EUA põem PCC e CV na lista terrorista e assustam Faria Lima

O governo dos Estados Unidos classificou nesta quinta-feira (28) o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras, em decisão assinada pelo secretário de Estado Marco Rubio após a ofensiva de Flávio Bolsonaro em Washington.

A medida é uma vitória política para Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que esteve com Donald Trump, JD Vance e Marco Rubio nos últimos dias e pediu a inclusão das facções brasileiras na lista usada pelos Estados Unidos contra cartéis e grupos armados estrangeiros.

Mas o efeito mais incômodo da decisão pode cair sobre a Faria Lima, apelido do centro financeiro paulistano.

A classificação abre caminho para sanções contra empresas, fundos, bancos e intermediários financeiros com ligação direta ou indireta com organizações enquadradas pelos Estados Unidos como terroristas. Isso transforma a pauta de segurança pública em risco de compliance, bloqueio de ativos, perda de reputação e investigação internacional.

A Operação Carbono Oculto já havia mostrado o tamanho do problema. A Receita Federal informou que um esquema ligado ao crime organizado movimentou R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024 em cerca de mil postos de combustíveis. A mesma investigação apontou fintech atuando como “banco paralelo” e pelo menos 40 fundos usados para ocultação de patrimônio.

A nova fase, chamada Fluxo Oculto, aprofunda essa trilha. Segundo investigações divulgadas nesta quinta-feira (28), seis fintechs teriam movimentado cerca de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025 como bancos paralelos ligados ao PCC. O dinheiro, antes tratado como problema de polícia e Receita, entra agora em uma zona sensível para bancos, fundos, corretoras, gestores e plataformas financeiras.

O ponto é explosivo porque a direita tentou vender a decisão americana apenas como endurecimento contra o crime. Para o mercado financeiro, porém, o rótulo terrorista pode virar uma lupa estrangeira sobre operações brasileiras de pagamento, combustíveis, fundos de investimento e lavagem de dinheiro.

Não há, nas informações públicas da Carbono Oculto, prova de que toda a Faria Lima esteja envolvida com facções. O que há é mais grave para quem vive de reputação: investigações oficiais apontando uso de fintechs, fundos e empresas de fachada para movimentar dinheiro de origem criminosa.

O governo Lula (PT) se opõe ao enquadramento do PCC e do CV como organizações terroristas por dois motivos centrais. O primeiro é jurídico: a legislação brasileira trata facções como organizações criminosas, não como grupos terroristas, porque sua atuação tem finalidade econômica, e não motivação política, religiosa, racial ou ideológica.

O segundo motivo é soberania. Se Washington passa a enquadrar facções brasileiras como terroristas, os Estados Unidos ganham argumento para aplicar sanções, pressionar empresas brasileiras e interferir em cadeias econômicas dentro do território nacional. A fronteira entre cooperação internacional e tutela estrangeira fica mais estreita.

A oportunidade de Lula está justamente aí. O presidente pode defender que PCC e CV devem ser combatidos com inteligência, bloqueio financeiro, repressão à lavagem de dinheiro, controle de armas e cooperação internacional, sem entregar ao governo Trump a palavra final sobre segurança pública brasileira.

O risco para Lula também é concreto. Flávio Bolsonaro tentará transformar a resistência do governo em acusação política. A direita ganhou uma pauta simples, emocional e de alto impacto eleitoral: crime organizado, medo nas cidades, fronteiras, prisões e domínio territorial.

A jogada de Flávio Bolsonaro ainda tem outro objetivo. Ela desloca o debate do caso BolsoMaster, das conversas com Daniel Vorcaro e do pedido de dinheiro para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, para uma arena em que a direita costuma falar com mais facilidade ao seu eleitorado.

Só que a nova pauta tem veneno embutido. Ao trazer Trump para carimbar PCC e CV como terrorismo, Flávio Bolsonaro também ajudou a abrir uma frente de risco para setores financeiros brasileiros que aparecem nas investigações sobre lavagem, combustíveis e fintechs.

A Faria Lima não pode aplaudir a classificação americana como se ela atingisse apenas presídio, favela ou fronteira. A Carbono Oculto mostrou que o crime organizado também circula por CNPJ, fundo, conta digital, posto de combustível e estrutura financeira sofisticada.

Lula terá de responder ao medo legítimo da população sem parecer complacente com facções. Flávio Bolsonaro terá de explicar por que uma medida vendida como dura contra o crime pode alcançar o coração do mercado que parte da direita costuma proteger.

O combate ao PCC e ao CV exige Estado forte, Receita equipada, Polícia Federal com inteligência, Ministério Público atuante e sistema financeiro vigiado. O que não serve ao Brasil é terceirizar soberania para Trump enquanto o dinheiro do crime passeia por contas, fundos e fintechs.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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