O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) virou alvo de uma representação na Procuradoria-Geral da República (PGR), apresentada no sábado (30), para apurar se seus encontros com Donald Trump e Marco Rubio, nos Estados Unidos, atingiram a soberania nacional; no Paraná, o pedido cobra posição de Sergio Moro (PL), Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL), que dividiram palanque com ele em Curitiba na sexta-feira (29).
A representação foi assinada por sete deputados federais do PSOL e da Rede: Fernanda Melchionna, Sâmia Bomfim, Duda Salabert, Luiza Erundina, Heloísa Helena, Chico Alencar e Luizianne Lins. O documento pede que a PGR abra apuração sobre a atuação de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos.
Segundo a peça, Flávio Bolsonaro esteve em Washington entre 26 e 29 de maio de 2026, reuniu-se com Donald Trump e Marco Rubio e solicitou ao governo norte-americano a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
O pedido é uma acusação formal, não uma condenação. Os parlamentares sustentam que a conduta pode configurar, em tese, atentado à soberania nacional, crime previsto no Código Penal. Cabe à PGR decidir se vê elementos para pedir investigação ou adotar outra providência.
A frente jurídica abriu uma pergunta política para o Paraná: Sergio Moro, Deltan Dallagnol e Filipe Barros endossam a estratégia internacional de Flávio Bolsonaro ou querem apenas o bônus eleitoral da segurança pública sem assumir o custo diplomático da operação?
Na quinta-feira (28), o governo dos Estados Unidos anunciou que PCC e CV passariam a ser tratados como organizações terroristas estrangeiras a partir de 5 de junho. Antes da data, as facções já entram na lista de terroristas globais especialmente designados, categoria ligada a bloqueios financeiros e restrições internacionais.
O governo Lula (PT) reagiu dizendo que o Brasil combate facções criminosas com Polícia Federal, inteligência, cooperação internacional e controle do dinheiro ilegal, mas rejeita tutela estrangeira sobre território, empresas e instituições brasileiras.
O risco econômico é concreto. A classificação pode aumentar o escrutínio sobre instituições financeiras e empresas que operam em setores como agronegócio, energia, mineração e telecomunicações. O problema não é defender facção, é abrir brecha para sanção estrangeira sobre agentes econômicos brasileiros sem decisão do Estado brasileiro.
A pré-campanha de Flávio Bolsonaro reagiu. Em nota assinada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador-geral da pré-campanha, a iniciativa foi tratada como tentativa de judicializar a disputa política. A defesa do senador afirma que a articulação buscou fortalecer o combate ao crime organizado.
Essa resposta não encerra o problema para o palanque paranaense. Na sexta-feira (29), Moro lançou sua pré-candidatura ao governo do Paraná em Curitiba, ao lado de Flávio Bolsonaro, Deltan Dallagnol e Filipe Barros. O ato também serviu para apresentar Deltan e Filipe Barros como nomes ao Senado.
“Flávio Bolsonaro é traidor da Pátria e eu posso provar. Ele defendeu que os EUA bombardeassem o Brasil”, disse o deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ), vice-líder do governo, durante sua visita ao Paraná.
Moro tenta vender ao eleitor paranaense a imagem de candidato da segurança pública e da Lava Jato. Deltan busca recuperar espaço eleitoral depois de perder o mandato. Filipe Barros tenta ocupar a cadeira do bolsonarismo raiz no estado. Os três agora precisam dizer se a segurança pública que defendem passa por pedir pressão de Washington sobre o Brasil.
O Paraná não está fora dessa conta. O estado tem agronegócio exportador, cooperativas, portos, bancos, fintechs, empresas de tecnologia, universidades e cadeias logísticas ligadas ao mercado internacional. Qualquer ampliação de controle financeiro, câmbio ou sanção afeta custo, contrato e reputação.
A representação também pede comunicação ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para avaliar eventual influência estrangeira no processo eleitoral. Essa é a parte mais incômoda para Flávio Bolsonaro, porque a viagem aos Estados Unidos não ocorreu em agenda neutra: ela foi usada como ativo de campanha presidencial.
Moro, Deltan e Filipe Barros receberam Flávio Bolsonaro no Paraná horas depois da ofensiva internacional virar crise de soberania. A PGR agora transforma o que era troféu de palanque em questão institucional. A próxima pergunta é simples: a chapa paranaense vai defender o pedido aos Estados Unidos ou vai fingir que a viagem de Washington não passou por Curitiba?
Continue acompanhando os bastidores da política e do poder pelo Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
