Polícia faz buscas em empresa ligada a amigo dos Bolsonaro

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A Polícia Civil do Rio de Janeiro cumpriu, nesta quinta-feira (13), 20 mandados de busca e apreensão em sete cidades fluminenses, incluindo a sede da Bravo Construções, empresa ligada ao empresário Renato Araújo, candidato a deputado federal pelo Partido Liberal (PL). A operação investiga suspeitas de fraude em reformas de escolas estaduais, enquanto uma apuração paralela da Polícia Federal e decisões do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) já questionam o modelo de contratação das obras.

Araújo mantém relações políticas e pessoais com a família Bolsonaro. Ele é conhecido pelo nome político “Renato Araújo do Bolsonaro” e recebeu apoio público de Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro durante a campanha pela Prefeitura de Angra dos Reis, em 2024. Atualmente, disputa uma vaga na Câmara dos Deputados pelo PL.

A conexão com o clã Bolsonaro também aparece em documentos e episódios anteriores. Araújo supervisionou, em 2023, a reforma da casa de Jair Bolsonaro na Vila Histórica de Mambucaba, em Angra dos Reis. Ele também esteve entre as pessoas que solicitaram autorização ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para visitar o ex-presidente na Papudinha.

A busca desta quinta-feira

Os mandados foram cumpridos no Rio de Janeiro, Maricá, Campos dos Goytacazes, Cabo Frio, São Gonçalo, Mangaratiba e Angra dos Reis. A Bravo Construções tem sede em Angra, município onde Araújo construiu sua carreira empresarial e política.

A investigação da Polícia Civil mira suspeitas de irregularidades em reformas de escolas estaduais. Segundo a apuração divulgada nesta quinta-feira, a construtora vinculada a Araújo firmou contratos para executar parte dessas obras.

A operação não significa, por si só, que Araújo ou a empresa tenham cometido crime. A busca e apreensão é uma medida de investigação destinada à coleta de documentos, equipamentos e outros elementos que possam esclarecer os fatos.

R$ 16,2 milhões em 15 escolas

O caso ganhou dimensão antes da operação policial. Em maio, veio à tona que a Bravo Construções foi escolhida em 2025 para reformar 15 unidades escolares estaduais, em contratos que somavam R$ 16,2 milhões. A empresa está formalmente em nome de Tainá Nóbrega de Souza, mulher de Araújo, mas o empresário havia integrado o quadro societário e aparece como diretor-geral em documentos apresentados à Secretaria de Estado de Educação.

Até 2023, a Bravo não tinha contratos com o governo fluminense. Naquele ano, primeiro do segundo mandato de Cláudio Castro (PL), assumiu duas obras, posteriormente rescindidas antes da conclusão. Em 2025, passou a executar as 15 reformas escolares.

O ponto investigado não é apenas a escolha da empresa. A forma utilizada pelo governo para contratar as reformas também está sob questionamento.

O modelo das Associações de Apoio à Escola

O TCE-RJ identificou que a Secretaria de Estado de Educação passou a utilizar as Associações de Apoio à Escola (AAEs), criadas para agilizar pequenos reparos emergenciais, em intervenções de maior porte.

Nesse modelo, as associações recebem recursos públicos e fazem contratações sem o processo licitatório convencional, mediante cotação de preços. Os acordos não são publicados no Diário Oficial nem aparecem na relação de fornecedores do Portal da Transparência, segundo a apuração divulgada em maio.

Em representação apresentada ao TCE-RJ, o deputado estadual Flávio Serafini (PSOL) apontou, entre outros casos, uma reforma no Colégio Estadual Antônio da Silva, cujo valor contratado chegou a R$ 2,22 milhões. O documento atribui a execução da obra à Bravo Construções e Serviços Ltda.

O tribunal apontou indícios de que o mecanismo destinado a pequenos reparos estaria sendo utilizado para obras de maior vulto. Em abril, determinou a suspensão de pagamentos às empresas envolvidas.

Onde entra a Polícia Federal

A Polícia Federal investiga uma frente relacionada às mesmas contratações. O inquérito mira o ex-deputado Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, e apura a possibilidade de que o sistema de contratação pelas AAEs tenha permitido maior controle político sobre as empresas escolhidas para executar as obras.

A investigação também apura possível repasse de valores das empresas para Bacellar. O ex-deputado tinha influência sobre nomeações na Secretaria de Educação, segundo a apuração jornalística, e o caso levou à prisão do deputado estadual Thiago Rangel (Avante).

Isso é diferente da operação realizada nesta quinta-feira. Quem cumpriu os mandados contra a Bravo foi a Polícia Civil do Rio de Janeiro. A Polícia Federal conduz uma investigação própria sobre o contexto das contratações.

A distinção é importante porque evita atribuir à PF uma diligência que, segundo as informações disponíveis, foi executada pela Polícia Civil.

O vínculo de Renato Araújo com a família Bolsonaro não se resume ao uso do sobrenome político.

Além de ter participado da campanha de Jair e Flávio Bolsonaro em Angra dos Reis, Araújo foi apontado pelo ex-presidente como possível candidato a vice na chapa de Rodrigo Bacellar para o governo do Rio, quando o grupo político de Bolsonaro apoiava a candidatura. A composição não avançou depois da prisão de Bacellar pela PF, no fim de 2025.

Há também um registro empresarial e político relevante: Araújo supervisionou a reforma da residência de Jair Bolsonaro em Mambucaba, em 2023.

Ao mesmo tempo, a própria Bravo Construções nega relação empresarial com a família Bolsonaro. Em nota divulgada em maio, a empresa afirmou que os contratos com as AAEs decorreram de procedimentos que considera regulares e declarou que a família Bolsonaro “jamais teve qualquer tipo de relação com a empresa”.

A empresa também sustentou que atua no setor há mais de 15 anos, que já tinha experiência em obras públicas antes de qualquer aproximação política e que executou 90% dos 15 contratos escolares, com aprovação de diretores e coordenadores regionais.

O que a investigação precisa esclarecer

O foco da apuração é determinar se houve fraude na contratação das reformas, se o modelo das AAEs foi utilizado para contornar as regras de licitação e se houve favorecimento de empresas específicas.

No caso da Bravo, a investigação também terá de esclarecer a participação efetiva de Renato Araújo nos contratos, já que a empresa está atualmente registrada em nome de sua mulher, embora ele tenha sido sócio e apareça como diretor-geral em documentos relacionados às obras.

Também será necessário verificar quanto dos R$ 16,2 milhões contratados foi efetivamente pago à construtora e se os serviços correspondem ao que foi contratado. A apuração jornalística publicada em maio registrou que não era possível determinar, naquele momento, quanto a empresa havia efetivamente recebido.

Até que esses pontos sejam esclarecidos, a existência de contratos sob investigação não permite concluir que houve desvio de dinheiro ou participação criminosa da empresa.

O caso, porém, ganha dimensão política porque a operação atinge um empresário que mantém vínculos públicos com a família Bolsonaro e que está em campanha eleitoral pelo PL.

A investigação agora entra em uma fase em que documentos, contratos, pagamentos e eventuais comunicações apreendidas poderão mostrar se a relação política teve ou não alguma conexão com a contratação das obras.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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