Trump ataca Kharg e empurra guerra contra o Irã para o coração do petróleo

O presidente Donald Trump anunciou na noite de sexta-feira (13), no horário de Washington, que os Estados Unidos bombardearam alvos militares na ilha iraniana de Kharg, o principal corredor de exportação de petróleo do Irã. Segundo a Reuters e o The New York Times, a ofensiva poupou, ao menos por enquanto, a infraestrutura petrolífera, mas veio acompanhada de uma ameaça direta: se Teerã continuar a estrangular a navegação no Estreito de Ormuz, a próxima etapa poderá atingir justamente o coração energético iraniano.

A escalada é grave porque Kharg não é uma ilha qualquer. Trata-se do ponto por onde passa cerca de 90% das exportações de petróleo do Irã, o que transforma o ataque numa mensagem militar, econômica e geopolítica ao mesmo tempo. O próprio New York Times descreve a ilha como um dos postos energéticos mais estratégicos do país, enquanto a Al Jazeera a define como a espinha dorsal da economia petrolífera iraniana.

Trump afirmou que os EUA “obliteraram” os alvos militares da ilha e disse ter deixado as instalações de petróleo de fora “por razões de decência”. Mas a frase seguinte mostrou o real sentido da operação: Washington passou a usar Kharg como instrumento de pressão para forçar a reabertura do Estreito de Ormuz, gargalo por onde transita perto de um quinto do petróleo e gás comercializados no mundo.

Na prática, a Casa Branca elevou o conflito a um novo patamar. Até aqui, Kharg vinha sendo tratada como uma espécie de linha vermelha, justamente porque um ataque direto ali mexe com receita estatal iraniana, fluxo global de energia e inflação mundial. O New York Times informou que um oficial militar americano disse que os bombardeios atingiram depósitos de mísseis e áreas ligadas a minas iranianas, sem atingir a estrutura econômica da ilha.

O efeito imediato apareceu no mercado. O Brent fechou a sexta-feira a US$ 103,14 por barril, o maior nível de encerramento desde 2022, depois de uma disparada superior a 40% desde o início da guerra. A Reuters também informou que grandes bancos já revisam suas projeções para cima, enquanto a Agência Internacional de Energia tenta conter o choque com a liberação recorde de 400 milhões de barris das reservas estratégicas dos países-membros.

Nem isso bastou para acalmar o mercado. A própria Reuters relatou que o tráfego em Ormuz desabou, e a IEA classificou o momento como a maior disrupção de oferta da história do mercado global de petróleo. Em outras palavras, a guerra deixou de ser apenas uma crise militar no Oriente Médio e virou um motor inflacionário com alcance planetário.

Washington também reforça o braço militar da operação. Autoridades americanas disseram à Reuters e ao New York Times que cerca de 2.500 fuzileiros navais e até três navios de guerra estão sendo deslocados para o Oriente Médio, somando-se a um contingente que já supera 50 mil militares na região. O movimento indica que a Casa Branca não trabalha mais com uma ofensiva curta e cirúrgica, mas com um conflito de duração e custo ainda imprevisíveis.

Ao mesmo tempo, a guerra continua se espalhando pelo entorno regional. A Al Jazeera relatou novas explosões em Teerã, ataques israelenses no Líbano e temor crescente em países do Golfo. A Reuters também noticiou que Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Arábia Saudita e outros países seguem em alerta diante de drones, mísseis e danos a ativos energéticos.

O ponto político central é que Trump agora encosta a guerra no nervo econômico do Irã, mas sem ainda cortar o fio principal. Ao poupar os terminais de petróleo e, ao mesmo tempo, ameaçá-los publicamente, ele tenta transformar Kharg numa arma de chantagem estratégica. O risco é evidente: qualquer erro de cálculo pode empurrar Teerã para uma resposta ainda mais dura em Ormuz, aprofundando o colapso logístico e elevando ainda mais o preço da energia no mundo. Essa já não é só uma guerra por território, influência ou regime. É uma guerra pelo controle da torneira do petróleo.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

Lunes Senes

Colaborador Convidado

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *