O deputado estadual Requião Filho (PDT) transformou o lançamento de sua pré-candidatura ao governo do Paraná, neste sábado (30), em Curitiba, em um discurso de confronto direto com a direita, o governo Ratinho Junior (PSD) e o ciclo de privatizações no estado.
Ao lado de Gleisi Hoffmann (PT), lançada ao Senado, Requião Filho buscou ocupar o espaço de oposição com três marcas: defesa dos trabalhadores, retomada do legado dos governos Roberto Requião e crítica ao grupo que tenta manter o Palácio Iguaçu em 2026.
O ponto mais quente veio logo no início. Requião Filho comparou o ato progressista ao evento da direita realizado na sexta-feira (29), também em Curitiba, e respondeu à provocação do “pão com mortadela”.
“Deixa eu corrigir eles. Aqui tem pão com mortadela. Mas aqui tem arroz, aqui tem feijão, aqui tem leite, aqui tem produção de alimento”, disse.
A frase sintetizou a tentativa de separar os dois palanques. De um lado, segundo ele, estaria o Paraná do trabalho, da agricultura, da comida na mesa e dos servidores públicos. Do outro, “salto alto” e “gravata de seda”, expressão usada para atacar o que classificou como distância da direita em relação ao povo paranaense.
Requião Filho também puxou o discurso para a memória histórica do estado. Disse que “o Paraná não começou ontem” e citou agricultores, a Guerra do Contestado, a luta pela reforma agrária e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) como parte da formação política e social do Paraná.
O pré-candidato usou a bandeira do PDT para apresentar o tom da campanha. Ao explicar o símbolo da mão segurando uma rosa, afirmou que a rosa representa a vulnerabilidade dos direitos e da democracia, enquanto o punho cerrado expressa a força coletiva para protegê-los.
A partir daí, colocou trabalhadores, policiais, enfermeiras, professoras e professores no centro do discurso. Foi uma escolha política calculada: Requião Filho tentou falar com o servidor público, com o eleitor popular e com a militância de esquerda sem abandonar a pauta de gestão.
O filho de Roberto Requião também acionou o legado do pai. Citou o Trator Solidário, o Leite das Crianças, investimentos em hospitais, educação e o salário mínimo regional. O recado foi claro: a candidatura quer vender a ideia de retorno de um modelo de governo que, segundo ele, “cuidava de pessoas”.
A crítica ao atual bloco de poder veio em seguida. Requião Filho disse que seus adversários “cuidam de CNPJ”, de propaganda e de lucro de pequenos grupos econômicos. Em contraste, afirmou que a aliança de Requião, Gleisi, PT, PDT e demais partidos do campo progressista pretende governar para a população.
O trecho com maior apelo programático veio quando ele falou em “mão forte que puxa para cima”. Nesse ponto, defendeu isenção de impostos para pequenos empresários, zerar Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) de remédios, zerar ICMS da cesta básica e fortalecer o salário do trabalhador.
Requião Filho também prometeu enfrentar a agenda de privatizações. Disse que é possível “retomar a Copel”, “retomar a Sanepar”, impedir a venda da Sanepar e devolver ao povo paranaense o orgulho de ser paranaense.
A fala mirou diretamente o governo Ratinho Junior, embora nem sempre tenha citado o governador nominalmente. Quando disse que há um grupo que se apresenta “unido e em paz”, mas troca de pré-candidatos ao governo em poucos meses, Requião Filho tentou carimbar a base governista como desorganizada, indecisa e presa a interesses internos.
O discurso também buscou colar a pré-candidatura estadual ao projeto nacional de Lula (PT). Requião Filho citou Farmácia Popular, Minha Casa Minha Vida, Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a retomada de políticas sociais como exemplos de governo voltado à vida concreta da população.
A dobradinha com Gleisi apareceu no fechamento. Requião Filho pediu votos para Lula, Gleisi, deputados estaduais, deputados federais e para um governador comprometido com o povo do Paraná. A frase costurou o palanque estadual à disputa nacional de 2026.
O lançamento mostrou que Requião Filho tentará disputar o Palácio Iguaçu com uma mistura de memória requianista, lulismo social, ataque às privatizações e crítica à elite política que cerca o atual governo. A consequência imediata é colocar Ratinho, Moro e a direita paranaense no mesmo campo de cobrança.
No discurso deste sábado, Requião Filho não tentou parecer neutro. Ele escolheu lado, eleitor e adversário. A campanha progressista no Paraná sai do lançamento com uma narrativa definida: trabalhadores contra privatistas, povo contra elite, Estado social contra balcão de negócios.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
