento em que a humanidade finalmente compreendeu que não existe agenda política, econômica ou ideológica capaz de revogar as leis da termodinâmica. O barômetro já está caindo. A questão não é mais se a tempestade virá, é se ainda haverá tempo para ancorar o barco.

Antonio Sérgio Neves de Azevedo, doutorando em Direito, Curitiba-PR

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

Publicação de: Viomundo

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