Ato em apoio ao povo venezuelano: ‘A palavra mais bonita para nós hoje é solidariedade. Amor com amor se paga’

Por Conceição Lemes

Na última quarta-feira, 1º de julho, fez uma semana que dois terremotos atingiram violentamente a Venezuela.

No mesmo dia, em Brasília, internacionalistas reuniram-se no auditório da Embaixada para o primeiro ato no Brasil em solidariedade ao povo venezuelano.

O Coletivo Advogadas e Advogados pela Democracia (CAAD) e o Comitê Internacionalista de Solidariedade à Venezuela organizaram a cerimônia.

Estiveram presentes os embaixadores Manuel Vadell (República Bolivariana da Venezuela), Víctor Manuel Cairo Palomo (Cuba) e Ahmed Mulay Ali Hamadi (República Árabe Saarauí Democrática).

Entre as várias falas, reproduzimos duas que, além de emocionantes, vão além daquele momento.

Uma delas é de Libertad Velasco, jornalista venezuelana que, de Caracas, enviou este áudio.


A outra é de Flávia Rodrigues, professora, que discursou no ato.

Libertad Velasco: “A palavra mais bonita e esperançosa para nós hoje é solidariedade”

Segue a transcrição da manifestação de Libertad Velasco. 

Eu quero mandar um abraço para todos vocês, de Caracas. Há uma semana já, do duplo terremoto, que é o desastre natural mais devastador e mortal da história da Venezuela.

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Eu sou Libertad Velasco, uma sobrevivente desta tragédia, mas outros membros da minha família não tiveram esta mesma sorte de viver hoje.

Imagina que a NASA, esse serviço dos Estados Unidos, está relatando que 59 mil prédios estão danificados ou desabados diretamente, e a possibilidade de que os desaparecidos tenham falecido aumenta a cada hora que passa, enquanto as chances de identificar os corpos e declarar oficialmente as mortes diminuem.

A palavra mais bonita e esperançosa para nós hoje é solidariedade, porque foi ela que nos permitiu salvar vidas minuto a minuto e ter uma mão amiga para nos amparar enquanto também processamos isto tão difícil, encontramos nossas pessoas queridas, enquanto buscamos abrigo — que é difícil quando tudo desapareceu perto de nós.

E sem sua solidariedade… A solidariedade dos socorristas da Venezuela, do Brasil, de mais de 30 outros países, de nossos vizinhos e também da solidariedade dos desconhecidos, nossos corpos, nossas mentes, na verdade, entrariam em colapso.

Eu quero expressar a minha sincera gratidão pela sua contribuição, pela do seu governo desde o início. De verdade.

Sei que alguns dizem que o Brasil poderia ter feito mais, mais disso que está aqui, da contribuição do presidente Lula e do governo de Manaus, do ministro da Defesa, sim.

Mas sei que alguns dizem também que o Brasil poderia ter feito mais, mas eu estou aqui, eu estou vendo o que vem de cada país, e a sua brigada de resgate é das melhores, especializada.

Vocês enviaram hospitais de campanha que estão próximos às áreas mais afetadas pelos desabamentos. Isso é o mais importante, porque a vida e a morte custam questão de segundos, e poucos ofereceram esse apoio aí, exatamente onde se precisa.

Acreditem em uma coisa: eu não… Vocês agiram de acordo com as circunstâncias que se precisavam nas primeiras horas. E, com o passar dos dias, as necessidades vão mudando. As pessoas têm uma necessidade e, com a hora, é outra, e os recursos não podem ser desperdiçados assim também, impulsivamente.

Portanto, eu não posso criticar, senão apenas expressar minha gratidão porque vocês também disseram que ficarão para as próximas etapas, enquanto eu sei que, em algumas horas, outras… outros países se retirarão e já não vão voltar. Eu sei que o Brasil vai continuar aí conosco e eu agradeço desde o fundo do meu coração.

Meus compatriotas brasileiros e venezuelanos jamais cogitaram desistir, juntos trabalhando aí na terra diretamente, na pior parte da crise, mesmo se existe ou não existe apoio logístico, se existe ou não existe eletricidade, com pouco descanso, cercados também a esta hora pelo cheiro dos cadáveres, que é de terror.

Esta demonstração de amor nos une para sempre.

Eu estou ciente das operações da brigada brasileira por meio do meu compatriota Freddy Meregotte, que está aí com eles dia e noite.

Ele atravessa de moto, como o cavalo de Simón Bolívar, de Caracas para La Guaira, levando suprimentos para quem estiver doente, com fome, sofrendo, sem conseguir sozinho encontrar um socorrista.

Ele consegue fazer isso porque vocês estabeleceram um canal alternativo, sim, de colaboração, que não é o mesmo do governo, que às vezes não chega onde a pessoa que está aí precisando de imediato… e que também é crucial quando uma vítima ainda não está amparada em programa de proteção, não está em um hospital, em um centro de saúde ou de abrigo.

E, assim como vocês, os venezuelanos colaboram além das suas possibilidades, e o apoio de amigos do exterior, na verdade, é um alívio em meio desse caos.

Vocês sabem que aqui também existe uma crise econômica e que as pessoas têm muita dificuldade.

Nós tivemos medo, choramos como crianças, ficamos aliviados ao receber notícias que vocês estão fazendo tudo o que podem para garantir que não estejamos aqui sozinhos.

Tânia Mandarino, amiga liderando os esforços de arrecadação de fundos; a companheira Flávia Rodrigues nos ajudando também…

Uma coisa que é difícil é conectar, transmitir mensagens de socorro quando as comunicações aqui no terreno falham, porque as telefônicas também sofrem pela tragédia. E até mesmo oferecendo apoio emocional que, sem importar da hora do dia, ela está aí.

E vocês, na verdade, têm grandes embaixadores de paz e de união com essa reunião aí, que sabemos que todos, todos estão apoiando-nos.

Sempre nos contam que as pessoas e as organizações trabalham nos bastidores para arrecadar todo esse apoio. Eles não tornam nada disso como algo pessoal. O que nós vivemos aqui é horrível, e um apoio não pode ser de um, dois, três… sabemos que a solidariedade brasileira com a Venezuela é grande.

E falo também que isso que nós vivemos aqui é muito parecido a uma guerra. É doloroso, até o âmago do nosso ser. Não há fim à vista para isto. Todos os dias temos tremores, não conseguimos dormir em paz.

Não mentimos, temos pessoas desaparecidas em massa, mas vocês fazem parte da linha de vida que nos dá energia, nos conforta, nos ajuda a seguir em frente.

Obrigado em nome de toda a Venezuela. Eu não tenho palavras para expressar meu amor e a minha admiração por vocês, meus irmãos e irmãs.

Eu decidi falar aqui em português — desculpa que é muito —, porque o comandante Chávez me pediu uma vez para aprender o idioma, a língua, para que pudéssemos nos aproximar e construir pontes de verdadeira união.

Até a próxima, amigos meus. Por favor, continuem orando por nossos compatriotas desaparecidos, pelos feridos, pelos órfãos também, e por todas as almas que sofrem. A oração tem poder. Obrigada a vocês com todo meu coração.

Flávia Rodrigues: ”Amor com amor se paga”

É impossível começar esta intervenção sem citar o comandante Hugo Chávez: ”Amor com amor se paga”.

Quem não se lembra do envio de oxigênio na pandemia? Homenagear os venezuelanos e venezuelanas que tombaram neste terrível desastre natural é seguir lutando contra os ataques desumanos que esse povo — nosso povo irmão — sofre.

Nenhum país no mundo estaria preparado para um desastre desta magnitude. Mas o povo venezuelano, além de sofrer suas perdas, sofre injúrias e calúnias.

Gostaria de aproveitar este momento para desmentir algumas informações:

O governo da República Bolivariana da Venezuela está nas ruas desde o primeiro momento.

As construções que caíram foram de todos os tipos: casas, apartamentos de luxo, hotéis etc. Logo, não foi negligência do governo por entregar prédios sem estrutura.

A ajuda internacional está sendo muito bem recebida.

A população não foi impedida de ajudar. Existe um credenciamento para triar o tipo de ajuda que cada um pode oferecer. Por exemplo, o Freddy Meregote, que a maioria de vocês conhece, está credenciado como tradutor e atuando junto à equipe da defesa civil brasileira.

Os resgatistas precisam de silêncio para que os cães possam fazer o trabalho. Tanto que no Estado de La Guaira, cuja capital é La Guaira, os motociclistas estão desligando as motos e as empurrando nos locais de resgate.

E é muito importante relembrar e destacar que, no dia 3 de janeiro, não houve traição. A presidenta encarregada, Delcy Rodríguez, é uma mulher honrada, uma bolivariana que está negociando com sequestradores que mantêm há 179 dias, como presos políticos, a deputada Cília Flores e o presidente Nicolás Maduro, dos quais exigimos a imediata libertação.

Não vou me deter ao balanço oficial de dados, pois os companheiros da Embaixada estão mais credenciados para fornecer estas informações. Vou tentar relatar o que tenho acompanhado desde o fim da tarde de 24 de junho, às 18h03 em Caracas, 19h03 em Brasília.

Minha primeira reação foi tentar contato com o Freddy — meu companheiro, meu amigo, meu amor… que estava no estado de Guárico, atingido pelo tremor em menor intensidade.

Após falar com ele e saber que estava em segurança, começou a procura pelos familiares e amigos. De imediato, não consegui falar com minha amiga Libertad Velasco; seu telefone não tinha sinal. E as notícias que chegavam relatavam que a região em que ela estava — El Paraíso — havia sido gravemente atingida.

Na sequência, consegui falar com a mãe dela e soube que Libertad desceu 19 andares, após todos os objetos do apartamento despencarem… caiu a TV, a impressora voou até o colo dela e assim por diante, mas ela e sua mãe estavam vivas. A partir daí, foram dezenas de mensagens, tentativas de ligações e a dor ao acompanhar as imagens.

Às 23h56, recebi uma mensagem do querido Gilberto Carvalho, não só de preocupação, mas de encaminhamentos junto ao Presidente Lula. E essas horas se transformaram em dias de angústia e de trabalho incessante.

Em contato com os gigantes da Revolução Bolivariana — minha irmã deputada Iris Varela, a também gigante deputada Tânia Díaz, meu compatriota bolariano Francisco Torrealba, o deputado Saúl Ortega, as amigas Fravya e Elyn, o amigo Aponte, a querida Fabíola, Dorita, o irmão Rander Peña, minha mais nova amiga Olga, entre tantos mais —, a realidade dura e dolorosa se faz presente. Trata-se de um cenário nunca visto antes.

Por aqui, a rede de amigos e solidariedade se apresentou. Eu e a Tânia Mandarino já choramos muitas vezes juntas e também já tivemos muitas ideias, porque este será um longo processo. Desde sábado, Freddy está em La Guaira. E, gente, é assustador.

Além da ajuda macro enviada pelo governo — e não posso deixar de citar que a postura do Ministro da Defesa ontem foi a que esperávamos para representar o povo brasileiro (não posso deixar de agradecer ao Almirante Góes) —, as demandas emergenciais que chegam são muitas: é alguém que precisa de remédio (inclusive nos hospitais), água, comida, ou que precisa de um esmeril, luvas, óculos…

Resumindo: é gente precisando de gente, de humanidade. E, sem citar nomes, gostaria de agradecer às amigas e amigos que estão auxiliando anonimamente, mas valorosamente.

Para concluir, todos que estão aqui já estão demonstrando sua humanidade. E vamos precisar continuar por muito tempo. Pessoas da Defesa Civil brasileira relataram que nunca viram um povo tão solidário, tão grato e tão dedicado. Quem não está retirando destroços está levando café, levando uma arepa ou entregando um sorriso, mesmo entre lágrimas.

E, se você tem um conhecido, um amigo ou um parente que está na Venezuela, ligue, converse, abrace, mesmo à distância.

Concluo dizendo que o povo de La Guaira tem um jovem governador que se chama Alejandro Terán. Ele está sendo incansável no auxílio ao seu povo, a quem peço uma salva de palmas para que, daqui, ele receba nossas boas energias.

Glória ao bravo povo!

”A SOLIDARIEDADE NÃO SE PEDE, SE DÁ”

O Coletivo Advogadas e Advogados pela Democracia (CAAD) prossegue a campanha para o povo venezuelano “A solidariedade não se pede, se dá”. 

Até ontem, sexta-feira, 3 de julho, tinham sido arrecadados R$ 11.514,94, como mostra abaixo a imagem do extrato.

Para doar, clique aqui.

Chave PIX: [email protected]

Publicação de: Viomundo

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