Osvaldo Coggiola: América Latina – de semicolônia a protetorado?

A reatualização agressiva da Doutrina Monroe e a conversão de nações em protetorados expõem a estratégia norte-americana de expulsar rivais geoeconômicos e controlar ativos estratégicos

Por Osvaldo Coggiola*, em A Terra é Redonda

1.

O último relatório da Cepal definiu a situação econômica latino-americana como uma fase de “estagnação neocolonial secular que inibe qualquer projeto de desenvolvimento independente para melhorar as condições de vida da população”, sublinhando como o modelo herdado do colonialismo, baseado na economia extrativa, conduziu o subcontinente a um pântano de baixo crescimento difícil de reverter, na ausência de mudanças profundas na estrutura produtiva.

O relatório indica como, na América Latina e no Caribe, a taxa média de crescimento anual para a década 2015-2024 foi de apenas 0,9% e que há uma necessidade absoluta de “estimular o crescimento para responder aos desafios ambientais, sociais e laborais que enfrenta atualmente”.

Quase um epitáfio da onda nacionalista e socialmente reformista que conheceu nosso continente a partir da transição entre dois séculos, embalada pelo conjuntural aumento dos preços internacionais das matérias-primas. Em 1990, o “Foro de São Paulo”, reunindo quase todas as principais tendências da esquerda continental, anunciou a “onda rosa” que se impôs na transição para o novo século.

Seu balanço foi contraditório: milhões de pessoas foram tiradas de baixo do limiar de pobreza absoluta e do analfabetismo através de programas sociais, o intercâmbio comercial interno foi estimulado com inúmeros acordos regionais e bilaterais, chegando-se a formular a ideia de uma integração energética continental independente, além de alianças políticas anti-imperialistas, como a ALBA.

Ao mesmo tempo, a recuperação comercial derivou em reprimarização produtiva, retrocesso industrial, desemprego formal e informalização crescente do mercado de trabalho, com retrocessos enormes na legislação trabalhista.

Ao não se atacar de raiz os problemas histórico/estruturais – dependência tecnológica, industrial e financeira, hiper concentração agrária e mineira, domínio absoluto do capital monopolista, financeiro e industrial – os avanços sociais foram sendo postos em questão pelas ondas da crise econômica mundial, que conheceu um novo pico em 2008 e se acentuou depois.

Novos embates políticos foram sua consequência, com a emergência do fantasma mundial do neofascismo, centrado na aventura política mundial do magnata Donald Trump. Este retomou, já no seu primeiro mandato, toda a tradição imperialista regional e mundial dos EUA, projetando-a para um novo patamar, aprofundado até o paroxismo no seu segundo mandato.

2.

O relançamento da Doutrina Monroe, com seu corolário trumpista, confirmou que os Estados Unidos entraram em uma nova fase de ataques a territórios com recursos para se apoderarem deles; que nenhum povo da região estaria isento dessa tendência.

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Sob o aparente retorno aos princípios do colonialismo clássico, porém, jazem os estertores de um imperialismo financeiro em processo de decadência, detentor da maior dívida pública do planeta. Para buscar revertê-la, a primeira e obrigada tarefa dos EUA é recompor e aprofundar seu domínio sobre sua plataforma histórica, a América Latina.

Com a militarização provocadora da região atlântica do Caribe, e os ataques contra embarcações sob bandeira venezuelana, se precisou o objetivo do controle da riqueza petrolífera e mineral da Venezuela, através da imposição de um regime político submetido aos ditames imperiais dos EUA.

Depois do “tarifaço” de meados de 2025, destinado a impor novas condições de dominação dos EUA sobre seu histórico quintal, o ataque militar dos EUA contra a Venezuela no alvorecer do novo ano incorporou diretamente a América Latina a um cenário de guerra de alcance mundial.

Todo o sistema jurídico internacional, incluindo o dos Estados Unidos, foi abalado em 3 de janeiro de 2026. A intervenção militar dos EUA contra a Venezuela, o sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, e os anúncios de planos para instalar um governo apoiado pelos EUA remeteram à era da colonização e da lei do mais forte.

O ataque testemunhou a maior derrota e humilhação sofrida pelo exército venezuelano em sua história. Donald Trump declarou que a Venezuela seria governada por ele e sua equipe mais próxima, em benefício das companhias petrolíferas e mineiras norte-americanas.

Foi o primeiro passo da estratégia internacional dos EUA, a “Estratégia de Segurança Nacional”, para reverter seu declínio histórico e restabelecer sua supremacia mundial, tanto no Sul Global quanto no Norte Global: uma lei da selva internacional e uma ordem neofascista em casa e no que considera seu “quintal”, a América Latina e todo o hemisfério Ocidental.

Donald Trump transformou a Venezuela em um protetorado de fato dos EUA e também anunciou a suspensão das exportações de petróleo para Cuba, com o mesmo objetivo de estabelecer um protetorado na ilha caribenha. O governo venezuelano passou a jogar o papel de administrador “crítico” do processo neocolonial.

A retórica histérica, racista e anti-imigração do governo de Donald Trump, caluniando a Venezuela como um “Estado narcoterrorista”, e todos os povos latino-americanos como a causa dos males sociais nos EUA, como desemprego, criminalidade, “narcotráfico”, é dirigida à multidão interna embriagada com o MAGA (Make America Great Again), ao ICE (Immigration and Customs Enforcement) como guarda pretoriana presidencial e a todas as forças de repressão do Estado, mobilizando-os contra o “inimigo em casa”, os trabalhadores, minorias oprimidas e pessoas empobrecidas, em condições de desintegração social.

A ofensiva neofascista, no entanto, já provocou enormes reações populares, como o movimento “No Kings”, que ensejam um aliado poderoso da luta mundial anti-imperialista nos próprios EUA, situados assim no coração da crise política mundial.

3.

O objetivo explícito do governo dos EUA é “negar aos concorrentes não hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais em nosso Hemisfério”.

O novo “Corolário Trump” à Doutrina Monroe é muito mais ousado e abrangente do que o já velho de Roosevelt: seria “uma restauração sensata e potente do poder e das prioridades americanas, consistente com os interesses de segurança dos Estados Unidos”.

Os alvos internacionais são a União Europeia, à qual a nova estratégia declara uma guerra comercial (sem falar na intenção declarada de se apropriar da Groenlândia, atualmente administrada pela Dinamarca), mas também a Rússia e, sobretudo, a China, o principal inimigo estratégico, que ocupa uma posição econômica central em toda a América Latina, com vastos investimentos em infraestrutura e empréstimos.

A “restauração do poder americano” representa um salto na escalada bélica imperialista internacional, com objetivos estratégicos não limitados por qualquer área hemisférica, Norte e Sul, Oriente e Ocidente: a colonização e fragmentação do antigo espaço soviético e da República Popular da China, e a recolonização da América Latina.

Com a exceção de sua resistência a atuar diretamente junto aos EUA no desbloqueio do Estreito de Ormuz, e da rejeição pela Espanha ao uso de suas bases militares para o ataque selvagem ao Irã, a União Europeia se adaptou sem muitos protestos ao processo de “americanização do mundo” encabeçado pela equipe governamental dos EUA, evidenciando a decadência do imperialismo europeu.

No novo ano, nos ataques letais contra embarcações venezuelanas no Caribe e no sequestro de Nicolás Maduro, depois da retórica inicial logo se passou ao comércio (o petróleo) e a instalar um “civilizado” balcão de vendas do que está sendo tomado pelos EUA pela violência.

Donald Trump declarou sem papas na língua que, na medida em que os EUA detêm o exército mais poderoso do mundo, se sentem autorizados a fazer o que desejam ou consideram justo, sem submeter essa “justiça” a qualquer instância, onde e contra quem quiserem, manifestando desprezo contra os discordantes, inclusive nos próprios EUA.

“América para os americanos” (Monroe), assim, virou a base da doutrina de “o mundo para os americanos”: um único elo unifica os diversos cenários de guerra, atropelos e massacres que percorrem o mundo (Ucrânia, Irã, Iêmen, Venezuela, Palestina, Groenlândia, sem esquecer a intenção declarada de devolver aos EUA a posse e controle do canal do Panamá), cuja mola mestra são as convulsões do capital financeiro norte-americano.

Convulsões que raiam o genocídio no bloqueio total imposto a Cuba, privada de recursos energéticos, medicinais e até de suprimentos alimentares básicos, comprometendo não já o nível de vida, mas a simples sobrevivência dos habitantes da maior ilha caribenha, punida pelo pecado de ousar encabeçar a luta anti-imperialista continental na segunda metade do século XX.

4.

A busca da transformação de Cuba e Venezuela, mediante meios político-militares, em protetorados de fato dos EUA não é exemplo isolado, determinado por motivos ideológicos, mas a ponta de um iceberg que visa reformular inteiramente a situação internacional e interna de toda a América Latina em proveito dos interesses imperialistas dos EUA, provocando, se necessário, uma catástrofe social.

A expressão aberta dessa política é a extrema direita e o neofascismo, com os governos de Javier Milei na Argentina ou de Nayib Bukele em El Salvador, que conquistaram importantes vitórias em diversos países, mas ela não prescinde de composições com forças políticas de origem nacionalista ou até de esquerda, na medida que se adaptem ao processo neocolonialista.

Venezuela, onde os restos do chavismo implementam, desde o governo, as mudanças sociais (precarização e arrocho) e econômicas (mudanças na Lei de Hidrocarbonetos) necessárias à escalada do trumpismo, é o exemplo acabado disso.

A implementação dos novos instrumentos políticos da investida dos EUA avançou velozmente no ano em curso. O “Escudo das Américas”, promovido por Donald Trump em março de 2026, reuniu 17 governos do continente com o objetivo de implementar um regime intervencionista e repressivo em toda a região, sob o pretexto de combater o narcotráfico. Uma reedição aggiornata da Operação Condor.

O fascista ianque pretende instalar escritórios do FBI e da CIA em todo o continente para monitorar de perto seus novos protetorados. O alcance da operação é maior: o recente bombardeio da fronteira colombiana pelo Equador de Daniel Noboa pressiona um dos governos que não está explicitamente alinhado com a política de Donald Trump.

Daniel Noboa começou instigando uma guerra comercial contra a Colômbia, envolvendo-a em retórica belicosa: Donald Trump consegue criar assim conflitos por procuração na América Latina, trazendo os enfrentamentos mundiais para a região, para manter todos os países do continente sob seu controle. O Equador, como um instrumento de pressão dos EUA, representa uma ameaça imediata para a Colômbia.

5.

O “Escudo das Américas” inclui o direito de usar força militar letal nos países signatários. Em relação à população imigrante, acordou estender as políticas persecutórias de Donald Trump e do ICE a todos os países; os signatários se comprometeram a receber os deportados dos EUA, estabelecendo “campos de trânsito” até que sejam deportados para seus países de origem.

Os compromissos assinados concedem ao governo de Donald Trump o poder de intervir nos países signatários sempre que julgar que seus termos estão sendo violados. É o que o imperialismo estadunidense está tentando fazer com os três principais países que não fizeram parte do acordo, México, Brasil e Colômbia. Suas administrações tentam apaziguar Donald Trump com concessões, na esperança de evitar intervenções políticas ou militares.

Mas, no México, a CIA e Donald Trump estabeleceram um entendimento direto com as Forças Armadas passando por cima do governo mexicano.

Em nome do combate aos cartéis da droga que Donald Trump e Marco Rubio declararam “transnacionais”, a militarização do país avança.

No Brasil, os EUA conspiraram com Jair Bolsonaro para orquestrar um golpe interno, contando com a ajuda das milícias repressivas do Rio de Janeiro para realizar um massacre nas favelas cariocas, que resultou em mais de 120 mortes, incluindo numerosas execuções, tornando-se a ação policial mais letal da história do Brasil.

O “Corolário Trump” à doutrina Monroe” (“Donroe”) busca transformar a América Latina em um elo nas cadeias produtivas controladas pelo capital e pelo Estado dos EUA e em vassalos político-bélicos do império do Norte, para destruir as cadeias produtivas com participação chinesa, significativas no Brasil, no México, no Peru e na Argentina. A China não possui os meios internacionais para se opor militarmente a esse processo.

Assim, a América Latina é chamada a um novo protagonismo, marcado pela crise e desagregação do capitalismo, centrado no único imperialismo de alcance mundial, o norte-americano.

O intervencionismo político direto dos EUA nas eleições colombianas e brasileiras deste ano está posto na agenda política imediata. O volume da crise e da ofensiva capital-imperialista supera largamente as políticas baseadas na defesa do status quo ante ou nas composições geopolíticas que ignoram (e até boicotam) a luta de classes.

O que está em jogo não é só a sobrevivência das nações latino-americanas como entidades independentes, mas também a sobrevivência física, em condições minimamente dignas, de suas enormes populações exploradas.

Um programa e uma liderança política à altura da crise e da ofensiva imperialista só pode emanar desses mesmos explorados, e enfrentar de raiz os problemas históricos que, durante cinco séculos de exploração e dois séculos de fragmentação, fizeram da América Latina o paraíso dos lucros colonial-imperialistas, da desigualdade social e da exploração desapiedada.

Estão em jogo séculos de luta dos povos originários, dos escravos africanos, dos operários, camponeses e explorados de todas as origens, no nosso continente. Num quadro mundial em que a unidade política dos explorados do mundo todo está posta mais do que nunca diretamente sobre o cenário histórico, e menos do que nunca concretizada em qualquer tipo de organização política internacional.

Este é o desafio histórico, inédito, dramático e contraditório, da atual geração de lutadores político-sociais.

*Osvaldo Coggiola é professor titular sênior no Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de Teoria econômica marxista: uma introdução (Boitempo). [https://amzn.to/3tkGFRo]

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Publicação de: Viomundo

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