Antonio de Azevedo: Sinais de Terceira Guerra Mundial
Por Antonio Sergio Neves de Azevedo*
A escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã representa um dos momentos mais delicados da geopolítica contemporânea. O conflito ultrapassa a dimensão de uma disputa regional e começa a assumir contornos sistêmicos, com potencial de afetar diretamente a estabilidade da ordem internacional.
Em um mundo já marcado por tensões entre grandes potências, crises energéticas e disputas tecnológicas, a confrontação militar no Golfo Pérsico pode transformar-se no catalisador de uma crise global de proporções históricas.
Ainda assim, é fundamental distinguir entre uma escalada regional grave e um conflito mundial generalizado, cenários que possuem dinâmicas e implicações bastante distintas.
A atual escalada possui raízes históricas profundas. Desde a Revolução Iraniana de 1979, que transformou radicalmente o sistema político iraniano e redefiniu sua relação com o Ocidente, as relações entre o Irã e o bloco ocidental permanecem marcadas por desconfiança estratégica e antagonismo político.
Israel considera o programa nuclear iraniano uma ameaça existencial, enquanto Teerã interpreta a aliança militar entre Washington e Tel Aviv como parte de uma estratégia permanente de contenção e possível mudança de regime.
Esse ambiente de rivalidade permanente configura aquilo que os teóricos das Relações Internacionais denominam dilema de segurança, quando um Estado busca aumentar sua própria segurança por meio do fortalecimento militar, acaba gerando maior insegurança para seus adversários, alimentando um ciclo contínuo de militarização e desconfiança.
É importante observar que o Irã não é uma potência nuclear militar declarada.
O país é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear e sustenta que seu programa atômico possui finalidade exclusivamente pacífica, voltada principalmente para a produção de energia e pesquisa científica. Ainda que existam suspeitas e controvérsias internacionais sobre a extensão real desse programa, a ausência de armas nucleares operacionais constitui um elemento relevante para avaliar o risco de escalada estratégica.
Nos últimos anos, e de forma particularmente intensa durante a chamada “guerra de 12 dias”, ataques a instalações estratégicas, assassinatos seletivos de comandantes militares e cientistas ligados ao programa nuclear iraniano, operações cibernéticas e ações indiretas por meio de aliados regionais passaram a integrar a lógica da confrontação. Essas operações procuraram enfraquecer capacidades militares e tecnológicas do adversário sem necessariamente desencadear uma guerra convencional de larga escala.
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O Oriente Médio transformou-se, assim, em um complexo tabuleiro de guerra indireta, no qual diferentes potências buscam ampliar sua influência sem declarar formalmente um conflito aberto.
Um dos principais fatores de risco para a estabilidade global reside na dimensão energética do conflito.
O Golfo Pérsico concentra algumas das principais rotas de transporte de petróleo do planeta, especialmente o Estreito de Ormuz, por onde passa aproximadamente um quinto de todo o petróleo consumido no mundo.
Qualquer interrupção significativa nesse fluxo pode provocar efeitos imediatos na economia global, como a elevação abrupta dos preços da energia, pressão inflacionária generalizada e o potencial desencadeamento de novas crises financeiras em economias já fragilizadas.
Historicamente, disputas envolvendo recursos energéticos desempenharam papel central em conflitos internacionais, e o cenário atual não foge a essa lógica.
A guerra contemporânea também assume características híbridas. Além das operações militares convencionais, multiplicam-se ataques cibernéticos contra infraestruturas energéticas, financeiras e de comunicação.
O ciberespaço tornou-se um novo campo de batalha, permitindo que Estados projetem poder estratégico sem necessariamente cruzar o limiar de uma guerra declarada.
Paralelamente, novas tecnologias militares, como drones autônomos, mísseis de longo alcance e sistemas avançados de guerra eletrônica, reduzem drasticamente o tempo de resposta estratégica e aumentam o risco de erros de cálculo em situações de alta tensão.
Do ponto de vista do Direito Internacional, o cenário revela uma crise preocupante das instituições multilaterais criadas após a Segunda Guerra Mundial, especialmente da Organização das Nações Unidas.
O sistema jurídico internacional foi construído com base no princípio da proibição do uso da força nas relações entre os Estados, salvo em casos de legítima defesa ou autorização do Conselho de Segurança.
Entretanto, a prática recente demonstra que as grandes potências continuam frequentemente a agir segundo a lógica clássica do poder e do interesse estratégico.
Isso não significa, contudo, que todos os mecanismos de contenção tenham desaparecido. Canais diplomáticos informais, negociações indiretas e a própria interdependência econômica entre as grandes potências continuam exercendo um papel moderador importante, mesmo em momentos de forte tensão geopolítica.
O verdadeiro risco da atual escalada não reside apenas na confrontação entre três países. O perigo maior está no possível efeito dominó geopolítico. Conflitos regionais podem rapidamente atrair outras potências globais, seja por alianças militares, interesses estratégicos ou disputas econômicas.
Nesse contexto, o posicionamento de atores como China e Rússia torna-se uma variável crítica para o equilíbrio do sistema internacional.
Durante a Guerra Fria, o mundo viveu sob o chamado equilíbrio do terror nuclear. A possibilidade de destruição mútua assegurada funcionou como um poderoso mecanismo de contenção entre as superpotências.
Hoje, a existência de arsenais nucleares nas mãos de potências como Estados Unidos, Rússia e China ainda opera segundo lógica semelhante, o que representa um fator importante de moderação estratégica, frequentemente subestimado nas análises mais alarmistas.
Contudo, o sistema internacional atual apresenta características mais fragmentadas do que o cenário bipolar da Guerra Fria. A proliferação de atores não estatais, a velocidade das novas tecnologias militares e a erosão gradual dos regimes internacionais de controle de armamentos criam um ambiente estratégico mais complexo e menos previsível.
A história demonstra que grandes guerras raramente começam de forma abrupta. Elas surgem gradualmente, a partir de sucessivas crises, escaladas militares e falhas diplomáticas. Muitas vezes, quando o perigo se torna plenamente evidente, o sistema internacional já está preso em uma dinâmica difícil de interromper.
Se a diplomacia internacional não conseguir conter a atual escalada e restaurar mecanismos mínimos de confiança entre as potências, a humanidade poderá estar atravessando um momento de risco histórico elevado. A diferença é que, no século XXI, os instrumentos de destruição disponíveis são incomparavelmente mais poderosos do que aqueles que existiam nas grandes guerras do passado.
A questão central, portanto, não é apenas se uma nova guerra mundial é possível, mas se as instituições internacionais, os líderes políticos e as sociedades contemporâneas ainda possuem capacidade de reconhecer os sinais de perigo antes que eles se tornem irreversíveis. A resposta a essa pergunta permanece em aberto, e dela pode depender o futuro da própria humanidade.
*Antonio Sergio Neves de Azevedo, doutorando em Direito, Curitiba-PR.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
Publicação de: Viomundo
