Eliara Santana: “Provocar alucinação coletiva é estratégia para desviar o foco do que importa”

Da vacina com chip ao detergente, laboratório de realidade paralela age quando extrema direita precisa mudar narrativa e ignora que a desinformação mata

Por Eliara Santana*, em Hora da Verdade, site do PT Nacional

“Para lidar efetivamente com a poluição informacional, precisamos entender os elementos emocionais e ritualísticos da comunicação. O conteúdo problemático mais ‘bem-sucedido’ é aquele que brinca com as emoções das pessoas e estimula sentimentos de superioridade, raiva ou medo. Esse também é o tipo de conteúdo que é mais curtido e compartilhado, muitas vezes sem ter sido lido ou compreendido.” Esse trecho aborda o combo desinformação e emoções como um dos elementos essenciais da desordem informacional.”

Faço essa referência inicial porque entender a manipulação de emoções e a construção de realidades paralelas talvez nos ajude a assimilar melhor porque agora, no Brasil, após um alerta da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pessoas estão BEBENDO detergente com bactéria e achando que isso é “engraçado” ou “protesto”.

Para além do que possa parecer bizarro, um ponto central é que a desinformação é uma arma política. Portanto, provocar a alucinação coletiva é uma estratégia bem-sucedida para tirar o foco daquilo que realmente importa em determinado contexto político.

Recapitulando o problema: no dia 7 de maio, a Anvisa determinou a suspensão da fabricação, da comercialização e do uso de detergente, sabão líquido e desinfetante da marca Ypê de todos os lotes com numeração final 1, devido a riscos de contaminação microbiológica em função da constatação do descumprimento de ações relevantes em etapas críticas do processo produtivo, com falhas nos sistemas de garantia da qualidade, produção e controle de qualidade.

A deliberação foi o que bastou para que o Laboratório Brasil de Realidade Paralela do ecossistema de desinformação entrasse em ação.

Quase imediatamente, começaram a circular vídeos de pessoas usando o detergente e muitas delas simulando beber o produto. A narrativa já está pronta e circulando: era perseguição política, uma vez que a empresa apoiou a campanha de Jair Bolsonaro à Presidência.

Já sabemos que uma narrativa não brota ao acaso e que nada em desinformação é espontâneo. Por mais bizarras que possam parecer, há sempre mentores e mentoras por trás dessas narrativas e ações, elaborando, produzindo, cuidando da disseminação. Há uma forte mobilização das emoções, e isso é fundamental para alcançar determinados resultados na sociedade.

Da Covid ao detergente, passando pelo kit gay

Esse laboratório produtivo e muito “inovador” de realidade paralela já mostrou ao país resultados muito bizarros como kit gay, mamadeira de piroca, urnas eletrônicas fraudadas, vacina com chip pra monitorar os cidadãos, carro chinês com chip pra saber tudo o que falamos – enfim, a lista é bem grande, infelizmente.

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Agora, as pessoas estão insistindo no uso de um detergente proibido pela Anvisa por conter bactéria altamente perigosa e resistente. Aonde essa “criatividade” vai nos levar?

A questão central é que a desinformação mata. Matou durante a pandemia de covid-19, e pode matar agora, se as pessoas insistirem de fato em tomar detergente e desobedecer às recomendações.

A mentira não é engraçada. Ela não deveria ser motivo de risos pelo aparente surto de pessoas que estão simulando beber detergente com bactéria mortal, desacreditando uma instituição de vigilância sanitária.

Essas figuras já usaram remédio de piolho para combater covid porque acreditaram numa personalidade pública que afirmou se tratar de uma “gripezinha” e, por isso, desconsideraram recomendações sanitárias e saíram às ruas, colocando suas próprias vidas e as de outros em risco.

Em 2020, com a pandemia da covid-19, uma pandemia de desinformação dominou o debate público e questionou princípios científicos. Esse movimento foi apoiado e abraçado por vozes públicas de autoridade que nunca foram devidamente responsabilizadas.

Atitudes explícitas de negação em relação às premissas estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) foram decisivas para o agravamento sistemático da situação sanitária no país durante a pandemia, que culminou em mais de 700 mil mortes no Brasil.

Nada disso é engraçado, repito. O que parece insanidade, desconexão da realidade, estultice, loucura é o resultado da manipulação feita pelos agentes de desinformação a partir de estratégias muito bem colocadas. Não deveria ser tomado como piada.

Pessoas confusas, talvez com pouca informação, levadas a acreditar em teorias conspiratórias estão neste momento desconsiderando um alerta grave da Anvisa e colocando a própria vida e a de outras pessoas em risco.

Num cenário mais conectado à vida real, em outros tempos, a empresa notificada estaria providenciando esclarecimentos aos consumidores, fazendo campanhas para se explicar e promovendo a retirada da mercadoria de circulação sem alarde.

Timing perfeito

Em relação à nova configuração do debate público, o que observamos se consolidar é um constrangimento em relação à discussão de temas macropolíticos (que envolvem saúde, educação, economia, o funcionamento do Estado), que são apagados ou silenciados, e o estabelecimento de novos focos.

No caso recente do detergente, a narrativa imposta é a de que há perseguição política e injustiça.

Ou seja, a partir da circulação dessa narrativa e dos desdobramentos a que ela leva (pessoas insistindo no uso do detergente proibido) há o deslocamento de um debate real e relevante para a sociedade, envolvendo um tema de saúde pública, para garantir mobilização e distração em relação a temas políticos que impactam o campo da extrema direita.

E a partir de apelos a valores, crenças e teorias conspiratórias, as ideias difundidas pelas narrativas se consolidam como representativas daquele tema. Nessa articulação, destaco dois aspectos: um timing perfeito na imposição da narrativa e a crença compartilhada e insuflada de perseguição, que mobiliza as emoções, como já relatamos.

Sobre o timing perfeito para elaboraram e fazer viralizar determinada construção, há três acontecimentos recentes que orientam essa reação e a criação da cortina de fumaça – acontecimentos que impactam fortemente a articulação da extrema direita e a candidatura Flávio Bolsonaro:

1) Encontro do presidente Lula com Donald Trump, que mostrou a força do presidente brasileiro e sua disposição ao acordo e ao diálogo, com ótima repercussão aqui e no exterior, quando todos apostavam que o encontro seria um fracasso;

2) Operação da PF que revelou o envolvimento do senador Ciro Nogueira com o escândalo do Master e com o banqueiro Daniel Vorcaro, de quem recebia, entre outras benesses, uma gorda mesada; Ciro Nogueira é fortemente ligado a Bolsonaro, de quem foi ministro, e seria o “vice dos sonhos”, nos dizeres de Flávio;

3) Presidente Lula sanciona a lei que cria o Dia Nacional em Memória das Vítimas da Covid, data que será celebrada todo 12 de março, quando ocorreu no Brasil a primeira morte pela doença, chamada por Jair Bolsonaro de “gripezinha”; houve cerimônia no Planalto, em 11 de maio, e o tema terá forte apelo na campanha eleitoral.

Esses três fatos são mais que suficientes para a extrema direita colocar em prática a estratégia da cortina de fumaça, que deve ser cada vez mais chocante (pessoas usando e até bebendo detergente contaminado) para garantir efetividade e desviar o foco do que interessa discutir.

Papel dos influenciadores

Importante também destacar, nesse processo, que os influenciadores – sejam eles do mundo do entretenimento ou do mundo político – têm um papel cada vez mais central na disseminação de desinformação.

Essas vozes públicas que conquistam credibilidade e passam a ter autoridade para dizer levam as pessoas a acreditarem em perseguição, fraude, a minimizarem alertas sanitários. E provocam o constrangimento público das instituições, que se veem forçadas a responder a questões inverossímeis e absurdas.

Uma equipe técnica gabaritada da Anvisa detectou a bactéria, mostrou as condições precárias de higiene na fábrica e provou que isso causa danos às pessoas. Mas nada disso é suficiente, porque políticos com milhões de seguidores e grana à disposição postam fotos dizendo que usam o produto – obviamente não usam, mas isso não vem mais ao caso.

Esses indivíduos que manipulam emoções e crenças de outros indivíduos não estão usando o tal detergente, obviamente; eles estão apenas brincando com as emoções e as crenças dos cidadãos, induzindo pessoas a se exporem a riscos graves, impactando a saúde pública.

Já vimos isso acontecer, e se essas pessoas fazem isso é porque seguem impunes, “lacrando” em cima da confusão e do despreparo das pessoas em geral.

Repetindo de novo para fixar: essas ações não são aleatórias ou espontâneas, elas têm financiamento e integram redes poderosas.

Colocar a população em um estado de aparente ou semiloucura para tirar foco do que interessa custa investimento e elaboração.

Há intencionalidade nessa encenação para provocar uma espécie de alucinação coletiva, que provoca uma situação social de caos – pessoas vão se contaminar, animais vão se contaminar (já há vários relatos dando conta dessa contaminação dos bichinhos), a Anvisa não consegue impor medidas à empresa, pois perde sua credibilidade pela acusação de “perseguição política”.

É assim que funciona, porque a desinformação como arma política prospera no caos, e enquanto alguns tomam detergente, outros ganham tempo para a reconfiguração político-eleitoral.

*Eliara Santana é jornalista, com pós-doutorado em estudos da desinformação pelo Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência (CLE) da Unicamp, doutora e mestre em Linguística e Língua Portuguesa. É pesquisadora do Observatório das Eleições. Sua tese de doutorado sobre o Jornal Nacional discute as estratégias de construção da narrativa do telejornal do impeachment de Dilma Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Organizou e coordenou, com Leonardo Avritzer, o livro “Eleições 2022 e a reconstrução da democracia no Brasil” (Autêntica). Em 2024, com Avritzer e Marisa Von Büllow, organizou o livro “Democracy Under Attack” (Editora Springer).

Publicação de: Viomundo

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