Damares deixa plano de Flávio Bolsonaro após ataques de aliados

A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) deixou de colaborar com o plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após afirmar que sofreu ataques de aliados do pré-candidato. A baixa, confirmada neste domingo, 12 de julho, transforma a disputa entre Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro em consequência concreta para a organização da campanha presidencial.

Damares havia sido encarregada de contribuir na área de direitos humanos. A senadora afirmou que já havia cumprido a primeira etapa do trabalho e acrescentou que poderia voltar a ajudar em uma eventual transição de governo. Ela também disse que Flávio Bolsonaro não voltou a procurá-la.

A declaração impede que a saída seja tratada como rompimento definitivo. Damares não retirou formalmente o apoio eleitoral a Flávio Bolsonaro, não anunciou adesão a uma candidatura de Michelle Bolsonaro nem falou em deixar o Republicanos.

O movimento, porém, representa um recuo político evidente. Em janeiro, Damares declarou que entraria na campanha para ajudar Flávio Bolsonaro entre mulheres e evangélicos, além de colaborar com propostas de enfrentamento ao feminicídio. Em junho, o pré-candidato a convidou para trabalhar em temas ligados à infância, à família, à assistência social e à proteção das mulheres.

A lista detalhada das propostas entregues por Damares não foi divulgada. As informações publicadas sobre o trabalho mencionam combate ao abuso infantil, proteção de crianças e adolescentes, violência contra a mulher, assistência às famílias e direitos humanos. Não existe, portanto, base documental pública para atribuir à senadora medidas específicas ou um capítulo concluído do programa.

A campanha mantém Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e filiada ao Republicanos, na coordenação do programa chamado Brasil Por Elas. O projeto reúne propostas de segurança pública, combate à violência doméstica, crédito, empreendedorismo feminino, mercado de trabalho, saúde da mulher, economia do cuidado e apoio a famílias atípicas.

Damares participava desse núcleo com sugestões para a área de direitos humanos. A ex-ministra Cristiane Britto chegou a ser citada como possível colaboradora, mas não houve confirmação de que assumirá formalmente a função deixada pela senadora. A coordenação geral permanece com Daniella Marques.

A saída ocorreu depois de Michelle Bolsonaro acusar Flávio Bolsonaro de tê-la humilhado e desrespeitado. A ex-primeira-dama também deixou a presidência nacional do PL Mulher e não participou de uma reunião convocada pela pré-campanha para discutir propostas destinadas ao eleitorado feminino. Damares, que havia colaborado na organização do encontro, também não compareceu.

Flávio Bolsonaro tentou conter a crise durante a reunião. Agradeceu o trabalho de Michelle, disse que as portas permaneciam abertas e afirmou esperar uma reconciliação. O gesto não impediu que o conflito alcançasse a equipe responsável por um dos segmentos mais sensíveis de sua campanha.

A perda de Damares não comprova transferência de votos, queda entre evangélicos ou aumento da rejeição feminina. Qualquer conclusão desse tipo dependerá de pesquisas posteriores, com metodologia comparável e campo realizado depois da crise.

A consequência imediata está na estrutura política. Flávio Bolsonaro procurou Damares justamente por sua interlocução com mulheres conservadoras, lideranças religiosas e organizações ligadas à proteção da infância. Ao perder essa participação, a campanha precisa reconstruir pontes no mesmo momento em que Michelle se afasta das atividades partidárias.

O Republicanos também entra na disputa. Damares e Daniella Marques pertencem ao partido presidido nacionalmente por Marcos Pereira. A decisão individual da senadora não equivale a uma deliberação partidária sobre a eleição presidencial. Também não confirma que a legenda tenha rompido ou fechado uma aliança nacional com Flávio Bolsonaro.

O silêncio partidário mantém uma contradição aberta. A campanha depende de integrantes do Republicanos para construir sua agenda dirigida às mulheres, enquanto ainda precisa definir com a direção da legenda qual será a relação eleitoral entre as duas siglas.

No Paraná, a crise chega diretamente ao palanque de Sergio Moro (PL). O senador lançou sua pré-candidatura ao governo estadual ao lado de Flávio Bolsonaro, Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL), transformando Curitiba em uma das principais bases estaduais do projeto presidencial do PL.

Moro não perde votos automaticamente porque Damares deixou o plano de governo. O problema é político: ao adotar Flávio Bolsonaro como referência nacional, o ex-juiz também recebe as crises que atingem a campanha presidencial.

A disputa com Michelle e a saída de Damares dificultam o discurso de unidade do bolsonarismo. O impacto será maior se a campanha não esclarecer quem assumirá a área de direitos humanos, quais contribuições permanecerão no programa e se a senadora continuará atuando pela eleição de Flávio Bolsonaro.

Damares, por enquanto, saiu do plano, mas não declarou rompimento eleitoral. Michelle se afastou do comando do PL Mulher, mas não anunciou apoio a outro nome. O Republicanos mantém quadros dentro da formulação do programa, porém não apresentou uma decisão nacional definitiva.

A campanha de Flávio Bolsonaro terá de responder a essas lacunas antes que uma baixa administrativa se converta em crise de palanque.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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