Ormuz dá pretexto para a banca segurar o juro

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) cortou a Selic para 14,5% ao ano na quarta-feira (29), mas deixou a porta estreita para novos cortes ao invocar a incerteza externa provocada pela guerra no Oriente Médio. Para a banca, Ormuz virou o argumento perfeito: o conflito aparece no comunicado como risco técnico, mas chega ao trabalhador como crédito caro, consumo travado e renda espremida.

A decisão foi unânime e reduziu a taxa básica em 0,25 ponto percentual. O problema está menos no tamanho do corte e mais no recado.

O BC evitou assumir um caminho claro para as próximas reuniões. Disse que os próximos passos dependerão de novas informações sobre a profundidade e a duração dos conflitos no Oriente Médio, além dos efeitos sobre os preços.

Traduzindo: a guerra virou a senha para manter o Brasil com uma das políticas de juros mais duras do mundo.

A Selic ainda está em 14,5% ao ano. Nesse patamar, o dinheiro continua rendendo muito para quem vive de aplicação financeira e custando caro para quem precisa financiar casa, carro, máquina, estoque, cartão ou capital de giro.

O Estreito de Ormuz entrou no comunicado do BC como “incerteza externa”. Mas, fora do papel técnico, Ormuz é o canal por onde passa cerca de um quinto do petróleo transportado no mundo. Qualquer bloqueio, ameaça ou bravata naquela faixa de mar mexe com combustível, frete, alimento e inflação.

Na mesma janela da decisão do Copom, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, republicou uma imagem que rebatizava o Estreito de Ormuz como “Estreito de Trump”, em meio à pressão militar contra o Irã e ao bloqueio naval americano.

A cena é quase caricatural, mas o efeito econômico não é piada.

Reportagens internacionais informaram que o bloqueio naval dos Estados Unidos contra o Irã poderia durar meses e que a tensão já empurrava o petróleo para a faixa acima de US$ 120 o barril. O Guardian registrou que o tráfego de embarcações caiu muito em relação ao padrão normal no estreito.

É esse medo que a banca transforma em planilha.

Quando o petróleo sobe, o mercado financeiro grita inflação. Quando grita inflação, pressiona por juro alto. Quando o juro fica alto, o trabalhador paga duas vezes: no preço do combustível e no custo do crédito.

A engrenagem é simples.

O banco ganha com dinheiro parado. O comerciante vende menos. A indústria posterga investimento. A família troca financiamento por aperto. O governo perde fôlego para disputar a melhora da economia real.

O BC afirma que age para trazer a inflação para a meta. Mas o comunicado também mostra a dependência da política monetária brasileira em relação à leitura feita pelos oligarcas do sistema financeiro e da velha mídia corporativa sobre guerra, petróleo e câmbio.

A pergunta política é outra: até quando o trabalhador brasileiro será punido por uma crise fabricada longe daqui e aproveitada de perto pela banca?

A Selic a 14,5% não é detalhe contábil. É uma trava concreta sobre emprego, renda, consumo e produção.

O governo do presidente Lula (PT) precisa disputar essa narrativa com nome e endereço. A guerra em Ormuz pode pressionar preços, mas não pode virar salvo-conduto permanente para banqueiro ganhar com juro alto enquanto o país adia crescimento.

A tensão no Oriente Médio existe. O bloqueio naval existe. O risco sobre o petróleo existe.

O que também existe é uma banca sempre pronta para transformar crise internacional em lucro doméstico.

Com a Selic ainda nas alturas, Ormuz virou a desculpa elegante para manter o Brasil ajoelhado diante do rentismo.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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