Gleisi fecha entregas com Pimentel; Moro reúne a direita

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT) e o presidente da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), Alexandre Curi (Republicanos), chegaram a 3 de julho com três vitrines governamentais. Lula apresentou um pacote nacional em Brasília, Gleisi encerrou a agenda paranaense ao lado do prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel (PSD), e Curi reuniu obras, autorizações e ordens de serviço do governo estadual. Em Londrina, Sergio Moro (PL), Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL) ocuparam a mesma noite com um encontro de pré-campanha, sem entrega pública anunciada no material de divulgação.

O dia 3 de julho não encerrou obras nem impediu os governos de continuar prestando serviços. Foi o último dia antes das principais restrições eleitorais. Desde este sábado, 4 de julho, candidatos não podem comparecer a inaugurações de obras públicas, a publicidade institucional fica limitada e as transferências voluntárias da União aos estados e dos estados aos municípios são proibidas, salvo obrigações formalizadas para obras em andamento, emergências e calamidades. O defeso segue até 25 de outubro, data do eventual segundo turno.

Lula não esteve fisicamente no Paraná. Do Palácio do Planalto, conectou-se a cidades de diferentes estados para apresentar entregas em educação, habitação e saúde. O governo federal inaugurou dez novos campi de institutos federais, entregou 1.619 moradias do Minha Casa, Minha Vida, com investimento de R$ 262,9 milhões, e anunciou um pacote de R$ 3,95 bilhões para o Sistema Único de Saúde (SUS), composto por 534 ações.

A dimensão política da cerimônia foi maior que sua presença territorial no Paraná. O Planalto ofereceu a Lula, pré-candidato à reeleição, uma prestação de contas nacional às vésperas do silêncio institucional. A lista, porém, mistura obras concluídas, equipamentos entregues, serviços habilitados e compromissos futuros. A fiscalização eleitoral e controle social terá de separar o que já chegou à população do que ainda depende de licitação, execução física ou repasse financeiro.

No Paraná, Gleisi funcionou como o elo visível entre o pacote de Lula e as administrações municipais. Os registros publicados na reta final mostram a pré-candidata ao Senado em Campo Largo, onde participou de uma cerimônia de entregas e anúncios federais, e em Campina Grande do Sul, onde o Hospital Angelina Caron recebeu um acelerador linear destinado ao tratamento de pacientes com câncer.

A agenda mais politicamente relevante ocorreu no Mercado Municipal de Curitiba. Ao lado de Eduardo Pimentel, Gleisi participou da formalização de um acréscimo anual de R$ 44 milhões no limite de custeio da Média e Alta Complexidade da capital. A Prefeitura estima que o dinheiro permitirá abrir mais de 100 leitos do SUS, destinados à retaguarda de urgências, emergências e cirurgias eletivas. Curitiba possui 3.190 leitos vinculados ao sistema público.

O pacote incluiu ainda a habilitação de dez leitos de cuidados prolongados no Hospital Pequeno Cotolengo, a certificação da Santa Casa de Curitiba como hospital de ensino e o anúncio de uma unidade de terapia intensiva inteligente no Hospital Universitário Evangélico Mackenzie. Não se tratou de um cheque isolado entregue na cerimônia, mas da elevação permanente do teto anual utilizado para financiar atendimentos hospitalares e especializados.

Pimentel resumiu o recado institucional ao afirmar que “quem ganha com essa maturidade política é a cidade”. A frase tem endereço eleitoral. Gleisi disputará uma das duas vagas do Paraná no Senado, enquanto o prefeito integra o grupo estadual liderado pelo governador Ratinho Junior (PSD). O encontro mostrou que a relação administrativa entre Curitiba e o governo Lula pode sobreviver às alianças partidárias nacionais.

A fotografia também recupera a eleição municipal de 2024. Pimentel chegou ao segundo turno com 33,51% dos votos válidos, contra 31,17% de Cristina Graeml, então no Partido da Mulher Brasileira (PMB). Luciano Ducci (PSB), apoiado no primeiro turno por PT, PCdoB, PV e PDT, obteve 19,44%. Parte desse eleitorado progressista migrou para Pimentel no confronto final e ajudou a formar uma barreira eleitoral contra a candidatura de Graeml. Não houve uma coligação formal entre Pimentel e o PT, mas houve uma convergência democrática nas urnas.

Ao receber Gleisi em 3 de julho de 2026, Pimentel reconheceu institucionalmente um campo político que foi importante para sua vitória em 2024. Para Gleisi, aparecer entregando recursos permanentes à maior cidade do Paraná fura a bolha do campo progressista para uma candidatura ao Senado capaz de dialogar com prefeitos, hospitais e administrações de outros partidos.

Curi fechou a janela por outro caminho. Ao lado do governador em exercício Darci Piana, percorreu o interior associando seu nome à estrutura do governo estadual. Em Irati, participou da autorização para licitar o Centro de Inovação e Tecnologia Terra dos Pinheirais, estimado em R$ 68,6 milhões. Em Ponta Grossa, acompanhou mais de R$ 32 milhões destinados à Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e encontrou estudantes do programa Ganhando o Mundo.

Nos Campos Gerais, Curi acompanhou a ordem de serviço para revitalizar a Avenida Nossa Senhora das Brotas, em Piraí do Sul, principal acesso ao santuário local. Em Jaguariaíva, o governo anunciou recursos para pavimentar o parque industrial. Em Ribeirão Claro, o presidente da Alep participou da inauguração da revitalização da Avenida Joaquim Neia de Oliveira. A diferença importa: Irati ainda tem uma licitação pela frente; Piraí do Sul recebeu ordem de serviço; Ribeirão Claro apresentou uma obra concluída.

No desenho oficial do Palácio Iguaçu, Curi ocupa a pré-candidatura ao Senado, enquanto Sandro Alex (PSD) deverá ser confirmado candidato ao governo estadual na convenção de 25 de julho. A alternativa Curi para o governo, porém, não desapareceu completamente. Quando Ratinho Junior escolheu Sandro Alex, em abril, o presidente da Alep declarou que continuava pré-candidato ao Palácio Iguaçu e rejeitou publicamente a condição de “plano B”. Depois, aproximou-se da operação governista em favor de Sandro e passou a organizar sua presença na disputa pelo Senado.

A agenda estadual mostra por que o nome de Curi permanece disponível para diferentes posições. Ele circula entre prefeitos, deputados, universidades e secretarias estaduais, enquanto Sandro Alex ainda tenta transformar o apoio de Ratinho Junior em intenção de voto. Cada ordem de serviço dá a Curi uma fotografia municipal; cada inauguração reforça sua identificação com o governo.

O contraste apareceu em Londrina. Moro, Deltan e Filipe Barros marcaram para as 19 horas desta sexta, 3 de julho, um encontro regional do PL e do Novo no Tsuru Centro de Eventos. Moro foi apresentado como pré-candidato ao governo; Deltan e Filipe, como pré-candidatos ao Senado. A convocação anunciava reunião de lideranças do norte do Paraná e entrevista coletiva, mas não registrava obra, recurso público ou serviço entregue.

Isso não autoriza afirmar que toda a direita paranaense jamais tenha participado de entregas públicas. O recorte documentado de 3 de julho permite uma conclusão mais precisa: enquanto Lula, Gleisi e Curi utilizaram a máquina administrativa para apresentar moradias, recursos hospitalares, equipamentos, obras e autorizações, o trio de Londrina apresentou candidaturas e discursos ideológicos.

Os governos também não recebem um cheque em branco. O eleitor terá de verificar se os leitos foram abertos, se as casas chegaram às famílias, se as licitações produziram obras e se as ordens de serviço saíram do palanque. Ainda assim, a largada oferece duas linguagens eleitorais distintas. De um lado, a disputa pela autoria das entregas. Do outro, um palanque alimentado pela identidade ideológica, pela oposição ao governo Lula e pela memória política da Lava Jato.

Com o início do defeso eleitoral, a propaganda oficial perde espaço. Permanecerão as obras que funcionarem, os recursos que chegarem aos municípios e o discurso de quem atravessou a janela sem uma entrega concreta para mostrar.

Qual agenda pesa mais na decisão do eleitor: a entrega de políticas públicas ou o discurso ideológico? Comente e acompanhe a cobertura das eleições de 2026 no Blog do Esmael.

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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