O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo-MG), pré-candidato à Presidência, defendeu mudar as regras sobre trabalho infantil no Brasil em entrevista exibida na sexta-feira (1º), Dia do Trabalhador, e abriu um flanco eleitoral no momento em que a esquerda tenta empurrar o debate nacional para a redução da jornada.
A fala foi feita no podcast Inteligência Limitada. Zema disse que começou a trabalhar cedo, citou atividades feitas quando criança na loja do pai e afirmou que “a esquerda criou” a ideia de que trabalhar prejudica criança.
Depois da repercussão, o pré-candidato tentou puxar a fala para o terreno da aprendizagem. Em publicação no sábado (2), afirmou que o Brasil já permite trabalho a partir dos 14 anos como aprendiz e disse defender “ampliar oportunidades” para jovens que queiram começar cedo.
O problema político de Zema é simples: a exceção que ele tentou usar como escudo já existe.
No Brasil, a idade mínima para o trabalho é de 16 anos. A exceção é o contrato de aprendizagem a partir dos 14 anos. Trabalho noturno, perigoso ou insalubre é proibido para menores de 18 anos. Essa regra está ancorada na Constituição e foi resumida pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) em manual de combate ao trabalho infantil.
Ou seja, a disputa real não é entre “oportunidade” e “proibição”. O debate é sobre proteção.
Zema falou como candidato de direita que quer disputar o eleitorado antipetista, mas entregou à esquerda um contraste raro: de um lado, a pauta do fim da escala 6×1; do outro, a relativização de regras que protegem crianças e adolescentes pobres da exploração precoce.
A Câmara dos Deputados instalou, na quarta-feira (29), a comissão especial que vai analisar propostas sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada. O relator é Leo Prates (BA), indicado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
A frase de Zema caiu nesse ambiente.
Enquanto a agenda trabalhista discute mais tempo para o trabalhador descansar, cuidar da família e viver, o pré-candidato do Novo recolocou no centro da eleição uma pergunta incômoda: que país a direita quer vender em 2026?
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou 1,650 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil em 2024. O número representa 4,3% dessa faixa etária. Entre esses jovens, a frequência escolar era de 88,8%, contra 97,5% no total da população de 5 a 17 anos.
Esse dado desmonta a fantasia do “trabalhinho que forma caráter” quando vira política pública.
O trabalho protegido do adolescente existe. A exploração infantil também existe. Misturar uma coisa com a outra é conveniente para quem quer falar em mérito sem olhar para renda, escola, informalidade e desigualdade.
A reação veio rápido. Governistas criticaram Zema no sábado (2). O ministro Guilherme Boulos (PSOL-SP) atacou a fala, e deputados do Partido dos Trabalhadores (PT), como Rogério Correia (PT-MG) e Lindbergh Farias (PT-RJ), associaram a declaração a retrocesso social.
O flanco está aberto porque Zema tentou transformar lembrança pessoal em programa de país.
Uma criança ajudando o pai em um relato familiar não autoriza um candidato à Presidência a mexer em regra nacional sem explicar quem fiscaliza, quem lucra, quem perde escola e quem empurra adolescente pobre para a informalidade.
A eleição de 2026 ganhou mais uma linha divisória.
Lula e a esquerda querem falar de jornada menor. Zema entregou uma pauta mais dura para o próprio campo: até onde a direita pretende ir quando chama exploração de oportunidade?
Zema tentou corrigir a fala, mas a marca ficou. Em ano eleitoral, defender mudança em regra de trabalho infantil não é escorregão verbal; é uma janela para o modelo de país que cada candidatura carrega.
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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
