O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) levou sua pré-campanha a Minas Gerais nesta semana e encontrou, no mesmo terreno do agronegócio, dois rivais diretos da direita nacional: Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). A disputa mineira antecipa o problema que o Paraná tenta empurrar para depois: a direita fala em unidade, mas cada palanque já tem dono.
A agenda de Flávio Bolsonaro passou por Belo Horizonte, feira do agro, encontro partidário e compromissos políticos entre segunda-feira (1º) e quarta-feira (3). O roteiro incluiu o Parque de Exposições da Gameleira, palco da Megaleite, e atos do PL em Minas.
O movimento seria apenas uma agenda regional se não viesse depois do desgaste provocado pelo caso Banco Master. Flávio Bolsonaro tenta reposicionar a campanha no eleitorado conservador, especialmente no agro, enquanto Caiado e Zema aceleram conversas com produtores, empresários e lideranças do mesmo campo.
Minas virou vitrine porque reúne três fatores eleitorais de peso: segundo maior colégio eleitoral do país, forte presença rural e histórico de estado decisivo em disputas presidenciais. Nenhum presidenciável da direita quer deixar o terreno livre para o concorrente.
Caiado chegou acompanhado de Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD. Zema joga em casa, mesmo fora do governo mineiro, com o peso de sua gestão anterior e com o governador Mateus Simões (PSD) mais próximo de seu projeto presidencial. Flávio Bolsonaro, por sua vez, tenta demonstrar que o PL continua no comando do bolsonarismo nacional.
A presença dos três no mesmo circuito do agro não significa acordo. Significa disputa de preferência, foto, agenda, discurso e futuro palanque. O eleitor conservador vê nomes parecidos no ataque ao PT, mas os partidos contam votos, cargos, governos estaduais e tempo de televisão.
O caso Master atravessa esse cálculo. Flávio Bolsonaro voltou a negar, em Belo Horizonte, que tenha pedido dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Ele sustenta que se tratou de contrato privado e nega irregularidade.
A explicação não encerrou a crise política. Reportagens sobre mensagens, pagamentos e relações entre personagens do Banco Master e a órbita da pré-campanha bolsonarista abriram espaço para Caiado e Zema venderem ao agro e ao mercado a imagem de alternativa menos vulnerável.
No Paraná, a cena mineira bate direto em Sergio Moro (PL), Deltan Dallagnol (Novo), Filipe Barros (PL), Ratinho Junior (PSD) e Sandro Alex (PSD). Todos dependem, em graus diferentes, de uma engenharia nacional que ainda não fechou a conta presidencial.
Moro está no PL, mas seu entorno no Paraná flerta com arranjos que passam pelo Novo e pelo PSD. Deltan está no Novo, partido de Zema. Ratinho Junior governa pelo PSD, legenda de Caiado, enquanto Sandro Alex aparece como nome do grupo ao Palácio Iguaçu. Filipe Barros segue no PL, partido de Flávio Bolsonaro.
Esse cruzamento produz uma contradição simples para o eleitor entender. O PL quer Flávio Bolsonaro. O Novo tem Zema. O PSD tem Caiado. No Paraná, esses três campos conversam entre si, sobem em palanques parecidos e evitam dizer quem será o cabeça nacional de cada chapa local.
Minas deixou a contradição mais visível porque colocou os presidenciáveis no mesmo corredor do agro. O Paraná ainda tenta tratar o tema como detalhe de calendário, mas a disputa presidencial desce para a eleição estadual quando candidato a governador, Senado, Câmara e Assembleia precisa escolher qual fotografia vai pendurar no santinho.
A direita paranaense pode tentar vender harmonia até agosto. O problema é que eleitor, doador e liderança municipal cobram definição antes da campanha oficial. Ninguém entra em eleição majoritária sem saber qual nome presidencial carrega, qual rejeição herda e qual crise precisará explicar.
Flávio Bolsonaro foi a Minas para mostrar presença depois do Master. Caiado e Zema foram ao mesmo eleitorado para provar que existe vida à direita fora da tutela do PL. O agro mineiro virou ensaio aberto da disputa nacional.
Para o Paraná, a pergunta incômoda continua sem resposta pública: Moro, Deltan, Filipe Barros, Ratinho Junior e Sandro Alex conseguirão dividir o mesmo campo quando PL, Novo e PSD puxarem a corda presidencial para lados diferentes?
A resposta não sairá de discurso genérico sobre unidade. Ela virá quando cada pré-candidato tiver de registrar chapa, escolher palanque e explicar ao eleitor por que apoiou um projeto no Paraná e outro em Brasília.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
