PL terá de dividir caixa entre Moro, Senado e Câmara

O Partido Liberal (PL) chega às convenções de 2026 com aproximadamente R$ 134,2 milhões acumulados fora do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC). A direção nacional ainda não informou quanto desse caixa será destinado ao Paraná, onde o partido disputará o governo, o Senado, a Câmara dos Deputados e a Assembleia Legislativa do Paraná (Alep).

O valor reúne duas movimentações contábeis. Segundo dados das contas partidárias citados pela Folha de S.Paulo, o PL economizou R$ 102,8 milhões durante 2025 e recebeu, em janeiro de 2026, outros R$ 31,4 milhões devolvidos pelo Instituto Álvaro Valle, fundação vinculada à legenda.

A reserva de R$ 134,2 milhões não inclui o Fundo Eleitoral de 2026. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) destinou R$ 881,7 milhões ao PL, a maior parcela entre os partidos brasileiros.

A soma supera R$ 1 bilhão, mas os recursos não formam um caixa único de livre utilização. Fundo Partidário e Fundo Eleitoral possuem regras próprias de aplicação, prestação de contas e distribuição entre candidaturas.

A legislação também exige o cumprimento das cotas financeiras destinadas às candidaturas femininas e de pessoas negras. A direção nacional precisa aprovar os critérios de distribuição do FEFC, registrar a decisão em ata e divulgar as regras antes dos repasses.

No Paraná, a definição atingirá diretamente o palanque de Sergio Moro, a campanha de Filipe Barros ao Senado e as chapas proporcionais. Nenhum valor destinado a esses nomes foi publicado pela direção nacional do PL.

A ausência de números impede afirmar quanto Sergio Moro receberá. Também não há documento público que estabeleça prioridade financeira para a campanha ao governo em relação ao Senado ou às candidaturas proporcionais.

A disputa estadual exige uma estrutura cara. Uma campanha ao governo precisa alcançar os 399 municípios, manter equipes regionais, produzir propaganda, contratar pesquisas e sustentar operações jurídicas, contábeis e digitais.

A eleição para o Senado possui alcance semelhante. Em 2026, cada eleitor escolherá dois senadores, o que aumenta a competição entre candidatos do mesmo campo político e amplia o custo das campanhas estaduais.

As chapas para deputado federal e estadual também disputam uma parte relevante dos recursos. O número de parlamentares eleitos define a força do partido no Congresso, na Alep, no tempo de propaganda e na divisão futura dos fundos públicos.

A direção nacional terá de estabelecer quanto será investido em cada cargo e quais critérios serão usados. Desempenho eleitoral anterior, potencial de votos, capacidade de arrecadação e alinhamento com o palanque presidencial podem influenciar a decisão, mas o PL ainda não divulgou os parâmetros para o Paraná.

Valdemar Costa Neto ocupa posição central nessa negociação. A decisão formal pertence à executiva nacional, mas o presidente do PL comanda politicamente a legenda e participou das articulações que levaram Sergio Moro ao partido e à disputa pelo governo paranaense.

O dirigente teve até R$ 119 milhões em bens pessoais bloqueados por decisão cautelar do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF). A Polícia Federal (PF) investiga a suspeita de interferência de Valdemar na indicação de emendas parlamentares, embora ele não exerça mandato.

A defesa nega irregularidades, e o processo não resultou em condenação. A medida conhecida atinge o patrimônio pessoal do dirigente e a execução das emendas investigadas, sem representar bloqueio automático das contas eleitorais ou partidárias do PL.

O partido precisa esclarecer se Valdemar continuará participando das decisões financeiras da campanha e quais controles internos serão adotados. A investigação não elimina seu poder político, mas aumenta a cobrança por transparência na gestão dos recursos.

O Progressistas (PP) enfrenta questionamento semelhante. O partido economizou aproximadamente R$ 40 milhões em 2025 e terá direito a R$ 417,1 milhões do Fundo Eleitoral.

O tesoureiro nacional do PP é o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), uma das principais lideranças políticas do Paraná. Ele afirmou à Folha que o partido manteve uma estrutura enxuta para ampliar os investimentos nas campanhas de 2026.

A declaração ainda não informa quanto será destinado ao Paraná. O PP também precisa revelar quais cargos terão prioridade, quem decidirá os repasses e se a distribuição estará vinculada às alianças para o governo e o Senado.

O tamanho do caixa pode interferir na formação das chapas. Partidos com maior reserva conseguem financiar mais candidatos, atrair lideranças regionais e ampliar sua presença na propaganda eleitoral.

Esse poder financeiro não comprova a existência de contrapartidas políticas. Ele exige, porém, que PL e PP publiquem critérios objetivos para impedir que recursos públicos sejam distribuídos apenas por proximidade com as direções nacionais.

O contraste com o Partido dos Trabalhadores (PT) mostra estratégias contábeis diferentes. Segundo as contas citadas pela Folha, o diretório nacional petista terminou 2025 com déficit próximo de R$ 725 mil, resultado de aproximadamente R$ 181,3 milhões em receitas e R$ 182 milhões em despesas.

O déficit não deixa o PT sem financiamento eleitoral. O partido receberá R$ 615,4 milhões do FEFC, a segunda maior parcela distribuída pelo TSE.

Da mesma forma, a reserva do PL não garante repasse automático a Sergio Moro, Filipe Barros ou às chapas proporcionais. O valor destinado ao Paraná dependerá da resolução interna, do peso eleitoral atribuído ao estado e da estratégia presidencial de Flávio Bolsonaro.

O caixa de R$ 134,2 milhões é um fato contábil. A divisão entre candidatos, cargos e estados ainda depende de uma decisão política que o PL não tornou pública.

Acompanhe no Blog do Esmael a cobertura das eleições de 2026 e da distribuição dos recursos públicos de campanha.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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