Direita testa xingamento como programa em 2026

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Sergio Moro (PL) e aliados da direita testaram na sexta-feira (29), em Curitiba, uma tática eleitoral de alto ruído e baixo programa: xingar Lula, PT, Gleisi Hoffmann e a esquerda para manter a tropa acesa em 2026.

As falas analisadas pelo Blog do Esmael, durante a transmissão do evento, mostra uma engrenagem simples. O adversário vira inimigo moral, a militância recebe uma ordem de combate e a eleição passa a ser narrada como cruzada contra o PT.

O método tem força. Xingamento gruda, viraliza, cria corte para rede social e entrega ao eleitor convertido uma senha de pertencimento. Quem estava no evento não precisava ouvir um plano de governo para saber de que lado estava.

O limite eleitoral aparece no mesmo material. Em mais de três horas de transmissão, Lula foi citado 69 vezes, PT apareceu 35 vezes, esquerda surgiu 17 vezes e a palavra “propostas” apareceu uma vez, em referência genérica a Flávio Bolsonaro.

A diferença entre mobilizar e convencer está nesse buraco. A direita fala muito bem com quem já odeia Lula, já rejeita Gleisi e já vê Moro como símbolo da Lava Jato. O problema começa quando a campanha precisa sair do grupo de WhatsApp e chegar ao eleitor que pergunta por salário, saúde, escola, comida, transporte e segurança.

Na live, Lula foi chamado de “ladrão”, “lixo” e “chorume”. Também houve ataque pessoal à esposa do presidente. Gleisi foi tratada como alvo a ser barrado no Senado. A esquerda apareceu como algo a ser “exorcizado”.

A retórica não foi acidente de percurso. Ela organizou o evento. A apresentação de Flávio Bolsonaro como “filho da esperança”, “01” e herdeiro político de Jair Bolsonaro mostrou que a direita quer transferir voto, afeto e ressentimento do pai para o filho.

Isso funciona no primeiro anel do bolsonarismo. O eleitor fiel gosta da senha, repete o bordão e multiplica o vídeo. A campanha ganha barulho, voluntário, engajamento e clima de largada.

Para Flávio Bolsonaro, a vantagem é óbvia. Ele não precisa se apresentar como quadro novo; basta aparecer como continuidade familiar. O risco também é claro: quanto mais a campanha depende do sobrenome, menos ele aparece como candidato com agenda própria para o país.

Para Moro, o xingamento oferece outro ganho. O ex-juiz tenta reacender a memória da Lava Jato em Curitiba, cidade onde Lula ficou preso por 580 dias antes de ter as condenações anuladas e a parcialidade de Moro reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Essa memória mobiliza parte da direita paranaense, mas cobra preço. O mesmo palco que grita “o homem que prendeu Lula” obriga Moro a disputar 2026 preso a uma história judicial que sofreu derrotas no próprio STF.

No Paraná, a tática tem função mais específica. Em 2026, cada eleitor votará em dois nomes para o Senado. A direita sabe que a divisão do segundo voto pode abrir caminho para Gleisi. Por isso, o evento insistiu em unidade, voto fechado e obediência ao comando bolsonarista.

A pancadaria verbal ajuda nessa disciplina. Quando a política vira guerra, divergência interna passa a parecer traição. A candidatura de Filipe Barros ao Senado e a presença de Deltan Dallagnol no mesmo campo dependem dessa narrativa de tropa unida.

O problema é que eleição majoritária não se vence só com torcida. Quem disputa governo do Paraná precisa conversar com prefeitos, servidores, agricultores, trabalhadores urbanos, empresários pequenos e famílias que não vivem de militância digital.

Foi nesse espaço que o campo progressista tentou entrar no sábado (30). Requião Filho (PDT), ao lado de Gleisi Hoffmann (PT), respondeu à direita com outro enquadramento: comida, trabalho, salário, imposto, serviços públicos, Copel, Sanepar e crítica às privatizações.

A fala progressista também teve ataque. Gleisi chamou Moro de “juiz ladrão”, e a esquerda não poupou a direita. A diferença eleitoral está no miolo do discurso: Requião Filho tentou transformar a disputa em comparação entre modelo de governo, bolso do trabalhador e patrimônio público.

Isso não garante vitória. Programa sem emoção não anda. Mas xingamento sem programa costuma bater teto quando o eleitor começa a cobrar consequência concreta.

A direita sabe disso. Por isso embrulha o ataque em segurança pública, combate ao crime organizado, impeachment de ministros do STF e nostalgia da Lava Jato. São temas com apelo real em parte do eleitorado. A questão é que eles apareceram no palanque como grito, não como desenho de governo.

A pergunta eleitoral de 2026 passa por esse ponto. O xingamento pode bastar para manter a base bolsonarista em pé? Sim. Pode ajudar a direita a organizar o segundo voto ao Senado no Paraná? Também pode. Pode substituir proposta de país durante uma campanha inteira? Aí começa o risco.

O eleitor antipetista duro não precisa ser convencido. Ele precisa ser ativado. O eleitor de centro, o trabalhador que sente preço e juro, a mãe que espera consulta, o jovem que procura emprego e o servidor que teme privatização pedem mais do que insulto.

O palanque de sexta-feira mostrou uma direita barulhenta, nacionalizada e ainda dependente do inimigo Lula para existir politicamente. O palanque de sábado mostrou uma esquerda tentando trocar a briga moral por cobrança social, sem abandonar o confronto.

A eleição de 2026 no Paraná começa nesse choque. A direita quer transformar xingamento em senha de voto. O campo progressista quer carimbar essa senha como ausência de programa. O resultado dependerá de quem conseguir falar com quem ainda não decidiu a vida pela raiva.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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