Escolas da Violência
Relatório do MEC revela que entre 2001 e 2025 ocorreram 47 ataques de violência grave em escolas do País, com 56 mortes e 121 feridos
Por Ariel de Castro Alves*, no Último Segundo
Conforme o boletim do MEC, grupos de incitação ao ódio da internet contribuíram significativamente para a escalada de ataques e casos de violência nas escolas brasileiras nos últimos anos.
Nessa semana completaram-se 15 anos do Massacre de Realengo, no Rio de Janeiro, ocorrido no dia 7 de abril de 2011, que resultou no assassinato de 12 estudantes e vários feridos na Escola Municipal Tasso da Silveira.
Para lembrar desse e de tantos episódios de violência em estabelecimentos educacionais do País, o último dia 7 de abril, foi o Dia Nacional de Enfrentamento ao Bullying e a Violência nas Escolas, instituído por lei desde 2016.
Mas mesmo diante da memória e reflexão sobre os ataques e massacres escolares, ocorreram nessa semana 2 novos ataques, que resultaram em alunos e educadores feridos em escolas, um em Suzano, São Paulo e outro em Ituiutaba, Minas Gerais, felizmente, sem mortes.
Neste cenário, um recente relatório do Ministério da Educação (4BoletimProEP.pdf) revela que entre 2001 e 2025 ocorreram 47 ataques de violência grave em escolas do País, com 56 mortes e 121 feridos.
20 ataques foram cometidos com o uso de armas de fogo. As vítimas dos crimes foram principalmente os estudantes – crianças e adolescentes. Já os autores, são majoritariamente do sexo masculino e muitos participam de grupos extremistas e de ódio na internet. A maioria dos ataques ocorreram em 2022 e 2023, com 10 e 15 ocorrências, respectivamente.
Além desses números, o Sistema de Saúde registrou em 2024, 15.759 vítimas de violência interpessoal nas escolas brasileiras, sendo que 2.273 estudantes foram vítimas de violência autoprovocada.
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Quanto ao perfil das vítimas, em 2024, as notificações indicaram que a maioria era do sexo feminino: 9.124 casos (57,9%), e 6.631 casos do sexo masculino (42,1%).
Com relação à cor ou raça, os dados revelaram que 7.535 vítimas eram pardas e negras (50,4%) e 7.171 eram vítimas brancas (48%).
No total, entre 2013 e 2024, foram 76.080 vítimas de violência interpessoal em escolas, com 11.507 casos de violência autoprovocada. A diferença é que em 2013, foram registradas 3.771 vítimas, depois a cada ano os casos foram se ampliando, chegando aos 15.759 de 2024.
Outro fator preocupante constatado pelo MEC, foi a “radicalização digital”, mostrando que, de 2021 a 2025, houve um crescimento de 360% das menções com ameaças às escolas.
Já o número de comentários de exaltação aos ataques também aumentou de 0,2% em 2021 para 21% em 2025.
Além desses dados atuais do recente boletim, o documento do MEC menciona um levantamento anterior realizado em julho de 2023 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que estimou que 12,6% das escolas brasileiras sofreram ameaça ou tentativa de ataque nos 12 meses anteriores à pesquisa.
Esse percentual corresponde a 16.506 unidades escolares em todo o País. O Relatório do Ministério ainda analisou a violência nos territórios escolares, concluindo que 3,6% das escolas relataram interrupções de horas e dias de aulas do calendário letivo em 2023 por episódios de violência nas regiões onde elas funcionavam. No total, 2.182 escolas tiveram o calendário escolar interrompido em decorrência de episódios violentos.
Um outro levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública publicado em 2025, com informações de 2023, mostrou que 67,5% dos diretores relataram a ocorrência de ao menos um episódio de bullying, enquanto 27,0% indicaram casos de discriminação em suas escolas. O mesmo relatório constatou que em 2024 foram contabilizados 2.543 crianças e adolescentes- estudantes vítimas de bullying no Brasil.
O boletim do MEC também cita a pesquisa “vitimização e percepção sobre violência e segurança pública”, realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Datafolha, em junho de 2025.
O levantamento tratou da percepção da população brasileira sobre as violências vivenciadas por crianças e adolescentes de suas famílias, concluindo que 1 em cada 5 brasileiros (20%) relatou ter, em sua família, alguma criança ou adolescente vítima de bullying nos 12 meses anteriores à pesquisa.
Com base na população do País, esse percentual representa que 34,4 milhões de pessoas reconhecem o problema em suas famílias.
A pesquisa também revelou que 8% dos entrevistados afirmaram ter familiares vítimas de agressões físicas em escolas, o que representa aproximadamente 13,3 milhões de brasileiros.
Além disso, 5% revelaram casos que crianças ou adolescentes de suas famílias foram expostos a “desafios” com violência em plataformas da internet, com automutilação, risco de morte, incitação e apologia à violência.
Esses dados reforçam outro levantamento do IBGE divulgado há 15 dias, de que 40% dos estudantes do País já sofreram bullying e mesmo assim apenas 37% das escolas realizam ações de prevenção ao bullying e cyberbullying.
E, por fim, apesar de todo o quadro de violência citado nas pesquisas, o relatório do MEC reconhece que apenas 4% das escolas brasileiras contam com profissionais de assistência à saúde que atuam em conjunto com a educação, como os bombeiros civis brigadistas, os profissionais de urgência e emergência, enfermeiros, técnicos de enfermagem ou mesmo socorristas.
A presença de psicólogos nas escolas foi registrada em apenas 14,2% das unidades educacionais brasileiras e ainda só 8% das escolas contam com orientadores comunitários, assistentes sociais e profissionais que atuam na mediação de conflitos, no apoio aos estudantes em situação de vulnerabilidade e exclusão social e na articulação com os órgãos de proteção social e do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente.
Ainda, apenas 21% das instituições de ensino informaram dispor de seguranças, policiais, guardas, vigilantes ou profissionais de segurança patrimonial. A maioria das escolas (85,3%) adota o controle de acesso realizado por funcionários da própria escola como principal medida de segurança.
Ao mesmo tempo, identificou-se que apenas 17,4% das escolas contam com profissionais formados para lidar com situações de ameaças ou riscos, e que 62,2% das unidades educacionais ainda não dispõem de planos ou protocolos formais de respostas as situações de riscos e emergências.
O boletim do MEC ainda observou a falta de sistematização de informações sobre ameaças, tentativas ou ocorrências consumadas de casos de violência nas escolas, sendo que em 66,7% das unidades não há registro de dados e informações referentes as características dos autores das ameaças, violências consumadas ou tentadas e nem mesmo sobre as vítimas.
Além disso, 39,2% das instituições de ensino declararam não disponibilizar canais, meios ou espaços de denúncia anônimos e seguros para que os estudantes possam relatar os episódios de violência contra si próprios e seus colegas.
Todas essas informações denotam que muitas escolas brasileiras, que deveriam ser espaços de desenvolvimento, acolhimento, proteção, aprendizagem e exercício da cidadania, acabam sendo locais de riscos, perigos, sofrimentos, constrangimentos, violências, ferimentos e até de mortes.
A retomada em 2023 dos programas “Escola que Protege”, do MEC, e “Saúde na Escola”, do Ministério da Saúde, além da criação do Sistema Nacional de Acompanhamento e Combate a Violência nas Escolas, com atuações integradas do MEC com os Ministérios da Justiça e Segurança Pública, Saúde e Direitos Humanos, juntamente com as polícias estaduais e com as redes de proteção social e o Sistema de Justiça, foram providências fundamentais para a redução dos ataques graves em escolas nos anos de 2024 e 2025.
No entanto, nos últimos anos, houve uma escalada dos casos de violências interpessoais nas escolas contabilizados pelo Ministério da Saúde. As violências e conflitos nos ambientes escolares geram evasão escolar e baixo desempenho educacional dos estudantes, perpetuando as desigualdades e exclusão educacional, social e econômica das crianças e jovens no Brasil.
Medidas como o programa Pé de Meia, que garante bolsas de estudos para estudantes do ensino médio, e o início da vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente Digital, que gera responsabilizações às empresas da internet ao impulsionarem ou mesmo se omitirem diante de incitações e apologias aos ataques e violências nas escolas e em casos de cyberbullying, por exemplo, são passos importantes, mas insuficientes para solucionar o quadro endêmico de violências nos ambientes educacionais do País.
O levantamento do MEC demonstra que sequer a lei de 2019 que prevê psicólogos e assistentes sociais nas escolas está sendo cumprida, além da falta de mínimas providências preventivas e estruturais de segurança na maioria das unidades educacionais.
Diante disso, o cenário educacional continua propício para novos ataques e massacres, que destroem o presente e futuro da infância e juventude brasileira!
*Ariel de Castro Alves é advogado, membro da Comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente da OAB; ex-secretário nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente e ex-presidente do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente)
Publicação de: Viomundo
