Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás e pré-candidato do Partido Social Democrático (PSD) à Presidência, reagiu neste sábado, 11 de julho, à carta que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atribuiu ao pai, Jair Bolsonaro, e afirmou que liderança não se herda. A crítica, feita quatro dias antes de sua visita a Curitiba, transforma o encontro na Associação Comercial do Paraná (ACP) em teste para Ratinho Junior, Sandro Alex e o palanque estadual do PSD.
Caiado começou pela ironia. Em publicação nas redes sociais, destacou que Flávio Bolsonaro, aos 45 anos, precisou ler uma carta do pai para sustentar que estaria preparado para governar o país. Depois, elevou o tom e afirmou que um presidente precisa tomar decisões sem depender da autorização de outra liderança.
“A liderança não é herdada, ela é demonstrada”, escreveu Caiado. O presidenciável do PSD citou crises internacionais como exemplos de situações nas quais o chefe do Executivo não poderia aguardar a orientação de um padrinho político.
Flávio Bolsonaro havia lido durante uma transmissão uma carta que, segundo ele, foi entregue por Jair Bolsonaro. No documento, o ex-presidente chama o senador de seu “porta-voz”, pede que aliados deixem as divergências de lado e afirma que o filho seria a melhor opção para a disputa presidencial.
O texto buscava reafirmar a autoridade de Flávio Bolsonaro dentro do bolsonarismo. A resposta de Caiado atacou exatamente esse fundamento: a tentativa de transferir liderança política por decisão familiar.
O conflito desembarcará no Paraná na quarta-feira, 15 de julho. A ACP marcou para as 18h30 o encontro “Reflexões e Propostas”, com Caiado e o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. O material divulgado sobre a agenda apresenta os dois dirigentes como protagonistas, mas não informa se Ratinho Junior e Sandro Alex participarão.
A ausência dos dois nomes na divulgação já havia criado uma dúvida sobre o grau de adesão do PSD paranaense à pré-chapa nacional. A nova declaração contra Flávio Bolsonaro torna o silêncio mais difícil, porque Caiado chegará a Curitiba depois de abrir uma disputa direta pelo comando eleitoral da direita.
Sandro Alex é o pré-candidato escolhido por Ratinho Junior para disputar o Governo do Paraná pelo PSD. No plano nacional, o partido trabalha com a pré-chapa formada por Caiado e Kassab. No campo adversário, Sergio Moro filiou-se ao Partido Liberal (PL), lançou sua pré-candidatura ao Palácio Iguaçu ao lado de Flávio Bolsonaro e passou a oferecer ao presidenciável bolsonarista um palanque estadual.
O choque de 11 de julho não é isolado. Três dias antes, Caiado já havia criticado a proposta de Flávio Bolsonaro para que os Estados Unidos adiassem uma tarifa adicional contra produtos brasileiros até depois das eleições. Caiado classificou a iniciativa como uso eleitoral de um problema econômico que pode atingir empresas e trabalhadores.
A disputa passou, portanto, por dois temas em poucos dias. Primeiro, Caiado questionou a estratégia internacional de Flávio Bolsonaro. Depois, contestou a ideia de que o senador possa receber do pai a liderança sobre todo o campo conservador.
O encontro da ACP precisa esclarecer como essa divisão será recebida no Paraná. Sandro Alex concorda com a crítica de Caiado à liderança herdada? Ratinho Junior participará da agenda? O diretório estadual assumirá a pré-chapa Caiado-Kassab? Caiado repetirá diante dos empresários paranaenses os ataques feitos a Flávio Bolsonaro? Sergio Moro ou dirigentes do PL foram convidados?
As respostas definirão se a agenda será tratada pelo PSD paranaense como ato de construção presidencial ou apenas como compromisso institucional de seus dirigentes nacionais.
A presença de Ratinho Junior e Sandro Alex mostraria disposição para vincular a campanha estadual ao projeto de Caiado. Uma eventual ausência manteria aberta a suspeita de que o grupo governista pretende explorar a força regional do governador sem assumir integralmente o presidenciável escolhido pelo partido.
Caiado não chegará a Curitiba apenas para apresentar propostas aos empresários. Chegará depois de desafiar o presidenciável que já dividiu o palanque com Sergio Moro na capital paranaense. O encontro da ACP tende a revelar qual direita terá acolhida no PSD do Paraná quando as convenções partidárias começarem.
Acompanhe no Blog do Esmael a cobertura dos palanques, das convenções e das eleições de 2026.
Leia também:

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
