Comício da direita em Curitiba ataca Lula, STF e Ratinho

O comício da direita em Curitiba reuniu cerca de 2 mil pessoas na noite desta sexta-feira (29), no Igloo Super Hall, no Tarumã, e marcou o primeiro teste público de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no Paraná depois da ofensiva nos Estados Unidos sobre PCC e Comando Vermelho.

Com 11°C na capital paranaense, o ato durou cerca de duas horas e terminou às 21h. Discursaram o vice-prefeito de Curitiba, Paulo Martins (Novo), Deltan Dallagnol (Novo), Filipe Barros (PL), Rogério Marinho (PL-RN), Sergio Moro (PL) e Flávio Bolsonaro.

O roteiro do evento mostrou a direita paranaense tentando acomodar três interesses ao mesmo tempo: atacar o presidente Lula (PT), tensionar o Supremo Tribunal Federal (STF) e sinalizar a Ratinho Junior (PSD) que o bolsonarismo quer o Paraná alinhado à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.

Deltan Dallagnol fez uma fala carregada contra o STF, com ataques diretos aos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. O tom recolocou a Lava Jato no centro do palco, embora o próprio histórico da operação tenha sido atingido por decisões do Supremo e pela suspeição de Moro no caso de Lula.

Flávio Bolsonaro reforçou essa memória ao subir ao palco com uma camiseta preta com os dizeres “Curitiba prende. Brasília solta.” A frase mirava Lula, que ficou 580 dias preso na capital paranaense antes de ter as condenações da Lava Jato anuladas e de ver o STF reconhecer a parcialidade de Moro.

Naquele período, Moro era o juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba e mandou prender Lula. No comício desta sexta-feira, o apresentador do evento exaltou o atual senador como “o homem que prendeu Lula”, frase que funcionou como senha para a plateia lavajatista.

Não houve ataque frontal a Ratinho Junior, que não compareceu ao evento. A ausência do governador, porém, atravessou os discursos. Paulo Martins, vice-prefeito de Curitiba e aliado do Palácio Iguaçu, repetiu o slogan “unidos e em paz”, marca política associada ao grupo de Ratinho.

O gesto de Martins foi acompanhado por uma cena simbólica: o vice-prefeito bateu continência para os nomes chamados ao palco. A imagem figurada ajudou a traduzir o tom do evento, mais de transição negociada do que de guerra aberta contra o governador. O vice-prefeito curitiba é pupilo de Ratinho.

Moro foi quem mais encostou no Palácio Iguaçu sem citar Ratinho Junior pelo nome. O ex-juiz disse que o discurso de “unidos e em paz” pode colocar o país em risco caso a direita não enfrente Lula na eleição presidencial.

O senador afirmou que ninguém pode ficar “escondido como uma avestruz”, numa referência indireta à falta de definição pública de Ratinho Junior sobre a sucessão presidencial. A frase mirou o cálculo do governador, que tenta preservar pontes com setores diversos enquanto a direita nacional pressiona por alinhamento.

Moro também prometeu que não fechará os olhos para “escândalos de corrupção” no Paraná. A fala produziu desconforto político previsível no entorno do Palácio Iguaçu, embora o restante do evento tenha mantido um tom de continuidade, composição e ocupação gradual do espaço governista.

Flávio Bolsonaro concentrou sua fala em Lula, no PT e na decisão dos Estados Unidos de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. O senador disse que fez pela segurança pública em dois dias, em Washington, o que Lula não teria feito em quatro anos.

A frase resume o eixo escolhido pela direita: transformar segurança pública em bandeira presidencial e usar a decisão americana como ativo de campanha. O problema político é que Lula leu o movimento como ingerência estrangeira e acusou o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) de trair a soberania nacional.

A disputa, portanto, não ficou restrita ao palco de Curitiba. Flávio Bolsonaro tentou vender a viagem aos Estados Unidos como vitória política. Lula respondeu em Sergipe com a acusação de traição à pátria. No meio, o Paraná virou laboratório do novo discurso bolsonarista para 2026.

A temperatura do salão contrastou com a audiência digital. No momento mais quente do comício, durante a fala de Flávio Bolsonaro, o Blog do Esmael contabilizou cerca de 500 pessoas acompanhando a transmissão no YouTube.

O número não apaga a força presencial do ato, mas mostra um limite para quem tenta nacionalizar a candidatura a partir de Curitiba. O comício entregou imagens para a militância, recados ao STF, ataques a Lula e um aviso cifrado a Ratinho Junior: a direita quer o Palácio Iguaçu, mas também quer obediência no palanque presidencial.

Comício da direita em Curitiba ataca Lula, STF e Ratinho
Cerca de 500 pessoas assistiram o discurso de Flávio Bolsonaro pelo YouTube. Foto: reprodução

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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