Por Vanderlei Tenório*
Dizem que o poder, no Reino Unido, é uma coisa séria. Tem aquela pompa toda, o lorde de peruca, o chá das cinco, o Big Ben marcando o compasso da civilização.
Pois o tal Keir Starmer, que entrou na Downing Street fazendo pose de salvador da pátria — com uma maioria de 410 assentos que faria qualquer tiranete latino-americano chorar de inveja —, e descobriu da pior maneira que o trono britânico tem mais espinhos do que um cacto do Sertão.
O homem era advogado. Trabalhista, tradicional, sério. Entrou com aquela aura de quem ia colocar a economia nos eixos, fazer a libra dançar samba e o povo ser feliz para sempre.
Só que esqueceu de combinar com a realidade. A economia, que deveria decolar, resolveu ficar deitada em berço esplêndido. O desemprego, a inflação, o aperto no cinto… e, para arrematar o desastre, o governo ainda decidiu cortar subsídios dos idosos e aumentar impostos. É, meu caro, não há oratória que convença o vovô britânico a gostar de quem lhe tira o carvão da lareira no meio do inverno.
E começou com uma bobagem. Ou melhor, com uma série de “presentinhos”. Sabe como é: o sujeito mal senta na cadeira e já ganha uma roupa de grife, uns óculos que custam um rim e, para coroar, um ingresso para ver a Taylor Swift. Ah, a Taylor! Quem resiste a um show da loirinha estadunidense?
Pois o Starmer não resistiu. Declarou tudo, dentro da lei, bonitinho. Mas o eleitor britânico, esse bicho desconfiado, viu aquilo e pensou: “Poxa, o premiê está preocupado com o preço do pão ou se “Shake It Off” está no setlist da turnê?”. A imagem de austero virou piada de salão.
O problema é que esse reality show já se tornou um hábito, e o espectador britânico começa a se cansar do elenco. Se antes o número 10 da Downing Street era sinônimo de uma continuidade quase monárquica — vide a era Thatcher ou o longo mandato de Blair —, hoje a residência oficial parece ter uma porta giratória.
Tivemos a saída atabalhoada de Boris Johnson, o breve e trágico experimento de Liz Truss — que durou menos que uma alface na geladeira — e a tentativa de normalização com Rishi Sunak que, no fim, foi engolido pela própria máquina.
Cada premiê que entra prometendo restaurar a ordem e sai deixando o caos, apenas reforça a sensação de que o Parlamento, outrora o “berço da democracia”, se transformou em uma arena de vaidades onde o projeto de país é sistematicamente sacrificado pela sobrevivência imediata de cada liderança.
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Para ajudar, em vez de focar no básico, Starmer se meteu numa embrulhada danada com o seu chefe de gabinete. O sujeito indicou Peter Mandelson para embaixador nos EUA, mesmo sabendo dos vínculos nebulosos com Jeffrey Epstein. Foi o desastre final.
O caso abalou a credibilidade do partido, e o próprio Starmer teve de ir a público admitir o erro — mas o estrago estava feito. A conta chegou em maio, nas eleições regionais, em que o Partido Trabalhista levou uma surra histórica, perdendo centenas de cadeiras. O saldo? 13% de aprovação. Um número que fala mais alto do que qualquer discurso.
Vinte e três meses. Foi o que durou o sonho. Menos tempo do que um contrato de celular com fidelidade. Agora, o homem anunciou que vai embora. Fez aquele discurso de despedida, com o Rei Charles III de testemunha e a promessa de uma “transição tranquila”.
Disse que quer ser o “melhor marido e o melhor pai”. É a clássica desculpa de quem, na verdade, só quer fugir da pergunta que o partido todo sussurra nos corredores: “Como é que a gente se livra desse cara antes que a casa caia de vez?”.
A pressão interna, capitaneada por cem parlamentares que queriam a sua cabeça, tornou-se insustentável depois que Andy Burnham, seu principal rival, conquistou uma cadeira no Parlamento na semana passada e acendeu o sinal de alerta máximo.
O sistema britânico, diga-se de passagem, é uma maravilha de engenharia política: para ser o novo “dono da bola”, o candidato não precisa necessariamente de voto popular direto; precisa de 81 parlamentares que digam “tá bom, você manda”.
É quase como um sorteio de condomínio, mas com mais gravatas. Se apenas um candidato atingir o apoio necessário, o sujeito assume sem nem precisar de votação. Imagina só: no Brasil, a gente tentando escolher o síndico assim…
No fim das contas, o Reino Unido se prepara para o sétimo premiê em dez anos. O Starmer vai cuidar da família, a Taylor Swift continua cantando, e a gente aqui, com a nossa pipoca, assistindo a esse reality show geopolítico.
É, meus amigos… é mais fácil trocar de primeiro-ministro em Londres do que de técnico de futebol no Brasil. A diferença é que, lá, pelo menos o chá continua sendo servido às cinco.
*Vanderlei Tenório é jornalista e professor.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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Publicação de: Viomundo
