Antonio de Azevedo: Explosão no Jaguaré — Sabesp, de novo

Por Antonio Sérgio Neves de Azevedo*

Há uma máxima do senso comum que diz que o privado é sempre mais eficiente que o público. Repete-se ela como mantra, como artigo de fé, como se a repetição substituísse a prova.

Em julho de 2024, o governo do Estado de São Paulo privatizou a Sabesp, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, e os entusiastas do mercado festejaram, finalmente a lógica empresarial substituiria a ineficiência estatal; finalmente os acionistas exigiriam qualidade; finalmente a população seria bem servida. Pois bem. Dez meses depois, vamos ao balanço.

O balanço está nas ruas. Literalmente.

Em 17 de setembro de 2025, Clelia dos Santos Pimentel, de 79 anos, estava sentada no sofá de sua casa no Jardim Zaíra, em Mauá. Não havia cometido nenhum crime. Não havia descumprido nenhuma norma. Havia apenas a infelicidade de morar ao lado de uma obra da Sabesp. Uma tubulação de grande porte, içada por empresa terceirizada contratada pela companhia, soltou-se, segundo apuração posterior, por excesso de peso, e desabou sobre sua residência. Clelia morreu esmagada dentro de sua própria casa. A empresa lamentou profundamente o ocorrido e demitiu a terceirizada. Que alívio, portanto.

Mas não se preocupem. Era um caso isolado.

Em novembro de 2025, uma estação de tratamento da Sabesp estourou no Guarujá e alagou ruas do bairro da Enseada com esgoto puro. “Fossa a céu aberto”, nas palavras do Sintaema, sindicato dos trabalhadores do saneamento. Moradores relataram mau cheiro, doenças e ausência de respostas rápidas da empresa. No mesmo mês, uma adutora se rompeu no Jardim Damasceno, na Zona Norte de São Paulo, transformando a Avenida Deputado Cantídio Sampaio em rio. Crianças voltando da escola atravessaram a correnteza com água na altura dos joelhos. Uma mãe cruzou a enxurrada carregando um bebê no colo. Cenas que o mercado de capitais não captura em nenhuma métrica de eficiência.

Em 2 de julho de 2025, antes disso, a Freguesia do Ó amanheceu como um mar de lama. Uma adutora se rompeu na madrugada na Rua Chico de Paula, arrastando barro de uma obra vizinha, invadindo a piscina de um condomínio, derrubando o muro de uma escola particular e interditando duas casas, uma das quais precisou ser demolida. A Sabesp prometeu reparar tudo em 48 horas. Os moradores observaram de longe, das ruas que não conseguiam atravessar.

Mas não se preocupem. Eram casos isolados.

Abril de 2026. Osasco. Em menos de uma semana e meia, a cidade registrou três rompimentos de adutoras da Sabesp em diferentes pontos. No terceiro episódio, em 30 de abril, a água arrastou ao menos um automóvel pela Rua República da China, invadiu quatro casas e deixou cerca de 30 mil imóveis sem abastecimento. A empresa informou que enviaria equipes “para verificar se a ocorrência tem relação com sua rede”. Que delicadeza investigativa. Osasco, por sua vez, parece ter se tornado laboratório permanente da eficiência privatista.

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Em 26 de fevereiro de 2026, em São Bernardo do Campo, uma obra da Sabesp perfurou, de modo “acidental”, um duto da Comgás na Avenida Francisco Prestes Maia. O forte cheiro de gás espalhou-se pela região. Uma escola municipal foi evacuada às pressas. Um funcionário precisou ser hospitalizado. Outras três unidades de ensino retiraram os alunos por precaução. Um barbeiro abriu as portas do seu estabelecimento para abrigar quarenta crianças, e virou notícia por isso, porque a exceção havia se tornado o notável. A Prefeitura anunciou medidas legais contra a empresa por descumprimento de protocolos regulatórios. A Sabesp pediu desculpas. Sempre pede desculpas.

Em 11 de março de 2026, um reservatório em construção pela companhia rompeu-se em Mairiporã. A enxurrada de lama desceu pelas ruas, atingiu vinte e cinco famílias, danificou dez veículos e matou um trabalhador de 45 anos, encontrado soterrado dentro de um contêiner. Sete pessoas ficaram feridas, uma delas em estado grave. A Sabesp lamentou novamente e mobilizou equipes de emergência. O trabalhador morto não pôde ouvir o lamento.

Mas não se preocupem. São casos isolados.

Nesta segunda-feira, 11 de maio de 2026, enquanto este artigo é escrito, uma obra de remanejamento de tubulação da Sabesp perfurou uma rede de gás da Comgás no Jaguaré, Zona Oeste de São Paulo. A explosão destruiu uma casa na Rua Floresto Bandecchi. Doze viaturas do Corpo de Bombeiros foram acionadas. Três pessoas ficaram feridas. Trinta e cinco imóveis foram danificados. Um homem de 45 anos morreu.

A Sabesp assumiu a responsabilidade, em nota. A Comgás esclareceu que não realizava manutenção no local. As câmeras registraram os escombros. As famílias choraram entre os destroços. E os acionistas da Sabesp S.A., listada na bolsa desde julho de 2024, aguardaram o próximo relatório trimestral.

Há uma ironia cruel no léxico da privatização. Chama-se de “eficiência” o que, na prática, frequentemente significa a transferência sistemática dos custos do serviço para os mais vulneráveis, os que moram ao lado das obras, os que atravessam ruas alagadas, os que dormem enquanto canos rompem sob suas casas. Chama-se de “modernização” a terceirização irresponsável, em que a cadeia de responsabilidade se dissolve entre concessionária, empreiteira e subempreiteira, até que ninguém pareça culpado e a vítima se transforme apenas em um “lamentável acidente”.

Chama-se de “saneamento” aquilo que, em Mauá, Guarujá, Osasco, Mairiporã e Jaguaré, revelou justamente o seu oposto.

No terceiro trimestre de 2025, a Sabesp registrou lucro de R$ 1,28 bilhão e passou a apresentar-se como uma das maiores companhias de água e saneamento do mundo. Recordes de lucro, recordes de acidentes. A empresa é, de fato, recordista em muita coisa.

O economista clássico dirá que o mercado pune os ineficientes. Que consumidores migrarão para concorrentes melhores. Que a competição forçará a qualidade. Só que água não é Netflix. Não há outro fornecedor para o morador do Jardim Damasceno ligar quando a adutora estoura. Não há plataforma de reclamação que devolva a lama da sala às cinco da manhã. Não há cláusula de rescisão contratual acessível ao cidadão comum quando uma concessionária perfura o duto de gás da vizinhança.

Há apenas a Defesa Civil. E o caixão.

Não se trata, aqui, de nostalgia estatizante. Empresas públicas também falham, e às vezes falham gravemente. Trata-se de outra coisa, da honestidade intelectual que a discussão sobre privatizações de serviços essenciais exige e raramente recebe. E trata-se, também, de perguntar o que seria exigível, regulação efetiva com poder sancionatório real; responsabilidade solidária ao longo de toda a cadeia de terceirização; fiscalização permanente com prestação de contas pública. Não como utopia, mas como condição mínima para que o contrato de concessão não se converta em carta branca para o risco socializado.

Quando se privatiza uma montadora de automóveis, o fracasso é do acionista. Quando se privatiza o saneamento, o fracasso é da criança que atravessa a correnteza com a mãe. É do idosa que morre no sofá. É do trabalhador soterrado dentro de um contêiner. É do homem de 45 anos que não voltará para casa no Jaguaré.

A diferença não é técnica. É ética.

O Brasil tem longa tradição de transferir ativos públicos ao setor privado enquanto socializa os riscos e privatiza os lucros. A Sabesp tornou-se, nesse sentido, um estudo de caso eloquente. Desde a privatização, em julho de 2024, a companhia esteve associada a uma sucessão de acidentes graves, trabalhadores mortos em obras, civis mortos em explosões, centenas de famílias desalojadas, ruas transformadas em rios, escolas evacuadas, bairros inundados e serviços interrompidos em múltiplos municípios.

Pergunta-se, então, com a devida ironia, o que exatamente teria feito a Sabesp pública de tão diferente?

Talvez nunca saibamos. Porque aquilo que se privatiza raramente retorna ao controle coletivo.

No dia em que Clelia dos Santos Pimentel foi esmagada por uma tubulação da Sabesp dentro de sua própria casa, em Mauá, a empresa divulgou nota lamentando o ocorrido e reafirmando que “a segurança dos trabalhadores e da população é sempre a maior prioridade”.

É uma frase bonita. Merece os comunicados oficiais. Quem sabe, um dia, mereça também corresponder aos fatos.

Publicação de: Viomundo

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