Moro põe Flávio Bolsonaro no teste de Curitiba

O senador Sergio Moro (PL) lança nesta sexta-feira (29), em Curitiba, sua pré-candidatura ao governo do Paraná com Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL) no mesmo palanque. O ato deixou de ser só uma foto de unidade da direita: virou teste público sobre Trump, PCC, Comando Vermelho e trabalho por hora.

O Blog do Esmael já informou que o evento apresenta a chapa majoritária da direita no Paraná, com Moro ao Palácio Iguaçu e Deltan Dallagnol e Filipe Barros como nomes ao Senado. A agenda também serve à pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, que tenta fazer do Paraná uma vitrine no quinto maior colégio eleitoral do país.

O problema político está no conteúdo do palco. Depois da visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca, os Estados Unidos anunciaram a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras, com efeitos previstos a partir de 5 de junho. O governo Lula (PT) rejeita transformar facções brasileiras em pretexto para interferência externa.

Curitiba, portanto, não receberá apenas um lançamento estadual. Receberá a primeira grande cena da direita paranaense depois que a pauta da segurança pública saiu da polícia, entrou na diplomacia e encostou no sistema financeiro. Se Moro, Deltan Dallagnol e Filipe Barros endossarem a linha de Flávio Bolsonaro, assumirão também o custo de defender uma medida tomada por Washington sobre crime organizado brasileiro.

A pergunta objetiva é simples: Moro vai dizer que Trump tem autoridade política para enquadrar facções brasileiras como terrorismo internacional? Deltan Dallagnol vai transformar a pauta em bandeira moral da Lava Jato? Filipe Barros vai usar o ato para nacionalizar a agenda de Flávio Bolsonaro no Paraná?

Se ninguém tocar no assunto, o silêncio também será notícia. A direita passou as últimas horas vendendo a decisão dos Estados Unidos como vitória política de Flávio Bolsonaro. No primeiro palanque robusto após o anúncio, omitir PCC e CV significará admitir que o tema rende voto, mas também produz risco diplomático, econômico e jurídico.

O risco não é abstrato. A designação americana pode atingir bancos, fintechs, empresas com operação internacional, exportadores e setores sujeitos a bloqueios financeiros. O Brasil já investiga estruturas de lavagem de dinheiro ligadas ao crime organizado, inclusive no mercado de combustíveis e em fintechs usadas como bancos paralelos. A fronteira entre cooperação policial e sanção econômica virou disputa real.

Moro chega ao ato com outro passivo. Na quinta-feira (28), foi protocolada no Senado a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 12/2026, que permite ao empregado escolher entre o regime comum da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e um modelo flexível baseado em horas trabalhadas. O texto foi apresentado logo depois da vitória da proposta que reduz a jornada e mira o fim da escala 6×1.

Para o trabalhador paranaense, esse é o ponto mais concreto do palanque. Moro quer governar o Paraná, mas assinou uma proposta que desloca o debate de dois dias de descanso para trabalho por hora. Em Curitiba, cidade de comércio forte, serviços, aplicativos, vigilância e trabalhadores de shopping, a cobrança tem endereço.

Flávio Bolsonaro também carrega a campanha presidencial para dentro do evento. A visita à Casa Branca, o encontro com Donald Trump e a pauta PCC/CV foram usados por seus aliados como tentativa de retomar iniciativa depois do desgaste do caso Banco Master e do financiamento do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. O palanque de Moro será medido por aquilo que disser e por aquilo que preferir esconder.

Deltan Dallagnol entra na cena como peça simbólica. Cassado pela Justiça Eleitoral, ele tenta voltar ao jogo pelo Senado e precisa provar que a aliança com o PL não reduz sua candidatura a uma extensão do bolsonarismo. Se abraçar a pauta Trump sem ressalva, abandona o discurso de soberania jurídica que a Lava Jato dizia defender quando era cobrada por autoridades estrangeiras.

Filipe Barros, pré-candidato ao Senado, aparece como o elo mais orgânico com o bolsonarismo paranaense. Seu evento de aniversário, com presença esperada de Flávio Bolsonaro, já havia virado ponto de mobilização de adversários que prometem levar a marca “BolsoMaster” às ruas de Curitiba. Agora, o lançamento de Moro amplia a vitrine.

O Paraná virou laboratório da direita em 2026 porque junta três públicos que nem sempre se movem juntos: o eleitor lavajatista, o bolsonarista raiz e o conservador urbano preocupado com segurança pública. Moro precisa dos três. Flávio Bolsonaro também. Deltan Dallagnol e Filipe Barros disputam o mesmo eleitorado para duas vagas ao Senado.

A foto do palanque pode sair forte. A fala, se vier, será mais importante. Moro precisa dizer se seu projeto para o Paraná passa por importar a estratégia internacional de Flávio Bolsonaro. Flávio Bolsonaro precisa dizer se a classificação de PCC e CV é cooperação policial ou instrumento de pressão econômica contra o Brasil. Deltan Dallagnol e Filipe Barros precisam dizer se a direita paranaense vai defender jornada menor ou trabalho por hora.

Além disso, Flávio Bolsonaro também deve explicação sobre seu envolvimento com Daniel Vorcaro e os pedidos de dinheiro para o filme Dark Horse.

A pré-campanha de Moro começa, nesta sexta-feira (29), portanto, com uma contradição difícil de maquiar: o ato promete unidade da direita, mas reúne perguntas que cada aliado preferia responder sozinho.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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