Introdução do autor ao livro recém-publicado
Por João Feres Júnior*, em A Terra é Redonda
1.
O comediante estadunidense Jerry Seinfeld, alguns anos após encerrar a famosa série de televisão que leva o seu sobrenome, protagonizou uma nova série chamada Comedians in cars getting coffee (2012).
A estrutura do programa era simples: começava com Jerry indo a uma concessionária ou vendedor de automóveis, escolhendo um modelo raro e, quase sempre, super vintage. Sentado na direção, ele dirigia o veículo até um ponto combinado onde pegava uma celebridade da comédia, que ocupava o banco do carona.
Ambos, então, dirigiam-se a uma cafeteria para tomar café, geralmente em Nova York ou Los Angeles. A despeito da estrutura um tanto bizarra da série, seu fulcro é mesmo a conversa de Jerry Seinfeld com o comediante convidado, que sempre desemboca no tema da sua profissão, a comédia. Os comentários e argumentos trocados, obviamente carregados de humor, são por vezes bastante reflexivos e sutis.
No episódio 7 da primeira temporada, o entrevistado foi Trevor Noah, comediante sul-africano que foi, por muitos anos, âncora de The Daily Show, um programa de humorismo político do canal a cabo Comedy Central, que tem um formato mock-tele-jornal, com um âncora que comenta notícias e chama entrevistas.
Aos 11 minutos e 30 segundos do episódio, Trevor pergunta a Jerry Seinfeld se ele usa o Twitter. Jerry responde que sim e, por sua vez, pergunta qual uso Trevor Noah faz das redes sociais. O sul-africano responde que as utiliza apenas para falar com os fãs.
Jerry Seinfeld então diz: “de cueca, né?” (In your underwear, right?). Exercitando sua extrema habilidade para extrair comicidade das coisas mais banais e mundanas, o comediante nova-iorquino acrescenta que a cultura contemporânea está se esforçando por fazer com que toda experiência possa ser vivida in your underwear, de cueca ou de calcinha: “você trabalha, se informa, se diverte, tudo in your underwear”.
Trevor Noah, com a perspicácia típica da comédia stand-up, emenda: “as pessoas agora fazem até protesto in their underwear, mas o problema é que isso cancela o próprio propósito do protesto (defies what protest should be about), que é sair da sua cama, colocar suas roupas, sair no frio para dizer ‘eu defendo essa causa, eu me manifesto por essa causa’. Agora, as pessoas não precisam mais ter toda essa convicção, pois elas estão em seus sofás, de cueca e calcinha. Elas só dizem: eu não gosto disso e pronto”.
Jerry Seinfeld: “e tudo isso em um espaço de dez minutos”. Trevor Noah: “claro, claro, digitam umas linhas e saem falando que lutaram por essa ou aquela causa. Não, vocês não lutaram”.
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É impressionante a capacidade analítica da comédia. Trevor Noah vai ao ponto: They do it in their underwear. Não no sentido de que eles vão para as ruas de cueca se manifestar, mas que o fazem no recôndito do seu lar, de cueca ou de calcinha, sem precisarem se expor ao olhar público, sem incorrer nos custos de mediação necessários para se apresentar fisicamente em público.
2.
Sim, pois vir a público requer acesso a canais de comunicação, domínio de técnicas corporais, de formas de apresentação, de coordenação da ação coletiva, habilidades muito distintas do simples ato de sentar-se no sofá de cueca ou calcinha e escrever algumas linhas raivosas contra isso ou aquilo.
O presente trabalho foi concebido tendo como base a abordagem fenomenológica, a única verdadeiramente científica nas humanidades.
Em outras palavras, ele busca entender os fenômenos sociais da maneira como eles de fato ocorrem, vêm à luz, e são experimentados pelos agentes, e não a partir de abstrações ou generalizações teóricas – darei alguns exemplos para ilustrar essa distinção mais à frente. E é exatamente esse impulso fenomenológico que me leva a dar particular importância à comunicação na análise do evento, pois, como já ensinou o filósofo, é a linguagem, entendida como trocas comunicativas, que funda nossa vida coletiva e, assim, nos faz humanos.
É preciso dizer também que meu intuito é apresentar uma análise política e não sociológica dos movimentos sociais. Ou seja, não estou interessado na perspectiva internalista dos movimentos, mas sim como movimentos e outros fenômenos sociais e políticos impactaram as instituições de nosso sistema democrático e as preferências do eleitorado, produzindo o que chamei genericamente de crise.
Escrever um livro sobre Junho de 2013 doze anos depois do ocorrido é um desafio e tanto. Muita coisa já mudou desde então, mas outras coisas ainda permanecem. Este livro pertence ao campo da Ciência Política, mas é preciso reconhecer que o problema epistêmico colocado pelo distanciamento temporal entre observador e objeto remete também à história do tempo presente. Essa localização disciplinar híbrida não é acidental, mas responde às exigências específicas do objeto analisado: as manifestações de junho de 2013, evento cujos desdobramentos continuam ecoando na política brasileira, mais de uma década após sua ocorrência.
A proximidade temporal entre o presente e os eventos estudados oferece vantagens epistemológicas específicas: acesso a fontes que podem em breve se perder, familiaridade com contextos culturais e políticos que já se tornaram opacos para gerações futuras, recurso à memória vivida dos acontecimentos etc.
No caso do presente livro, examino uma pletora de dados de comportamento político, oriundos de surveys feitos durantes as manifestações, postagens em redes sociais e cobertura de imprensa da época, que, quando muito, foram tratados de maneira superficial pela literatura sobre Junho de 2013. Isso nos permitirá rever teorias e hipóteses aventadas por cientistas sociais que escreveram sobre o assunto, à luz de dados sistemáticos do período.
3.
A história do tempo presente também possibilita a intervenção crítica em disputas interpretativas que têm consequências políticas imediatas, contribuindo para a formação de uma memória coletiva mais rigorosamente fundamentada em evidências sistemáticas. A disputa sobre o significado das manifestações de junho de 2013 é um fato. Pretendo mostrar aqui que a gênese dessa disputa coincide com o desenrolar dos acontecimentos e se estende, posteriormente para a academia e até para a disputa política. Mas tal extensão não se deu de modo “natural”, ou seja, sem mediação.
Veremos que, enquanto as manifestações aconteciam, a grande imprensa brasileira já se esforçava por lhe dar sentido e significado político, com teses que foram frequentemente replicadas pela literatura acadêmica, virando lugar-comum na memória do evento.
As vantagens de nossa posição em relação ao objeto, entretanto, também vêm acompanhadas de responsabilidades metodológicas específicas.
A ausência de “arquivo fechado” – documentos continuam sendo produzidos, interpretações continuam mudando, os próprios eventos ainda estão se desdobrando – exige do pesquisador do tempo presente particular vigilância epistemológica sobre o caráter provisório de suas conclusões e abertura para revisão conforme novas evidências e perspectivas emergem.
No caso deste livro, lanço uma rede bem ampla a fim de capturar amostra representativa da literatura acadêmica sobre o assunto, desde trabalhos que foram escritos no calor dos acontecimentos até estudos publicados quando da “comemoração” dos dez anos das manifestações. Filtrei os textos de maior impacto, pois, caso contrário, a análise sistemática da literatura seria tarefa impossível.
Tudo isso foi feito com o fito de identificar os argumentos e hipóteses acerca do objeto que obtiveram maior circulação.
Aqui cabe uma digressão que visa a esclarecer a terminologia empregada neste estudo. Minha atitude cética perante o objeto me leva a descartar a expressão “Jornadas de Junho”, tão frequentemente empregada por colegas cientistas sociais e mesmo publicistas para se referirem à onda de manifestações de protestos ocorridas naquele mês do ano de 2013.
O termo “jornadas” (journées, em francês) tem clara origem na historiografia da Revolução Francesa e foi usado para designar momentos específicos de mobilização popular decisivos que marcaram pontos de inflexão no processo revolucionário. As mais famosas são: a Jornada de 14 de julho de 1789, quando da Queda da Bastilha; a Jornada de 10 de agosto de 1792, quando da queda da monarquia; as Jornadas de 31 de maio a 2 de junho de 1793, quando da expulsão dos girondinos etc.
Dessa maneira, o termo denota eventos concentrados temporalmente – geralmente com duração de um ou poucos dias – de mobilização popular intensa, com potencial transformador da ordem política. Como já notou André Singer anteriormente, devido a essa bagagem histórica, o termo “jornadas” tem uma carga semântica bastante positiva, que combina espontaneidade popular, legitimidade insurrecional e ruptura histórica.
4.
No contexto brasileiro, a expressão “Jornadas de Junho” foi adotada rapidamente tanto pela mídia quanto pela literatura acadêmica para designar os protestos de junho de 2013. Ao fazerem isso, esses intérpretes pretenderam dar aos fatos unidade de significado, revestida de uma carga positiva de heroicidade e legitimidade, a meu ver inadequada.
Meu objetivo aqui é evitar a naturalização de uma interpretação específica dos eventos, por exemplo, como ruptura transformadora, pois isso deveria ser produto da análise e não seu pressuposto. Por outro lado, não intenciono reduzir os eventos a meras “manifestações” ou “distúrbios”, mas simplesmente evitar a opção por uma interpretação ex ante do ocorrido. Não pretendo tampouco obscurecer as ambiguidades políticas e ideológicas dos protestos.
Isso é o que fatalmente acontece quando se opta pela interpretação laudatória ou derrogatória, o que busco evitar. Assim, optei por utilizar a singela sigla “J13” para me referir à onda de manifestações ocorridas no Brasil no mês de junho de 2013. Tal escolha permite que nos concentremos mais nos resultados da análise do que em prestar contas às expectativas normativas criadas pela própria terminologia empregada.
Por um lado, J13 não é evento encerrado. Pelo contrário, muitos analistas insistem em traçar desdobramentos que conduzem aos eventos mais importantes da história política recente de nosso país, como a reeleição apertada de Dilma Rousseff em 2014, a Operação Lava Jato, o processo de impeachment de 2016, a ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência em 2018 e a nova configuração política que marca o Brasil contemporâneo, com a estabilização de um polo político de extrema direita, acon-tecimento inédito na Nova República. Infelizmente, não houve espaço neste livro para explorar esses desdobramentos concretos, ainda que não deixe de analisar as consequências da J13 projetadas pela literatura no último capítulo antes da “Conclusão”.
Por outro, J13 se encerrou assim que o último manifestante dobrou sua faixa, abaixou seu cartaz, calou sua voz e resolveu voltar para casa. Deixando de existir em ato, J13 passa a existir somente em narrativa, memorializado por aqueles que se interessaram por explicá-lo, por reconstruí-lo. Este livro tenta dar conta de submeter as narrativas, teorias e explicações criadas acerca de J13 a um duplo escrutínio: o da lógica interna de seus argumentos e o do teste empírico sistemático a partir de evidências. Para tal, lanço mão de um conjunto de metodologias a fim de capturar e interpretar os diferentes tipos de dados sobre J13 ainda disponíveis.
5.
No capítulo 1, começo por uma revisão abrangente da literatura. A partir de coleta, ranqueamento por impacto e filtragem, estabeleci um corpus de 60 textos centrais. Cada um deles foi codificado para a identificação do método de investigação empregado, abordagem disciplinar, argumentos causais e consequências dos eventos.
No capítulo 2, identifico as explicações causais de J13 mais frequentemente encontradas na literatura, entre elas a crise da representação política, direito à cidade, reação do precariado, esgotamento do modelo lulista de desenvolvimento, gastos com megaeventos, contexto global dos protestos etc.
Em seguida, nos capítulos 3, 4 e 5, confronto cada uma dessas hipóteses com os dados oriundos de surveys aplicados durante os protestos nos dias 17 e 20 de junho, em São Paulo e em outras capitais país afora. Por meio de estatística descritiva, modelos de regressão logística e agregações semânticas das motivações declaradas, reconstruo o perfil sociodemográfico e político dos participantes, assim como suas razões ostensivas para ir às ruas. Isso me permite testar a pertinência de um conjunto de causas explicativas para o advento de J13, nomeadas pela literatura.
O capítulo 6, dedicado às redes sociais, aprofunda essa investigação, agora no meio digital. Nele apresento a análise de mais de 36 mil postagens no Facebook durante o mês de junho, filtradas e depois submetidas à codificação temática com apoio de modelos de inteligência artificial, sempre com validação humana. O objetivo aqui é identificar as principais motivações e enquadramentos dominantes nos posts campeões de compartilhamento, em sequência temporal, ao longo do mês de junho.
Nos capítulos seguintes examino outro importante agente que propiciou o advento de J13: a grande imprensa. Embora alguns autores tenham percebido o papel da imprensa na tentativa de ocupar a posição de intérprete privilegiado dos fatos ao longo do desenrolar dos eventos, a maioria da literatura especializada ignora um ponto decisivo: o papel da imprensa na construção das percepções sociais que tornaram possível a explosão do ciclo de protestos.
O capítulo 7 é dedicado ao exame da cobertura jornalística da política e da economia antes de J13. Primeiramente, demonstro com dados estatísticos a enorme relevância das mídias tradicionais como fonte de informação política dos cidadãos brasileiros naquele contexto. Em seguida, conduzo uma análise quantitativa de conteúdo de 84 mil textos publicados nas capas da Folha de S.Paulo, O Globo e Estado de S. Paulo, ao logo dos onze anos que precederam as manifestações.
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O capítulo seguinte, o oitavo, trata do comportamento dos grandes jornais durante o mês de junho de 2013. Utilizo aqui uma metodologia que batizei, de modo lúdico, de “etnografia da mídia”, pois a ideia foi fazer uma imersão nesse material do passado e olhá-lo como se estivesse “encontrando” as capas dos jornais, examinando detalhadamente suas características textuais e gráficas, dia após dia. Em suma, como se revivesse aquele mês de 2013.
O objetivo foi capturar o fluxo das narrativas que iam sendo construídas dia após dia. Ainda no capítulo 8 conduzi uma análise quantitativa de todos os textos das capas do mês, nos três jornais, a fim de validar o resultado da interpretação etnográfica, mais uma vez lançando mão de codificação de dados auxiliada por modelos de Inteligência artificial, particularmente preocupado em identificar os enquadramentos dos atos e sua responsabilização.
No capítulo 9, reconstruo o ambiente político, econômico e social imediatamente anterior a junho de 2013, examinando de forma sistemática indicadores de aprovação presidencial, base parlamentar, desempenho legislativo e principais variáveis macroeconômicas, com o fito de testar a solidez das teses que tratam J13 como produto de uma crise estrutural prévia.
A partir dessa contextualização, apresento também a trajetória das interpretações acadêmicas que, desde antes dos protestos, vinham postulando o esgotamento do lulismo ou a falência do modelo desenvolvimentista do PT, destacando suas formulações centrais e seu lugar na literatura. Com isso, encerro a revisão crítica das principais teses sobre as causas de J13 levantadas pela literatura, percurso esse iniciado nos capítulos sobre os surveys.
Mas o livro não poderia terminar sem uma discussão sobre as consequências de J13. Assim, no capítulo 10, examino como a literatura as interpretou ao longo da década que se seguiu aos acontecimentos, mapeando as narrativas acadêmicas dominantes, classificando-as e contrastando-as com evidências empíricas provenientes de pesquisas de opinião, séries históricas de confiança institucional e registros de comportamento político no curto e médio prazo.
O capítulo organiza esse campo disperso de interpretações em correntes analíticas, identificando padrões argumentativos, como o tropo da perplexidade e o naturalismo sociológico, recorrentes na literatura.
O capítulo 11 é intitulado “Uma explicação alternativa para J13”. Nele proponho uma alternativa às explicações predominantes na literatura, articulando um modelo causal centrado na mediação comunicacional, nas condições do ambiente informacional pré-2013, no papel das redes sociais e na interação entre perfil socioeconômico dos participantes e enquadramentos midiáticos. Desenvolvo aqui a hipótese que orienta a segunda metade do livro: a de que a massificação de J13 e sua inflexão política decorrem menos de macroestruturas e mais da maneira como motivos, percepções e enquadramentos foram produzidos, amplificados e distribuídos.
O capítulo introduz esse arcabouço por meio de exemplos, analogias e um Directed Acyclic Graph (DAG) que organiza visualmente o argumento, sumarizando as várias análises empíricas feitas no decorrer do livro.
Na “Conclusão”, retomo a discussão mais ampla sobre representação, mediação e memória política, situando J13 dentro de uma reflexão conceitual sobre o paradoxo da representação e reconstruindo como, uma vez dissipado o protesto, o evento passa a sobreviver primordialmente como narrativa produzida pela imprensa e pela academia. Reavalio, à luz das análises desenvolvidas ao longo do livro, o modo como esses dois campos reinterpretaram J13, e sintetizo as implicações teórico-metodológicas do percurso analítico, especialmente no que toca ao papel da mediação comunicacional e às limitações das explicações sociológicas internalistas que tomam boa parte do debate acadêmico.
Em suma, o livro tem a nada modesta pretensão de interessar tanto àqueles dedicados ao labor propriamente acadêmico quanto àqueles mais focados no debate sobre as consequências políticas de tão afamado evento.
*João Feres Júnior é professor titular de Ciência Política do IESP-UERJ. Coordena o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) e o Laboratório de Estudos de Mídia e Espaço Público (LEMEP). É autor do livro recém-publicado Nas ruas e fora delas: Junho de 2013 revisitado. Belo Horizonte, Autêntica, 2026, 342 págs. [https://link.amazon/B0i8MB3Po].

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Publicação de: Viomundo
