Cunca Bocayuva: Lula e a arte da politica ou a experiência brasileira de furar a bolha da dominação

Por Pedro Cláudio Cunca Bocayuva*

A designação de bolha para identificar o arquipélago das manadas sociais que segregam os grupos subalternos nas redes em nós que se fecham tem feito uma espécie de anti-rizoma cheio de bloqueios. A rede atinge e penetra mas não integra, atinge mas não converge, divide para impor os novos supremacismos brutalistas . A ação maquínica dos poderes empresariais acaba gerando estratificação e produzindo efeitos que golpeiam por meio de modos de programação e ações do tipo robótica e de captura das mentes. Temos uma sobreposição de camadas de dominação através dos modos de emissão de mensagens manipulando o poder de informar, ao gerar imagens que fazem do virtual uma dimensão de dominação que pode impor as narrativas e gerar impulsos perversos que atuam sobre o desejo e impedem a vontade consciente.

Apesar disso o peso do agir humano continua decisivo para a mobilização e a construção da vontade coletiva. Por isso, a sociedade do espetáculo sustentada pela lógica da guerra hibrida ampliou a disputa nas arenas de poder na “batalha dos afetos” , o que vem favorecendo a autofagia necropolítica na vida social.

A captura de corações e mentes, a gestão pelo medo e a forma social individualizadora do consumismo, através dos aplicativos, gerou uma hipermidiatização. Máquinas de guerra e maquinas de Estado foram recombinadas pela razão instrumental via competição e sob o poder dos monopólios com o retorno geopolítico da gramática do “espaço vital”.

Os regimes de exceção emergiram como efeito da mundialização das formas neoliberais: com a privatização, a desfiliação de direitos, o negacionismo ( em relação ao clima, as vacinas e a memória histórica da escravidão e da ditadura). A precarização,, a privatização, o endividamento e as mutações nas formas de segregação são interseccionadas com a reconfiguração dos preconceitos e das desigualdades.

O racismo, a misoginia e a homofobia convivem com a ideologização das relações de trabalho pela exposição ao “empreendedorismo”. O reforço do ódio e o individualismo se aprofundam com a crise societária pelas formas intensificadas de fetichismo. A manipulação da informação opera através da mistificação das multidões, com o reforço autoritário via pulsão da crueldade com efeito sobre os afetos fragmentando os modos de vida gerando o ódio intensificado .

Os comportamentos coletivos sofrem uma oscilação entre o pânico e a fúria através de interações perversas entre o desamparo e a religião com a doutrinação pela dominação. O medo, o populismo penal midiático, o consumismo e o endividamento vem ampliando as formas de sofrimento psíquico e as estratégias de controle em nome da hierarquia, da família e pela fé na prosperidade pelo culto ao dinheiro.

O retorno aos cenários reais e ao imaginário da guerra acentuam a crise da modernidade no sistema mundo moderno, o que gerou efeitos dobre a sociedade danificada, como diria Theodor Adorno em Mínima Moralia que, foram acentuados pela policrise e pelas rupturas geradas pelo poder abstrato que ampliou a intensidade da cibernetização, o que acentuou os riscos do capitaloceno. A pandemia e a disputa entre as potências no plano global acentuaram as fórmulas autoritárias.

O estado de emergência climática, a criminalização e a racialização acompanham os novos regimes de guerra, de emergência e de exceção. As novas geografias acentuaram as formas do capitalismo autoritário no continente asiático. O supremacismo e a guerra civil nos EUA e a ruptura na aliança atlântica Ocidental geraram efeitos de cerco e saque na direção da África e, agora, de disputa intensificadas e inconclusa para recolocar a América Latina como um “novo quintal” num sistema mundo em guerra.

No centro desta complexidade, o turbilhão dos desequilíbrios e dos traumas chegamos a cena de catástrofe com uma tendência de aceleração para um quadro com efeitos e consequências destrutivas de lógicas de quebra de cooperação e solidariedade alimentando a xenofobia, a islamofobia e todas as formas de racismo com efeitos trágicos na crise de representação.

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Os efeitos do genocídio de Gaza e o negacionismo naturalizaram os cenários que levam a emergência de figuras mórbidas como Netanyahu, Trump e Bolsonaro ou a um gigantesco espectro de personagens autoritários e figurantes que fazem parte do retorno dos “mitos”, como efeito da crise dos blocos de forca do pós-guerra. Os crimes contra a humanidade se generalizam gerando fome, expulsão e mortes em escala massiva.

A cartografia critica destes processos descreve bem a cena atual apoiada em teorias onde as noções de trauma e catástrofe identificam os riscos que se abatem sobre os limites da condição humana que esta sob o manto da sociedade em processo de autofagia. Os novos fascismos são alimentados pela formação de bolhas cibernantropicas e pelas máquinas de destruição e de acumulação abstratas, com efeitos devastadores sobre a psicologia das massas onde a ra?ão instrumental acentua o domínio das formas fetichistas. Como furar as bolhas e navegar no turbilhão da guerra hibrida?

O tema da arte na politica e a questão bioética aparecem na resposta coletiva pelo cruzamento de uma aprendizagem contra hegemônica desde uma insurgência que tenta reabrir as chaves do inconsciente da politica através de uma afirmação do direito a vida. Ao lado do pragmatismo defensivo emerge uma nova ecologia de saberes e um paradigma da diversidade na luta política brasileira.

Os elos entre as lutas de classe, de gênero e de raça se tecem a duras penas como respostas ao cenário de regressão neocolonial acentuando as contradições da experiência, por isso, contra o negacionismo histórico a memória coletiva e a busca do conhecimento se fizeram sentimento e um pensar critico, através da luta contra a fome, pela saúde na chave do direito a ter direitos vem crescendo no país apesar da onda fascista. Podemos falar em crise orgânica ou de hegemonia prolongada no mundo e concentrada no Brasil.

Não por acaso o “lulismo” se converteu em uma expressão de insurgência na encruzilhada de nossos labirintos da autofagia, como uma linha de fuga que sustenta a resistência, como a base para uma aposta no buscar o diálogo e a confiança da população através da linguagem comum de valores de liberdade com igualdade. Hoje renascem sentidos e formas ainda não capturadas da insurgência feminista, no antirracismo e na escolarização como condutos que se conectam com a centralidade das periferias no Brasil que convergem para a função dirigente expressa por Lula e para a esquerda unida e a frente ampla. A conjuntura ainda não fechou com uma maioria sólida para o espectro direitista da razão cinica. O tempo conjuntural ainda esta aberto na brecha Brasil na cena mundial. Aqui se joga um momento decisivo para o futuro da humanidade, lançada na beira do abismo por Netanyahu e Trump.

A irradiação da liderança social de Lula se difunde no sistena mundo e, agora, nas redes sociopolíticas no ciberespaço em conexão com as experiencias democraticas como a do governo de Nova York. A organização de ações moleculares de insurgência, se dá pelas vozes e corpos que se reúnem num novo modo de expressar as mensagens desde a comunicação qualificada na busca de sustentar uma cultura de direitos, deste a afirmação da cooperação internacional e e do valor da multiculturalidade que nssce em muitas cidades no planeta urbano e desde as periferias. A diversidade ganha presença no reclamo que nasce nos territórios desde as vivências corporificadas hoje identificada com Lula pela sua voz mundializadora da vontade dos povos do Sul e das periferias globais.

Lula parece recusar o que podemos chamar de efeito bolha driblando criativamente o cerco, como fez ao recusa4 o debate no cercadinho da midia empresarial. Ele vem reduzindo os danos da necropolitica por ser a expressão de uma voz coletiva, de um Brasil que experimenta a possibilidade de furar as bolhas impostas pelo período da tecnificação informacional, reabrindo a esfera pública para o debate que importa: aquele da dignidade humana e o do direito ao conhecimento, a única forma de garantir a construção de uma vontade de autonomia. O que pode reabrir o poder constituinte sustentando a soberania popular numa era em que somos seres em mutação que precisamos lidar com as novas necessidades e desafios sem medo mas, conscientes dos riscos que significam nos mantermos no caminho da barbárie _, para não vivermos sob a direção de milícias de toda espécie, sob o domínio do medo, da fúria ou seja, sob o comando das figuras de sujeitos mafiosos e sem qualidade, dos falsos mitos do neofascismo nacional e internacional.

Começamos a aprender a furar a bolha e tomara que tenhamos tempo para o que Gramsci denominou a “catarse”, a passagem dazbsixa politica e do economico para a grande politica do autogoverno. Uma abertura para uma vontade coletiva que deve vir antes que uma nova onda de extermínio se abata gerando mais mortes, antes que mais gente seja lançada sob escombros, ou nos cárceres e os corpos sejam atingidos pela doença, pelo sofrimento, nos vícios e nos cemitérios. Parece que ganhamos um tempo muito limitado para fazer este giro paradigmatico e nas relações de força.

O povo brasileiro está na tela do mundo compartilhando a possibilidade de escolha voltada ao valor básico da defesa da vida. Desta forma, destacando o que aprendemos depois do golpe de 2016, depois da pandemia e com o desastre de governos nacional e estaduais milicianos e fascistizantes, conectados com servir aos interesses de maquinas financeiras de saque, de endividamento. Isto é, depois de governos alimentadas por maquinas de desinformação e formas jurídicas que esvaziaram a politica, o tema dos direitos da cidadania renasce nas insurgências corporificadas, que articulam sentimento e conhecimento como possibilidade de futuro com bem estar e dignidade.

Esta voz coletiva com Lula vem sendo amplificada por parcelas das novas gerações, especialmente mulheres que corporificam e vocalizam nas redes o direito de resgatar a dimensão constituinte da luta democrática no Brasil que serve de exemplo para o mundo.

O caminho parece ser o de vzlorizar os movimentos sociais e buscar o pacto republicano da defesa da democracia sustentando o bloco histórico que nasceu das lutas de nossa gente, hoje expresso em carne e osso na figura de um estadista como Lula, capaz de dialogar que, consegue driblar as perseguições e navegar ao lado das forças sociais que agem na direção de saídas que valorizam o conhecimento com sentimento. Buscando construir as pontes da história pela via do principio da esperança expresso por exemplo, no direito ã saúde, que se relaciona com a amplitude de direitos expressa nos artigos 5 e 6 da nossa constituição.

O eixo da reforma sanitária e a força da educação foram corporificados pelos movimentos nos territórios e nas redes que salvam vidas acompanhando o potencial para uma onda vermelha, verde e amarela que se materializa no bloco social e técnico que pode salvar a dignidade, a soberania e as vidas para sair da situação de medo e do cerco que impede o a impede o avanço da qualidade de vida com democracia.

*Pedro Claudio Cunca Bocayuva é professor do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), coordenador do Laboratório do Direito à Cidade e Território e doutor em Planejamento Urbano e Regional.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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Publicação de: Viomundo

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