A vantagem de 50,3% a 49,7% de Roberto Sánchez (Juntos por el Perú) sobre Keiko Fujimori (Fuerza Popular), na contagem rápida da Ipsos divulgada nesta segunda-feira (8), virou a eleição peruana de cabeça para baixo, mas ainda não autorizava proclamar vencedor. A diferença de 0,6 ponto está dentro da margem de erro de 1,9 ponto, segundo a Transparência, e empurra o Peru para uma apuração tensa, voto por voto.
O dado mudou o clima político porque a primeira foto da noite eleitoral favorecia Keiko. A pesquisa de boca de urna da Ipsos havia mostrado a candidata da direita com 50,7%, contra 49,3% de Sánchez, logo após o fechamento das urnas no domingo (7). Depois, com a contagem rápida, o candidato da esquerda apareceu numericamente à frente.
A virada veio de fora de Lima. Sánchez avançou nas regiões rurais, na serra e na selva, enquanto Keiko manteve força na capital, nas áreas urbanas e no litoral. O Peru voltou a mostrar uma divisão conhecida: de um lado, a cidade integrada ao mercado; de outro, o interior que se sente excluído do poder central.
Segundo os dados divulgados pela imprensa peruana, Sánchez chegou a 69% no voto rural e ficou com 46,1% no voto urbano. Keiko teve 53,9% nas áreas urbanas e 31% nas áreas rurais. Na serra, o candidato de esquerda alcançou 70,2%; na selva, 58,6%. A candidata da direita venceu no litoral, com 60,5%.
A Oficina Nacional de Procesos Electorales (ONPE), órgão responsável pela apuração, manteve a cautela. A contagem oficial seguia em andamento nesta segunda-feira (8). Segundo a Reuters, com cerca de 93% dos votos apurados, Keiko ainda aparecia numericamente à frente, por 50,07% a 49,93%, mas Sánchez vinha reduzindo a distância com a chegada dos votos do interior.
O Peru conhece esse roteiro. Em 2021, Keiko Fujimori também disputou um segundo turno apertado contra Pedro Castillo. A proclamação do resultado demorou semanas, houve pedidos de nulidade e o tribunal eleitoral acabou rejeitando praticamente todas as contestações antes de confirmar a vitória de Castillo.
Sánchez foi ministro do Comércio Exterior e Turismo no governo Castillo. A ligação ajuda a explicar parte de sua força no interior e também alimenta a resistência da direita peruana, que associa o candidato a uma agenda de mudança constitucional e revisão de concessões na mineração.
Keiko tenta chegar à Presidência pela quarta vez em segundo turno. A candidata carrega o sobrenome de Alberto Fujimori, ex-presidente associado por seus apoiadores à política de segurança dura e por seus críticos ao autoritarismo e às violações de direitos cometidas durante seu governo.
A reação do mercado mostrou que a disputa peruana já passou da urna para a economia. A Reuters informou queda de ações de empresas peruanas negociadas nos Estados Unidos, incluindo mineradoras e bancos, enquanto Sánchez encostava em Keiko na apuração oficial. O Peru é um dos principais produtores mundiais de cobre e também produz ouro, prata e zinco.
O discurso de Sánchez após a contagem rápida apostou no voto das regiões. Ele disse que o Peru rural estava sub-representado nos primeiros números e afirmou que respeitaria integralmente os resultados oficiais. A Fuerza Popular, partido de Keiko, também pediu defesa de cada voto e sinalizou que seus fiscais terão papel central na reta final da apuração.
O risco político está no intervalo entre a contagem rápida e a proclamação oficial. Se a vantagem numérica de Sánchez se confirmar, a esquerda peruana terá arrancado uma virada apoiada por serra, selva e voto rural. Se a apuração oficial devolver vantagem a Keiko, a direita tentará vender o resultado como freio a uma nova onda castillista.
A eleição peruana interessa ao Brasil porque recoloca a América do Sul no centro da disputa entre projetos de Estado. Sánchez fala em reformas profundas e maior presença pública sobre recursos estratégicos. Keiko representa a direita de segurança dura, mercado e confronto aberto com a herança de Castillo.
O próximo fato verificável será a atualização da ONPE. Até lá, a manchete correta é virada na contagem rápida, empate técnico no quadro geral e disputa aberta na apuração oficial. O Peru entrou nesta segunda-feira (8) sem presidente eleito proclamado e com o país dividido entre Lima e o interior.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
