Felipe Costa: Milagre ou escândalo?

Por Felipe A. P. L. Costa*

Nos últimos dias, diversos veículos de imprensa (nacionais e estrangeiros) fizeram algum alarde em torno da notícia de que um guia xerpa [1], desaparecido havia cinco ou seis dias, foi encontrado com vida em Sagarmatha (Everest).

Não foi um milagre, como alardearam alguns, foi um escândalo. Um escândalo de múltiplas facetas [2].

O guia não foi achado

Para começar, o guia – conhecido como Hillary Dawa Sherpa, de 52 anos – não foi achado; ele veio se arrastando montanha abaixo (ficou mais de dois dias preso em uma fenda).

Entre o acampamento principal da chamada Rota Sul (5.364 m de altitude) [3] e o topo do Everest (8.848 m), há quatro bases escalonadas (1-4, de baixo para cima).

Quando foi visto pela última vez antes de ser dado como desaparecido, em 29/5, Dawa estava acima da base 3 (7.500 m).

Quando foi visto de volta, em 4/6, estava a 5.500 m de altitude, abaixo da base 1 e a caminho do acampamento principal. Foi socorrido por colegas e, em seguida, levado de helicóptero até o hospital, em Catmandu [4].

Nenhuma equipe de resgate foi enviada

O escândalo maior é o fato de que a operadora de turismo para quem Dawa estava a trabalhar não providenciou o envio de uma equipe de resgate – já no primeiro dia (29), ele foi dado como desaparecido e pronto.

E os relatos informam que todos na montanha foram dormir naquela noite sabendo que um xerpa havia sido deixado para trás ainda com vida. (Tendo sido informada do desaparecimento, a família já estava a preparar o funeral. Com os relatos posteriores e a repercussão do caso, a família anunciou que pretende processar os responsáveis pelo escândalo.)

Para a indústria do turismo que opera na região, a vida de um xerpa parece valer tanto quanto um cilindro de oxigênio. Dawa não foi o primeiro caso nem será o último. A grande diferença foi que, dessa vez, o guia sobreviveu e o aparente descaso com a vida dele deixou muita gente furibunda no Nepal [5].

Apoie o VIOMUNDO

Notas

[1] Alguns dicionários grafam sherpa. Ambas as formas estão corretas.

[2] Para uma descrição mais detalhada do que houve, clique aqui.

[3] O acampamento base da Rota Norte (do lado tibetano da montanha) fica a 5.150 m de altitude. A Rota Sul fica do lado nepalês. Escalar pelo lado tibetano é tecnicamente mais difícil e mais caro, razão pela qual os turistas costumam se amontoar do lado nepalês.

[4] As notícias de 10/6 informam que ele saiu da UTI e passa bem (veja aqui). Catmandu (ou Katmandu) é a capital do país. Com pouco mais de 147 mil km2 de área territorial (pouco menor que o Ceará), o Nepal está espremido entre o sudoeste da China e o nordeste da Índia. O relevo da região é dominado pela cordilheira do Himalaia, incluindo Sagarmatha (8.848 m de altitude), a maior elevação montanhosa da Terra. Cito: “Entre nós, brasileiros, Sagarmatha (mãe do universo, para os nepaleses) é mais conhecida como Monte Everest – homenagem a George Everest (1790-1866), cartógrafo inglês que trabalhou na região. Os tibetanos a chamam de Chomolungma (deusa mãe do mundo) e os chineses, de Qomolangma Feng (mãe sagrada das águas). […] Em maio de 1953, o neozelandês Edmund Hillary (1919-2008) e o xerpa Tenzing Norgay (1914-1986) foram os primeiros seres humanos a pisar no topo do Everest” (Costa 2014, p. 95).

[5] Muitos xerpas, por exemplo, estão furibundos com o caso e é possível que a luta deles consiga obter alguns avanços. Faz tempo que o Everest se converteu em uma Disneylândia: gentes do mundo inteiro se mostram dispostas a pagar algumas dezenas de milhares de dólares para ir passear na montanha mais alta da Terra. Essas gentes também se mostram dispostas a esperar na fila. A rigor, seriam ao menos três: a fila de espera pelo visto do governo nepalês, a da operadora de turismo contratada e, no caso da Rota Sul, a inacreditável fila durante a própria escalada. Na atual temporada, mais de 1 mil pessoas já escalaram o Everest, um recorde; infelizmente, porém, foram registradas também ao menos cinco mortes. Como outras modalidades do turismo, o turismo de aventura é uma praga insidiosa. (A experiência negativa mais próxima que eu tive talvez tenha sido a visita que fiz – a convite de alunos – ao Parque Nacional Foz do Iguaçu, em novembro de 2006. Foi um filme de horror: muita gente, muitas lanchas, muitos sobrevoos de helicóptero – em resumo, congestionamento e barulho por todo lado).

*Felipe A. P. L. Costa é biólogo e escritor. Autor, entre outros livros, de O que é darwinismo (2019). Para adquirir as publicações entre em contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros artigos ou obter amostras dos livros, clique aqui.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

Leia também

Coletivo Advogadas e Advogados pela Democracia lança campanha de solidariedade às vítimas do terremoto na Venezuela

Paulo Nogueira Batista Jr.: A China não improvisa

Memorial da Resistência abre exposição de arte com obras realizadas por presos políticos da ditadura militar

Publicação de: Viomundo

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *