Marina Lacerda: Por que um afetou a popularidade e outro não?

Com a isenção, o governo acertou o subconjunto menos ressentido do segmento mais ressentido; o desenrola atua no mecanismo essencial das sociedades capitalistas contemporâneas: o crédito como substituto do salário

Por Marina Basso Lacerda*, no Le Monde Diplomatique Brasil

Medidas de alcance e natureza distintos

A isenção do Imposto de Renda é uma medida redistributiva de médio e longo prazo. Aprovada com unanimidade no Congresso e em vigor desde janeiro de 2026, beneficia cerca de 25 milhões de brasileiros – isenção total para quem ganha até R$ 5 mil (o antigo limite era R$ 3 mil) e redução parcial para quem ganha entre R$ 5 mil e R$ 7.350, trabalhadores formais de renda média, que até então pagavam até R$ 300 por mês ao fisco. Somando as economias mensais, funciona como um 14º salário.

É uma medida de justiça tributária real: o Brasil tem uma das tributações mais regressivas do mundo, e ampliar a faixa de isenção representa um passo estrutural na direção de tributar menos quem trabalha e mais quem acumula.

Já o Desenrola 2.0, lançado em maio, é de outra natureza. Oferece alívio imediato a quem está afogado em dívidas, com descontos de até 90% e juros limitados a 1,99% ao mês. Favorece os de carteira assinada à medida em que o FGTS pode ser utilizado (o que gera o problema da financeirização da proteção social, mas isso é outro assunto), mas não se restringe a esse público.

Seu alcance potencial é radicalmente diferente: segundo a Serasa, há 82,8 milhões de brasileiros inadimplentes – mais de cinco vezes o público da isenção do IR. Esse não é o universo dos beneficiados do programa, que se restringe a quem ganha até 8 mil por mês, mas estima-se que alcançará dezenas de milhões de pessoas. E o perfil desses inadimplentes é bem distinto da classe média formal: 48% ganham até um salário-mínimo, 30% ganham até dois salários-mínimos. Ou seja, 78% da base de inadimplentes está na parte mais baixa da pirâmide de renda – exatamente a base histórica das gestões do PT.

O paradoxo das pesquisas

Apesar de sua relevância estrutural e distributiva, a isenção do IR não produziu impacto mensurável na popularidade de Lula. Depois de fevereiro, quando os primeiros salários chegaram com o benefício embutido, os índices permaneceram estagnados ou pioraram. A pesquisa Atlas/Bloomberg de março revelou um dado particularmente desconcertante: a faixa de renda entre R$ 3 mil e R$ 5 mil – a mais beneficiada pela isenção – é a que mais rejeita o governo (mais do que as classes altas!), com 59% avaliando a gestão como ruim ou péssima.

O Desenrola, por outro lado, moveu o ponteiro. A Quaest/Genial de maio – realizada entre os dias 8 e 11, poucos dias após o lançamento do programa – registrou uma alta de aprovação de 43% para 46%, acima da margem de erro, e a diferença entre aprovação e desaprovação caiu de nove pontos percentuais em abril para apenas três em maio (e isso foi antes das reportagens do Intercept sobre o candidato Flávio Bolsonaro). A própria pesquisa incluiu uma pergunta direta sobre o programa: 50% consideram o Desenrola “uma boa ideia”.

O Datafolha da semana passada, por sua vez, mostrou que 68% dos endividados acreditam que serão beneficiados pessoalmente – um percentual que supera, em muito, os que avaliam o governo como ótimo ou bom. Em outras palavras: o Desenrola conquista gente que sequer gosta do governo.

Porque o IR não colou

Há razões imediatas e razões mais profundas.

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As imediatas são conhecidas: o benefício da isenção é invisível. Simplesmente o contracheque veio com um valor marginalmente maior, diluído em meio a gastos típicos do início do ano. O Desenrola, ao contrário, é um acontecimento: a pessoa toma a iniciativa de renegociar, vê o desconto de 80% aplicado à sua dívida. É o tipo de coisa que se conta para alguém.

Mas a razão mais profunda está no perfil do público beneficiado pela isenção do IR – e nas razões estruturais pelas quais esse público rejeita Lula.

A isenção beneficia o trabalhador CLT que ganha entre R$ 3 mil e R$ 5 mil – o subconjunto mais estável e protegido da faixa de 2 a 5 salários-mínimos que, no entanto, é dominada pelo precariado: o entregador de aplicativo, o motorista de Uber, o MEI, o pequeno empreendedor informal. Como André Singer aponta, trata-se de “um conjunto altamente heterogêneo de pessoas que se matam para chegar ao fim do mês” – e é esse precariado que concentra a rejeição a Lula e a atração pelo discurso antissistema.

O paradoxo é preciso: o governo acertou o subconjunto menos ressentido do segmento mais ressentido. O trabalhador com carteira assinada ganhando R$ 4 mil é, em certa medida, o maior beneficiário do establishment trabalhista que o lulismo ajudou a construir. Quem odeia esse establishment é o vizinho informal que não tem carteira, não declara IR, e, portanto, não foi tocado pela isenção.

O Desenrola acerta, e qual o problema

O Desenrola fala com outro Brasil. Seu público está concentrado na base da pirâmide, quem ganha até dois salários-mínimos.

A isenção do IR age sobre o trabalho formal. A dívida, por sua vez, atravessa toda a sociedade brasileira, e não por acaso. O endividamento das famílias é um fenômeno estrutural do capitalismo deste século. Wolfgang Streeck[i] (em Tempo comprado, Boitempo, 2018) descreve como esse sistema de produção, quando rompeu o pacto de bem-estar social vigente depois da 2ª Guerra Mundial, recorreu a uma sequência de expedientes para adiar o conflito distributivo: primeiro a inflação, depois o endividamento público, e finalmente o endividamento privado.

É o crédito (e a dívida) como substituto do salário a política massiva que vemos hoje em quase todo o mundo capitalista: os trabalhadores pararam de ganhar mais em termos reais, mas podiam consumir como se ganhassem. Uma solução que permitiu ao capital comprimir salários e ao mesmo tempo evitar a revolta social. (Até 2008, mas isso também é outra história.)

No Brasil, esse mecanismo chegou mais tarde, nos anos Lula 1 e 2, embalado pelo crédito consignado, pelo financiamento de eletrodomésticos e pelo Minha Casa Minha Vida. No início funcionou porque salário e emprego também cresciam, e o crédito amplificava uma melhora real. Mas a recessão de 2015, a pandemia e os juros altíssimos do pós-pandemia acumularam um passivo que as famílias carregam até hoje. Bolsonaro chegou a permitir empréstimo tendo como garantia o auxílio emergencial. Quando Lula voltou, em 2023, as famílias chegaram com três crises nas costas.

Mas é importante e doloroso reconhecer que o Desenrola 2.0 não resolve esse passivo. Os programas de renegociação trocam dívida cara por dívida mais barata, mas o estoque total não cai – tanto que estamos no segundo programa – porque a família volta a se endividar. O que ele oferece é alívio imediato a um problema resultado de décadas de reprimarização e financeirização de todos os aspectos da vida, inclusive da proteção social – o modelo que, como descreve Lena Lena Lavinas[ii], substituiu saúde pública por plano privado subsidiado, educação universal por Fies com dívida estudantil, e proteção trabalhista por consignado descontado antes de o dinheiro chegar à conta.

E então?

Existem dois caminhos para a esquerda materialista que quer se voltar para as maiorias trabalhadoras.

Um é o populismo progressista de Naomi Klein[iii] e Nancy Fraser[iv]: disputar o terreno do ressentimento antissistema com uma narrativa de esquerda, sem necessariamente romper com a estrutura econômica vigente.

Outro é o desenvolvimentismo – reindustrialização, controle de capitais, políticas públicas diretas de saúde e educação em vez de financeirização e trilhão de juros para a dívida pública.

As políticas que Lula tem conseguido fazer são do primeiro tipo. O Desenrola 2 é o exemplo mais nítido. A isenção do IR é marginalmente mais estrutural, mas não toca na lógica de emprego, oportunidade e mobilidade. Ambos são, no limite, analgésicos.

Todos sabemos que o caminho do desenvolvimentismo não está disponível. Mas temos que elaborá-lo, ainda que como projeto, porque as medidas populistas de esquerda têm efeito político efêmero e não têm conseguido conter a avalanche da direita radical. Elas compram tempo sem alterar o terreno em que a disputa se dá. Essa é a contradição incontornável que a esquerda materialista precisa encarar.

[i] STREECK, Wolfgang. Tempo comprado: a crise adiada do capitalismo democrático. Boitempo, 2018.

[ii] LAVINAS, Lena. The Takeover of Social Policy by Financialization. Palgrave Macmillan, 201

[iii] KLEIN, N. 2017. No Is Not Enough: Resisting Trump’s Shock Politics and Winning the World We Need. Chicago: Haymarket Books.

[iv] FRASER, N. 2019. The Old Is Dying and the New Cannot Be Born: From Progressive Neoliberalism to Trump and Beyond. London; New York: Verso Books.

*Marina Basso Lacerda é doutora e pós-doutora em Ciência Política, pesquisadora da UnB e da USP, autora do livro O Novo Conservadorismo Brasileiro: de Reagan a Bolsonaro, finalista do Prêmio Jabuti.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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