A uma semana da eleição de 4 de outubro, aliados de Flávio Bolsonaro (PL) apostam no esvaziamento das candidaturas alternativas à polarização para ampliar a votação do senador. Neste domingo, 27 de setembro, a expectativa bolsonarista é atrair pelo voto útil eleitores de direita e centro-direita que ainda resistem a embarcar na candidatura.
O cálculo mira Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo). Enquanto Lula (PT) tenta transformar os anúncios contra as bets, canetas emagrecedoras e o endividamento em impulso eleitoral, o entorno de Flávio Bolsonaro trabalha com a hipótese de que a concentração de votos nos dois principais adversários beneficiará mais o senador.
A aposta relatada nos bastidores é que o conjunto das quatro candidaturas recue de aproximadamente 14% para 7% até a votação. Esses percentuais integram uma projeção política dos bolsonaristas. Não representam, por si, uma queda constatada por pesquisa nem demonstram que os eleitores já decidiram mudar de candidato.
Na mesma simulação, 60% dos votos liberados pelo encolhimento dos quatro concorrentes iriam para Flávio Bolsonaro, enquanto 40% seriam absorvidos por Lula.
Traduzida em pontos percentuais, a conta daria 4,2 pontos adicionais a Flávio Bolsonaro e 2,8 a Lula. O ganho líquido do senador sobre o presidente seria, portanto, de 1,4 ponto.
Essa diferença pode ser decisiva numa disputa apertada. Mas a própria matemática bolsonarista admite que Lula também cresceria com o esvaziamento dos concorrentes. O destino desses votos depende da decisão dos eleitores, não da proporção desejada pelos estrategistas.
A hipótese ainda pressupõe que os sete pontos sejam integralmente transferidos aos dois candidatos. Não reserva parcela para indecisão, voto branco, nulo ou abstenção, tampouco demonstra que os quatro eleitorados se comportariam da mesma maneira.
Também não basta avançar sobre os adversários para encerrar a eleição em 4 de outubro. Conforme a regra explicada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a vitória presidencial no primeiro turno exige mais da metade dos votos válidos, excluídos brancos e nulos. Sem conhecer o ponto de partida e a distribuição final desses votos, a projeção não permite cravar esse desfecho.
É nessa disputa pelos eleitores ainda disponíveis que entram as duas iniciativas anunciadas por Lula na sexta-feira, 25 de setembro. O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) informou a assinatura de medidas para proibir as bets e o Ministério da Fazenda renegociar dívidas de pessoas físicas.
Entre os bolsonaristas, a esperança é que a proibição das apostas provoque rejeição ao governo. Tratar a iniciativa como um “tiro no pé”, porém, antecipa uma conclusão para a qual não há evidência apresentada de mudança de voto.
O receio em relação ao Desenrola 3 segue o sentido inverso: que a perspectiva de alívio financeiro favoreça Lula entre famílias endividadas.
Segundo registro do Blog do Esmael, o programa prevê a compra de carteiras de dívidas pela União, com repasse integral do desconto ao devedor. O desconto mínimo anunciado é de 90%, e a estimativa governamental é alcançar até 15 milhões de pessoas. São condições e alcance previstos, não resultados já entregues.
Há uma diferença entre o calendário eleitoral e o calendário do benefício. O cronograma divulgado prevê o início do repasse dos descontos aos devedores em fevereiro de 2027. Nesta reta final, eventual efeito sobre o voto decorrerá da expectativa criada pelo anúncio, não de dívidas já quitadas pela nova etapa.
O conflito político está definido: o bolsonarismo quer convencer o eleitor conservador de que insistir nas candidaturas alternativas reduz as chances de derrotar Lula. O presidente tenta ampliar sua votação com medidas que dialogam com o orçamento familiar.
A queda dos quatro concorrentes, a divisão dos votos na proporção de 60% a 40% e o impacto eleitoral das bets e do Desenrola continuam sendo hipóteses. Transformá-las em certeza seria confundir o desejo das campanhas com a decisão das urnas.
Acompanhe no Blog do Esmael os movimentos da última semana da eleição e as próximas pesquisas.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
