Lula enfrenta sabatina da Globo após empate com Flávio Bolsonaro

Lula chega à entrevista da Globo nesta quinta-feira, 27 de agosto, com 45% contra 44% de Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno, enquanto 50% desaprovam seu governo no novo PoderData/Aya

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega à sabatina da TV Globo nesta quinta-feira, 27 de agosto, com a eleição presidencial mais apertada no segundo turno. Pesquisa PoderData/Aya divulgada pela manhã mostra Lula com 45% contra 44% de Flávio Bolsonaro (PL) em uma eventual disputa direta. A diferença de um ponto está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais e, portanto, caracteriza empate técnico.

A pesquisa ouviu 2.400 pessoas por telefone, em 555 municípios das 27 unidades da Federação, entre 23 e 26 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-04974/2026.

A entrevista de Lula está prevista para as 21h05, logo após o Jornal Nacional, e será conduzida pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli, diretamente dos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro. A transmissão também será feita pela GloboNews e pelo g1.

É a quarta entrevista da série da Globo com os seis candidatos mais bem colocados na pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto. Depois de Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos, Lula será seguido por Flávio Bolsonaro na sexta-feira, 28, e Augusto Cury no sábado, 29.

A fotografia eleitoral aumenta o peso político da entrevista. Lula não chega à bancada apenas como presidente candidato à reeleição, mas como um candidato que ainda lidera o primeiro turno e, ao mesmo tempo, vê sua vantagem praticamente desaparecer na simulação de segundo turno.

No primeiro turno, o novo PoderData/Aya registra Lula com 38% e Flávio Bolsonaro com 35%. Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) aparecem com 4% cada. Pablo Marçal (PRTB) tem 3%, enquanto Romeu Zema (Novo) e Hertz Dias (PSTU) marcam 2%.

A questão que a entrevista coloca para Lula é direta: como transformar a liderança do primeiro turno em maioria no segundo?

A resposta passa pela rejeição e pela avaliação do governo. Na rodada anterior do PoderData/Aya, realizada de 9 a 12 de agosto, Lula e Flávio Bolsonaro tinham 48% de rejeição cada um. No mesmo levantamento, 43% aprovavam o desempenho pessoal de Lula e 50% o desaprovavam. Na avaliação específica do governo, 43% aprovavam e 51% desaprovavam.

Na nova rodada, a avaliação do governo permanece desfavorável: 50% dos entrevistados desaprovam a administração Lula, enquanto 42% aprovam e 8% não souberam responder. O desempenho regional também é desigual. A aprovação chega a 49% no Nordeste, mas cai para 34% no Sul e 35% no Centro-Oeste. No Sudeste, 53% desaprovam o governo.

É nesse ponto que a sabatina ganha caráter de teste eleitoral.

Lula precisa explicar o que pretende fazer com uma economia que apresenta sinais positivos em alguns indicadores, mas ainda enfrenta problemas de percepção entre os eleitores. A prévia da inflação de agosto, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), registrou deflação de 0,40%, com alta acumulada de 4,24% em 12 meses. O resultado foi influenciado principalmente pela queda de preços de habitação, transportes e alimentação.

A pergunta eleitoral, portanto, não é apenas se os preços estão subindo ou caindo. É se o eleitor percebe melhora no próprio orçamento e se Lula consegue transformar indicadores econômicos em argumento político para a reeleição.

Outra cobrança inevitável envolve segurança pública. O tema ganhou espaço no Congresso com a negociação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. O texto em discussão prevê integração dos órgãos de segurança por meio do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), mudanças no financiamento do setor e maior participação dos municípios.

A entrevista também deve testar a capacidade de Lula de apresentar uma agenda para o próximo mandato sem ficar restrito à comparação com os governos de Jair Bolsonaro. O desafio eleitoral é mostrar futuro para um eleitorado que, no primeiro turno, ainda oferece ao petista uma vantagem de três pontos sobre Flávio Bolsonaro, mas que no segundo turno já aparece praticamente dividido.

O Congresso será outro ponto sensível.

Na quarta-feira, 26 de agosto, Lula reuniu-se com os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para destravar uma pauta que inclui o fim da escala 6×1, a chamada taxa das blusinhas, a PEC da Segurança Pública e o marco legal dos minerais críticos. As propostas devem entrar no esforço concentrado do Congresso previsto para 31 de agosto a 4 de setembro.

A negociação é particularmente importante porque oferece ao presidente uma resposta para uma pergunta recorrente em campanhas de reeleição: o que Lula consegue entregar nos próximos meses com o Congresso que possui?

A medida provisória que suspende a cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 precisa ser votada até 8 de setembro para não perder validade. Já a proposta que reduz a jornada de trabalho e enfrenta a escala 6×1 ainda depende da tramitação no Senado.

Lula também terá de lidar com a polarização. O novo PoderData/Aya mostra que o confronto com Flávio Bolsonaro continua concentrando a disputa. Ao mesmo tempo, a pesquisa aponta que o presidente também está tecnicamente empatado com Ronaldo Caiado e Romeu Zema em eventuais segundos turnos.

Contra Caiado, Lula aparece com 43% e o ex-governador de Goiás com 44%. Contra Zema, Lula tem 44% e o candidato do Novo, 43%. Já diante de Renan Santos, Lula abre vantagem de 44% a 37%.

A entrevista, portanto, ocorre em um cenário no qual Lula ainda possui a vantagem do primeiro turno, mas não dispõe de margem confortável para o segundo. A pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto também apontou vantagem de Lula no segundo turno, por 47% a 43%, mas com margem de erro de dois pontos. No primeiro turno, o placar era de 39% a 33% para Lula.

Isso transforma cada resposta da sabatina em uma disputa por eleitores além do núcleo petista.

Lula precisará falar para quem aprova seu governo, mas também para quem não o aprova e ainda não decidiu votar em Flávio Bolsonaro. Precisará defender a economia sem ignorar a insatisfação com o custo de vida, tratar da segurança sem entregar o tema exclusivamente à oposição e explicar sua relação com um Congresso que continua sendo decisivo para qualquer promessa de um eventual quarto mandato.

E haverá uma questão política por trás de todas as outras: Lula consegue sair da entrevista maior do que entrou?

A resposta não estará apenas nas frases produzidas no estúdio. Estará na capacidade do presidente de reduzir rejeições, ampliar sua faixa de eleitores e convencer quem ainda vê a eleição como uma disputa entre dois polos que nenhum dos dois consegue vencer sozinho.

A partir das 21h05, o teste será menos sobre quem fala melhor e mais sobre quem consegue responder às perguntas que a pesquisa colocou na mesa.

Leia no Blog do Esmael e acompanhe a repercussão da entrevista de Lula após a sabatina.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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