Pesquisa põe Moro, Deltan e Ratinho diante da guerra dos palanques da direita

O presidente Lula (PT) lidera Flávio Bolsonaro (PL) por 45% a 40% em eventual segundo turno, segundo pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta segunda-feira (1º), mas o levantamento também revela um problema que atravessa a direita do Paraná: Sergio Moro (PL) tenta montar palanque com Deltan Dallagnol (Novo), cujo partido tem Romeu Zema como pré-candidato ao Planalto, enquanto Ratinho Junior (PSD) evita discutir a sucessão presidencial embora sua legenda tenha Ronaldo Caiado como nome nacional.

A pesquisa registrada sob o número BR-05864/2026 ouviu 2.000 eleitores em 29 e 30 de maio, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%. No primeiro turno estimulado, Lula aparece com 38%, Flávio Bolsonaro com 31%, Renan Santos (Missão) com 6%, Caiado com 6% e Zema com 4% ou 5%, conforme o cenário testado.

O dado desloca a discussão do placar nacional para o efeito local das candidaturas presidenciais. No Paraná, Moro está no PL, que trabalha para transformar Flávio Bolsonaro em herdeiro eleitoral do bolsonarismo. Deltan está no Novo, partido de Zema. Ratinho Junior comanda o PSD no estado, enquanto Caiado tenta ocupar espaço como presidenciável da legenda.

Essa sobreposição cria uma contradição objetiva antes mesmo da campanha oficial. O grupo de Moro precisa de Deltan para mobilizar o eleitorado lavajatista, mas o partido de Deltan tem presidenciável próprio. O grupo de Ratinho tenta manter pontes com setores da direita paranaense, mas o PSD nacional tem Caiado. O PL, por sua vez, quer fidelidade ao projeto de Flávio Bolsonaro.

Moro chamou de “política do avestruz” a postura de Ratinho Junior diante do debate presidencial no Paraná. A crítica mira o governador que evita enfiar o pé na disputa nacional enquanto seus aliados estaduais circulam entre campos que podem se enfrentar depois das convenções partidárias.

A imagem usada por Moro cobra preço também do próprio ex-juiz. Se Ratinho esconde a cabeça no buraco para não escolher palanque presidencial, Moro precisa explicar como pretende acomodar Deltan, do partido de Zema, em uma chapa puxada pelo PL de Flávio Bolsonaro.

A pesquisa mostra por que essa conta pode ficar mais cara após agosto. Em eventual segundo turno, Caiado empata numericamente com Lula em 43% a 43%. Zema perde por 43% a 40%. Flávio Bolsonaro perde por 45% a 40% e caiu quatro pontos em relação ao levantamento anterior, quando aparecia com 44% contra 43% de Lula.

O resultado coloca o PSD diante de uma pergunta incômoda no Paraná. Se Caiado é o nome que mais aperta Lula no segundo turno, por que o campo de Ratinho evitaria disputar o palanque presidencial no estado? A resposta passa pelo cálculo local, no qual alianças estaduais podem valer mais do que a disciplina nacional.

Aliás, a pré-candidatura de Caiado tem cheiro de tática de Gilberto Kassab, mandachuva do PSD, para não embarcar na canoa bolsonarista e liberar nos estados. O partido tem palanques regionais com Lula, sobretudo no Nordeste.

O Novo enfrenta problema semelhante. Zema aparece como alternativa da direita, mas Deltan atua politicamente no entorno de Moro, hoje filiado ao PL. A convivência pode funcionar enquanto a campanha nacional estiver indefinida. Depois da formalização das candidaturas, a duplicidade tende a cobrar definição pública.

O PL também não escapa da contradição. Flávio Bolsonaro lidera a direita no primeiro turno estimulado, com 31%, e aparece com 25% na espontânea. Ainda assim, o senador enfrenta rejeição alta e perdeu terreno contra Lula no confronto direto.

A direita paranaense tenta montar uma frente estadual com partidos que disputam o mesmo eleitor no plano nacional. O problema não é apenas jurídico ou partidário. É político: palanque presidencial define discurso, tempo de televisão, fundo partidário, militância, alianças locais e cobrança pública sobre coerência.

O levantamento ainda mostra que 48% dos eleitores dizem estar cansados da polarização entre lulismo e bolsonarismo e gostariam de uma terceira via. Esse eleitorado existe, mas a direita aparece dividida entre Flávio Bolsonaro, Caiado, Zema e Renan Santos, sem uma saída única até aqui.

No Paraná, essa pulverização pode atingir pré-candidatos a deputado, Senado e governo. Quem estiver colado a um presidenciável que não decolar pode carregar desgaste nacional. Quem tentar ficar em todos os palanques pode perder credibilidade quando a campanha exigir lado.

Moro, Deltan e Ratinho tentam ganhar tempo enquanto as direções nacionais empurram seus próprios nomes. O relógio político, porém, não para no Paraná: se PL, Novo e PSD mantiverem projetos presidenciais diferentes, a direita local terá de escolher entre coerência partidária, conveniência eleitoral e sobrevivência nos palanques de 2026.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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