O presidente Lula (PT) afirmou nesta quinta-feira (27), em entrevista à Globo, que não moverá “um milímetro” da Presidência da República para proteger o filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, caso ele tenha cometido algum ilícito. Na mesma sabatina, o candidato à reeleição descartou privatizar os Correios, disse que a dívida pública não o preocupa e prometeu recuperar a estatal, que acumula quatro anos de prejuízos.
A entrevista foi conduzida pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli, diretamente dos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro. Lula foi o quarto candidato entrevistado pela emissora em uma série que antecede a eleição presidencial de 4 de outubro.
O ponto politicamente mais delicado da entrevista apareceu quando Lula foi questionado sobre as investigações da Polícia Federal envolvendo Lulinha. O presidente afirmou que o filho terá de responder como qualquer cidadão se ficar comprovado que cometeu algum crime.
“Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro”, declarou.
Nas redes sociais, Lula reforçou a mensagem de independência das investigações. “Não vou mover um milímetro da Presidência da República para proteger ninguém. Se houver qualquer ilícito, que seja investigado e julgado, como deve acontecer com qualquer cidadão. A lei vale para todos”, escreveu.
O presidente também afirmou que não pretende afastar delegado da Polícia Federal nem interferir em investigação para beneficiar o filho. Disse ainda que Lulinha conhece os efeitos políticos e pessoais de acusações contra a família e que, caso tenha cometido algum erro, deverá responder por isso.
Ao mesmo tempo, Lula contestou o que considera conclusões precipitadas sobre o caso. Segundo ele, existem “ilações”, mas não haveria, até então, prova de dinheiro público envolvido ou de conversa entre o filho e ministros que comprovasse corrupção.
A fala ocorreu em um momento de forte tensão política em torno das investigações sobre as fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O relatório apresentado na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS chegou a propor o indiciamento de Fábio Luís Lula da Silva, mas o documento não representa uma condenação nem uma decisão judicial. A comissão encerrou os trabalhos sem aprovar relatório final.
Lula também foi pressionado sobre Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete da Presidência, e a relação dele com a lobista Roberta Luchsinger. O presidente considerou inadequada a relação e afirmou que o episódio gera desconfiança sobre o funcionamento do Palácio do Planalto.
“Não é adequado, é totalmente errado. E o Marcola sabe do erro que ele cometeu, porque não é esse o papel do chefe de gabinete”, afirmou.
Segundo o relato apresentado na entrevista, a Polícia Federal investiga pagamentos de despesas pessoais de Marcola que teriam sido feitos pela lobista. Lula defendeu que o caso seja investigado para determinar se houve liberação de dinheiro público.
O presidente também negou conhecer Roberta Luchsinger e ironizou uma mensagem atribuída à lobista na qual ela teria afirmado que recebeu de Lula a oferta para escolher um cargo no governo.
Na segurança pública, Lula disse que pretende, em um eventual quarto mandato, “recuperar o território” hoje dominado por organizações criminosas. A ideia apresentada pelo presidente é ampliar a atuação federal contra as facções e enfrentar também o que chamou de “andar de cima” do crime organizado.
“Aquela rua é do povo do Rio, não é do bandido; a escola é do povo, não é do bandido; o bairro é da população”, afirmou.
Lula também defendeu a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública e disse que, depois da definição das atribuições de União, estados e municípios, pretende criar um Ministério da Segurança Pública. Ele afirmou que negocia a proposta com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Questionado sobre os índices de violência na Bahia, estado governado pelo PT há 12 anos, Lula classificou como injusta a cobrança sobre a administração petista. A Bahia aparece entre os estados com municípios nas listas de cidades mais violentas do país.
“Nenhum governador do Brasil conseguiu resolver o problema da segurança pública, nenhum conseguiu segurar”, respondeu.
O escândalo do INSS também entrou na sabatina. Lula afirmou que o governo já ressarciu R$ 3 bilhões aos aposentados e pensionistas atingidos por descontos indevidos e disse que outros valores serão recuperados por meio dos bens apreendidos dos investigados.
O presidente defendeu ainda a relação que mantém com Carlos Lupi (PDT), ex-ministro da Previdência que deixou o governo em meio ao escândalo. Lula disse que Lupi não foi condenado e que, por isso, continua sendo tratado como cidadão livre.
“Se ele tivesse cometido, hoje, a Polícia Federal já tivesse acusado, ele já tivesse sido condenado, era uma coisa. Ele não está. Então, vamos aguardar a investigação”, afirmou.
Sobre a fila do INSS, Lula prometeu que na próxima semana anunciará a redução do estoque para um nível que considera normal. Segundo ele, a espera de até 45 dias ficará em aproximadamente 251 mil pessoas.
Na economia, a declaração mais controversa veio quando Lula disse que a dívida pública não o preocupa. O endividamento brasileiro ultrapassou R$ 10 trilhões e chegou a cerca de 82% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo os números apresentados durante a entrevista.
Lula atribuiu parte da alta aos juros e ao déficit fiscal que, segundo ele, foi herdado do governo Jair Bolsonaro (PL). O presidente sustentou que o crescimento econômico pode fazer a dívida cair em relação ao tamanho da economia.
“Na medida que você começa a crescer a economia, a dívida começa a cair em relação ao PIB. 80% de dívida, em um país, não é muito”, afirmou, citando Estados Unidos, Japão e Itália como exemplos de países com endividamento elevado.
Questionado sobre cortes de gastos obrigatórios, Lula não apresentou uma lista específica de despesas a serem reduzidas. Disse, porém, que pretende entregar resultado fiscal positivo e prometeu uma “revolução tecnológica” em um eventual novo governo.
Entre as áreas citadas estão inteligência artificial, minerais críticos, terras raras e indústria de defesa.
O presidente afirmou que o Brasil precisa controlar melhor a exploração de suas reservas minerais e transformar essas riquezas em produtos de maior valor agregado. Citou a possibilidade de produção nacional de baterias, chips e celulares.
Nos Correios, Lula descartou explicitamente a privatização da estatal, que acumula quatro anos consecutivos de prejuízos e um rombo estimado em R$ 15 bilhões.
“Não considero vender os Correios, não considero. Quero recuperar os Correios”, afirmou.
Lula reconheceu que a empresa perdeu espaço diante da transformação do mercado de entregas e da concorrência de empresas privadas. Segundo ele, os Correios precisam passar por um processo de enxugamento e modernização.
O presidente também admitiu a possibilidade de parcerias com empresas brasileiras ou estrangeiras para ampliar os serviços.
“A gente quer um Correio prestando serviços junto com qualquer outra empresa”, disse.
Na educação, Lula defendeu programas como o Pé-de-Meia, a expansão das escolas de tempo integral, a alfabetização na idade certa e a ampliação das universidades e institutos federais.
Ao ser confrontado com dados que apontam dificuldades de aprendizagem em matemática entre estudantes do ensino médio público, Lula afirmou que a educação básica é responsabilidade dos estados e citou Ceará e Piauí como exemplos de políticas educacionais que considera bem-sucedidas.
A entrevista de Lula foi a quarta da série promovida pela Globo com os candidatos mais bem posicionados na pesquisa de intenção de voto da Quaest divulgada em 14 de agosto. A ordem das sabatinas foi definida por sorteio.
Romeu Zema (Novo) foi entrevistado na segunda-feira (24), Ronaldo Caiado (PSD) na terça-feira (25) e Renan Santos (Missão) na quarta-feira (26). Flávio Bolsonaro (PL) será entrevistado na sexta-feira (28), enquanto Augusto Cury (Avante) terá sua vez no sábado (29).
A entrevista também serviu para Lula apresentar uma linha de campanha que combina defesa do legado de seu terceiro mandato com a promessa de uma nova agenda econômica e de segurança pública.
O presidente tenta, em 2026, conquistar o quarto mandato no Palácio do Planalto. Se vencer, poderá completar 16 anos na Presidência da República. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.
No discurso eleitoral, Lula procura transformar a defesa da investigação sobre o próprio filho em argumento de contraste com governos anteriores, ao mesmo tempo em que tenta afastar do governo o peso político de crises como as fraudes do INSS, os problemas dos Correios e a alta da dívida pública.
A frase que sintetizou sua estratégia foi publicada pelo próprio presidente nas redes sociais: “A lei vale para todos”. A declaração veio justamente no momento em que as investigações sobre Lulinha se tornaram um dos pontos mais sensíveis da campanha pela reeleição.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
