A direita bolsonarista-lavajatista da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) saiu derrotada, nesta sexta-feira (12), no embate pela cassação de Renato Freitas (PT). A liminar do Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR) suspendeu a votação marcada para terça-feira (16), travou o Projeto de Resolução nº 7/2026 e obrigou o grupo que pedia a perda do mandato a decidir se vai enfrentar o Judiciário estadual no mesmo Centro Cívico de Curitiba.
O fato político não é a existência de 28 votos, porque esse placar não foi demonstrado em plenário. O fato político é que a ofensiva pela cassação foi interrompida antes de chegar ao painel, e isso enfraquece o campo que tentava transformar o processo disciplinar em punição máxima contra um deputado de esquerda eleito por Curitiba. A derrota é maior porque veio do TJPR, instalado na mesma Praça Nossa Senhora de Salete onde funcionam a Alep e o Palácio Iguaçu.
A cassação de Renato vinha sendo empurrada por um bloco de direita com digitais bolsonaristas, lavajatistas e conservadoras. O processo nasceu de uma denúncia assinada por deputados estaduais Fábio de Oliveira (Novo), Ricardo Arruda (PL) e Tito Barichello (PL), ao lado de vereadores de Curitiba ligados ao Novo e ao PL. No Conselho de Ética, o parecer pela perda do mandato foi relatado por Márcio Pacheco (Republicanos). Na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Luiz Fernando Guerra (Novo) defendeu a legalidade do rito que levaria o caso ao plenário.
Esse caminho parou no Judiciário. A liminar não absolveu Renato Freitas, mas retirou da direita o troféu que ela buscava na sessão de terça-feira (16): uma votação de cassação antes de o Tribunal examinar com mais profundidade as alegações da defesa. A decisão também muda o custo político da Mesa da Alep, comandada por Alexandre Curi (Republicanos). Recorrer da liminar significa tentar recolocar a cassação na pauta e transformar a disputa em confronto direto com o TJPR.
É aí que a derrota vira dilema. A turma que fala grosso contra Renato Freitas terá de escolher se mantém o tom diante do Judiciário estadual. Uma coisa é pressionar um deputado de esquerda no plenário. Outra é desafiar uma decisão liminar do Tribunal que fica a poucos passos da Assembleia, no coração institucional do Paraná. O caso deixou de ser apenas disciplina interna e passou a medir até onde a direita está disposta a ir contra uma trava judicial.
A leitura eleitoral também pesa. O campo bolsonarista-lavajatista do Paraná tenta se reorganizar em torno de Sergio Moro, Deltan Dallagnol, Filipe Barros e Flávio Bolsonaro, nomes que disputam a mesma base antipetista, punitivista e mobilizada pelas redes. A suspensão da cassação de Renato Freitas atinge esse ambiente porque retira uma vitória simbólica da direita e devolve a pauta para o terreno jurídico, onde discurso de palanque não substitui rito, prova e proporcionalidade.
Renato Freitas responde a processo por quebra de decoro após uma briga física ocorrida em Curitiba, em novembro de 2025. A Alep afirma, em suas comunicações oficiais, que o processo respeitou contraditório, ampla defesa e devido processo legal. A defesa do deputado sustenta o contrário: aponta falhas no rito, cerceamento de defesa, suspeição de relatoria, prazo vencido e questiona a tentativa de cassar um mandato por fato que, segundo essa linha, não ocorreu no exercício direto da atividade parlamentar.
No campo contrário à cassação, três posições já estavam documentadas antes da liminar. Doutor Antenor (PT) apresentou voto em separado no Conselho de Ética. Ana Júlia Ribeiro (PT) e Arilson Chiorato (PT) apresentaram votos em separado na CCJ. Os três contestaram a continuidade do processo e defenderam que a Alep não avançasse para a pena máxima sem enfrentar as nulidades apontadas pela defesa.
A liminar deu força a esse campo, ao menos por enquanto. O TJPR não entrou no mérito final, mas reconheceu risco suficiente para impedir a votação. Na prática, a decisão jogou água fria na ofensiva de quem queria cassar Renato na terça-feira (16), antes que a controvérsia jurídica fosse resolvida. Para a direita, o revés é objetivo: a sessão que poderia produzir uma cena de força virou uma cena de freio institucional.
A pergunta que fica é se os direitistas da Alep vão comprar a briga com o Tribunal. Se a Mesa recorrer, o caso volta a tensionar Legislativo e Judiciário no Paraná. Se não recorrer, a Assembleia admite, ainda que provisoriamente, que a cassação precisa esperar. Nos dois cenários, a direita perde o controle da narrativa porque deixa de falar sozinha sobre decoro e passa a responder sobre respeito ao devido processo legal.
Também há um custo para a base governista. A Alep não é um ajuntamento sem comando. O avanço do projeto até o plenário passou pela engrenagem institucional da Casa e pela maioria que sustenta a direção legislativa. Com a liminar, essa engrenagem foi parada por uma decisão externa. Para Alexandre Curi, o caso agora exige cálculo: insistir na votação pode agradar a direita, mas aumenta o atrito com o TJPR e o campo progressista da Casa; recuar reduz o conflito institucional, mas deixa a tropa da cassação sem resposta.
O episódio enfraquece especialmente a ala que tentava vender a cassação como desfecho inevitável. Nada foi inevitável. O Tribunal suspendeu. O plenário não votou. O placar não apareceu. A tese da perda imediata do mandato saiu ferida porque uma decisão judicial obrigou a Alep a parar antes do ato final.
Para Renato Freitas, a liminar preserva o mandato e dá fôlego político. Para a esquerda, abre uma janela de mobilização contra o que seus aliados chamam de perseguição política. Para a direita, impõe uma escolha incômoda: aceitar a derrota provisória ou transformar a cassação em confronto aberto com o Judiciário paranaense.
Essa é a nova pauta. Não há 28 votos provados. Há uma direita derrotada no primeiro embate institucional, uma Mesa pressionada a decidir se recorre e um Tribunal que colocou limite na marcha da cassação. A Alep queria votar Renato Freitas na terça-feira (16). O TJPR mandou parar. Agora a pergunta mudou de endereço: a direita vai enfrentar o Tribunal ou vai engolir a liminar?
Acompanhe no Blog do Esmael a atualização do caso Renato Freitas, os movimentos da Mesa da Alep e a reação dos deputados estaduais após a suspensão da votação.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
