Por Jeferson Miola, em seu blog
Criou-se um clima de suspense prévio em torno da pesquisa Datafolha divulgada no último sábado, 11 de abril, com uma expectativa antecipada de que traria novidades bombásticas para a reeleição do presidente Lula.
Os resultados não animam o governo, por óbvio. Porém, os números nem de longe justificam a animação de setores anti-Lula que usam pesquisas para a prática de terrorismo eleitoral e pânico político.
Nesta mesma época de 2022, no mês de março daquele ano, o mesmo instituto Datafolha publicou pesquisa na qual 48% das pessoas reprovavam o governo Bolsonaro e apenas 25% aprovavam. No entanto, em outubro, Bolsonaro perdeu por apenas 1,8% de diferença.
Seria ignorância contraproducente se desprezar os indicadores preocupantes das pesquisas de opinião em relação ao governo, que estão significativamente abaixo do esperável diante de tantas realizações deste terceiro mandato do presidente Lula.
O desempenho exitoso na economia, com a mais baixa inflação num mandato presidencial, combinado com os menores níveis de desemprego da história e o crescimento real da renda do trabalho, seriam fatores suficientes para catapultar os índices de aprovação do governo.
Além disso, o governo Lula reconstruiu as políticas de Estado de todas as áreas duramente alvejadas pela destruição devastadora do governo fascista-militar com Bolsonaro –SUS, institutos federais, universidades, educação, assistência social, transferências de renda, instrumentos de crédito e de geração de emprego e renda e outras.
Até a primeira década e a metade da segunda deste século, um governo com o padrão de investimentos, obras e realizações como esse do Lula 3 obteria níveis altíssimos de aprovação.
Em 2010, por exemplo, Lula elegeu como sucessora Dilma e terminou seu segundo mandato com 87% de aprovação popular.
É evidente que existem hoje, no mundo inteiro, fatores estruturais que limitam a aprovação de governos, todos eles, a despeito dos seus desempenhos efetivos, e dos efeitos concretos das suas políticas na vida das pessoas.
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Há uma correlação direta desse fenômeno com a colonização preponderante das redes sociais e plataformas digitais pelas vozes de extrema-direita, fascistas e autodeclaradas “antissistema”.
Essas forças políticas polarizam o debate público de modo apelativo e se apresentam como alternativas populistas e salvacionistas à crise do neoliberalismo, que durante as últimas décadas descumpriu todas suas promessas [irrealizáveis] de uma vida próspera e de oportunidades para as pessoas no marco do capitalismo ultra-financeirizado.
Na realidade brasileira existe, ainda, um aspecto estrutural, que no curso dos últimos anos se tornou fonte de um mal-estar difuso: o Brasil é um país rico, está dentre as dez maiores economias mundiais, mas tem uma apropriação de renda obscenamente concentrada e brutalmente desigual.
Essa realidade, derivada do modelo escravocrata, rentista e agroexportador dominante, gera um país com um povo pobre, em que mais de 80% da população sobrevive com até dois salários mínimos, o que é insuficiente para uma vida com um mínimo de dignidade para uma família de quatro pessoas.
O fenômeno do endividamento, que requer respostas urgentes do governo, se inscreve neste contexto, e é exponenciado pelo cassino das apostas, que precisa ser imediatamente banido no país.
A eleição municipal de 2024 evidenciou o descolamento de parte do eleitorado que conforma a base eleitoral lulista e petista –pessoas com rendimentos de até dois salários mínimos e menor escolaridade– e seu deslocamento para candidaturas oposicionistas, em especial as identificadas com o bolsonarismo.
As pesquisas vêm mostrando que essa dinâmica eleitoral persiste, e isso cobra do governo respostas imediatas para atenuar, antes da eleição de outubro, o mal-estar com uma vida em muitos casos invivível das imensas maiorias sociais. É fundamental, neste sentido, enfrentar o endividamento e aumentar a capacidade de compra do salário.
Mais além disso, a campanha Lula 4 também precisa sinalizar novas esperanças e novas místicas para o povo brasileiro.
Precisa sinalizar como horizonte do próximo governo um conjunto de mudanças redistributivas e de igualdade social, como por exemplo um programa incremental, a ser materializado nos próximos anos, de garantia do salário mínimo de R$ 7.425,99 definido pelo DIEESE para cobrir despesas básicas de uma família de quatro pessoas.
Publicação de: Viomundo
