Airbnb entrega dados e abre flanco em Curitiba

O prefeito Eduardo Pimentel (PSD) recebeu dados do Airbnb para planejar o turismo em Curitiba nesta segunda-feira (25), mas a parceria abriu uma pergunta maior: a Prefeitura vai usar essa informação só para vender a cidade ou também para medir o impacto do aluguel curto sobre moradia, condomínios, hotéis e tributos?

A cooperação foi assinada no Palácio 29 de Março, sede do Executivo municipal, com representantes da plataforma. Segundo a Prefeitura, o Airbnb vai compartilhar informações de inteligência de mercado sobre tendências de viagem e fluxo turístico na capital.

A administração municipal informa que os dados serão agregados, estatísticos, anônimos e não pessoais. Esse ponto importa porque evita exposição individual de anfitriões e hóspedes, mas não elimina o debate público sobre onde, quanto e como a locação por temporada cresce em Curitiba.

Pimentel defendeu a parceria como resposta ao aumento de visitantes em datas específicas, como o Natal e grandes eventos. A Prefeitura afirma que Curitiba recebe cerca de 10 milhões de pessoas por ano e que a rede hoteleira registra picos de ocupação em períodos de maior demanda.

O argumento turístico é legítimo. Uma cidade que lota hotel, bar, restaurante, transporte por aplicativo e comércio de rua precisa entender o comportamento do visitante. O problema começa quando o mesmo dado que ajuda a atrair turista também revela a pressão de uma atividade econômica sobre prédios residenciais.

A Câmara Municipal de Curitiba já discute esse ponto. O projeto de lei 005.00646.2025, apresentado por Tico Kuzma (PSD), propõe regras para hospedagem por curta temporada em imóveis residenciais, com limite de até 120 dias por ano, cadastro municipal e obrigações para proprietários e plataformas.

A proposta também fala em matrícula do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), número máximo de hóspedes, responsabilidade de intermediadores e recolhimento do ISS quando o serviço ocorrer em Curitiba. Em linguagem simples, a Câmara tenta tirar o aluguel curto da zona cinzenta.

O conflito atinge interesses diferentes. Anfitriões veem no Airbnb uma renda extra. Turistas encontram alternativa mais barata ou mais flexível que hotel. Moradores de condomínios reclamam de rotatividade, barulho, segurança e uso de áreas comuns por pessoas que não vivem no prédio.

A rede hoteleira enxerga concorrência com menos obrigações. A Prefeitura vê turismo, consumo e arrecadação. Os vereadores enxergam um tema que mistura economia digital, vida em condomínio e fiscalização municipal, sem resposta fácil para agradar todos os lados.

O dado entregue pelo Airbnb pode ajudar Curitiba a saber quais bairros concentram hospedagem, em quais períodos há maior procura e que tipo de visitante usa a plataforma. A Prefeitura não informou, porém, se pretende cruzar essa inteligência com política de habitação, fiscalização tributária ou regras de convivência urbana.

Esse é o flanco político da parceria. Pimentel pode tratar o Airbnb como vitrine de cidade turística ou como laboratório para uma regulação mais ampla. A primeira escolha rende foto e discurso de promoção. A segunda mexe com moradores, síndicos, anfitriões, hotéis, bares, restaurantes e cofres públicos.

Curitiba não precisa demonizar o aluguel por temporada. Também não pode fingir que a expansão de plataformas digitais cabe apenas no folder turístico. O desafio da Prefeitura é transformar dados privados em política pública transparente, com regra clara para quem hospeda, para quem visita e para quem mora ao lado.

A parceria com o Airbnb dá a Pimentel uma ferramenta que a cidade não tinha. Agora, a cobrança passa a ser outra: mostrar o que a Prefeitura fará com esses dados antes que a disputa entre turismo, moradia e arrecadação vire mais uma briga empurrada para os condomínios.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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