O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) publicou no sábado (6) uma foto com a camisa amarela da seleção brasileira e a frase “O Brasil é dos brasileiros”. A imagem colocou a soberania nacional no centro da disputa simbólica que já atravessa Pix, tarifas dos Estados Unidos, segurança pública e eleição de 2026.
A força política da foto está fora do gramado. Depois de anos em que a camisa amarela foi usada como uniforme de atos bolsonaristas, Lula tenta recolocar o símbolo nacional em outro campo: o da defesa do país diante de pressões externas e interesses econômicos que podem cair no bolso do eleitor.
A legenda escolhida pelo presidente conversa com uma crise concreta. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) abriu calendário formal da Seção 301, instrumento da lei comercial americana que permite retaliação comercial, contra práticas brasileiras em comércio digital, pagamentos eletrônicos, tarifas, etanol, propriedade intelectual e desmatamento.
O Pix é o pedaço mais popular dessa briga. O sistema está na rotina do trabalhador informal, do pequeno comerciante, do entregador, da dona de casa, da feira, do salão de beleza e do microempreendedor que troca cartão, boleto e dinheiro por transferência imediata. Quando Washington mira pagamentos eletrônicos, o conflito deixa de ser diplomático e entra no caixa do brasileiro.
A tarifa é o pedaço econômico da mesma disputa. A proposta americana de sobretaxa sobre produtos brasileiros pode atingir exportador, indústria, cooperativa, logística e consumidor. No Paraná, a conta alcança porto, agroindústria, máquinas, alimentos, tecnologia financeira e emprego formal ligado à cadeia de exportação.
A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos também entrou na mesma moldura política. O governo brasileiro vê risco de interferência externa, aumento de custo para empresas e uso eleitoral do tema da segurança pública.
É nessa confluência que a camisa amarela reaparece. Lula não vestiu só uma peça esportiva. Vestiu um símbolo disputado desde as ruas de 2013, pelos atos contra Dilma Rousseff, pela Lava Jato, pelo bolsonarismo e pelos acampamentos golpistas que tentaram monopolizar bandeira, hino e seleção.
No Paraná, a foto cria uma régua objetiva para 2026. A pergunta agora é quem vai defender o país em documento, voto, audiência pública e articulação institucional, e quem vai ficar apenas no discurso de rede social.
Gleisi Hoffmann (PT), pré-candidata ao Senado, tem no tema da soberania uma ponte direta com Lula e com a militância progressista. Requião Filho (PDT), pré-candidato ao Governo do Paraná, pode ligar a pauta a tarifa, emprego, porto e renda. Ambos ganham se transformarem a camisa em pauta material, não em adereço de campanha.
Do outro lado, Sergio Moro (PL), Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL) terão de explicar ao eleitor paranaense onde termina a aliança com a direita americana e onde começa a defesa de exportador, fintech, cooperativa e trabalhador do Paraná. A direita vestiu a camisa por anos; agora terá de dizer o que faz quando a disputa envolve Washington.
Ratinho Junior (PSD), Sandro Alex (PSD), Alexandre Curi (Republicanos), Cristina Graeml (PSD) e Alvaro Dias (MDB) também entram no radar. O eleitor não será afetado por foto bonita, mas por tarifa, dólar, crédito, emprego e custo de operação. Soberania, nesse caso, vira pergunta administrativa e eleitoral.
O calendário americano dá concretude ao debate. Há prazo para pedir fala em audiência, prazo para comentários escritos e audiência pública marcada em Washington. Quem representa o Paraná em Brasília não precisa posar de patriota; precisa entrar no processo e defender os setores atingidos.
A disputa pela amarelinha, portanto, não será resolvida pela cor da roupa. Será resolvida por quem conseguir mostrar consequência concreta para a vida do eleitor. Lula tenta retirar da direita o monopólio emocional dos símbolos nacionais e empurrar a campanha para um terreno em que Pix, tarifa e soberania falam com o bolso.
A camisa amarela voltou a ser política porque o Brasil voltou a ser alvo de pressão externa. Quem quiser usá-la em 2026 terá de responder se defende o país quando a conta chega para trabalhador, pequeno empresário e exportador. Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
