A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quinta-feira, 16 de julho, mostra que 51% dos brasileiros concordam mais com a versão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a responsabilidade de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no tarifaço dos Estados Unidos. A explicação apresentada pelo senador recebeu 30%, uma diferença de 21 pontos percentuais.
O levantamento ouviu presencialmente 2.004 brasileiros com 16 anos ou mais, em 120 municípios, entre 10 e 13 de julho, antes da oficilialização do tarifaço pelo governo Donald Trump. A margem de erro nacional é de dois pontos percentuais, o nível de confiança é de 95% e o registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem o número BR-07181/2026.
A formulação da pergunta exige cuidado. A Quaest apresentou aos entrevistados a seguinte afirmação: “Lula acusa Flávio Bolsonaro de ter pedido o tarifaço contra o Brasil. Flávio nega e diz que pediu a Trump para não taxar o país.” Depois, perguntou com quem o eleitor concordava mais.
O resultado mede, portanto, a adesão a duas versões políticas concorrentes. Ele não comprova que Flávio Bolsonaro pediu a tarifa, nem determina sozinho a responsabilidade pela decisão do governo americano.
Mesmo com essa ressalva, a evolução da pesquisa mostra uma derrota política do senador na disputa de narrativas. Em junho, 47% concordavam mais com Lula e 35% com Flávio Bolsonaro. A distância, que era de 12 pontos, aumentou para 21 pontos em julho.
O dado também foi coletado antes da decisão final do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). As entrevistas terminaram em 13 de julho, enquanto a tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros foi oficializada em 15 de julho, com aplicação prevista para 22 de julho. A pesquisa captou a reação às tarifas anunciadas e à disputa política anterior à publicação da lista definitiva.
A apresentação pública não oferece o recorte da pergunta principal por região Sul, sexo, renda, escolaridade, avaliação do governo ou intenção de voto. O relatório informa que a margem de erro máxima estimada para o Sul é de seis pontos, mas não publica como os entrevistados da região responderam à disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Isso impede afirmar, com base no documento divulgado, que a responsabilização de Flávio Bolsonaro avançou especificamente entre paranaenses, mulheres, eleitores de determinada renda ou pessoas que desaprovam Lula. Qualquer conclusão desse tipo dependeria de tabelas cruzadas que não aparecem na apresentação pública.
O relatório traz um recorte político para outra pergunta. A Quaest contrapôs a versão de Lula de que as tarifas seriam uma retaliação ao Pix à afirmação de Flávio Bolsonaro de que a medida decorreria de declarações do presidente brasileiro contra os Estados Unidos.
Entre os eleitores independentes, 44% concordaram mais com a explicação atribuída a Lula, enquanto 24% ficaram com a versão de Flávio Bolsonaro. Outros 17% não concordaram com nenhum dos dois e 15% não souberam responder. A margem de erro informada para esse segmento é de quatro pontos percentuais.
Esse resultado é eleitoralmente relevante porque ultrapassa os grupos já alinhados com o governo ou com o bolsonarismo. Ele mostra que a explicação defendida por Lula alcançou uma parcela maior do eleitorado sem identificação automática com os dois polos.
A vantagem, porém, não representa transferência integral de votos para o presidente. Quando a Quaest perguntou de quem o eleitor se aproximava eleitoralmente em razão do novo aumento das tarifas, 42% responderam Lula, 27% Flávio Bolsonaro, 23% outro nome e 8% não souberam responder. Em junho, os percentuais eram 39%, 30%, 23% e 8%, respectivamente.
Entre os independentes, 38% disseram se aproximar de outro candidato, 33% de Lula e apenas 13% de Flávio Bolsonaro. Outros 16% não responderam. O dado sugere que o tarifaço desgasta mais diretamente o senador do que converte automaticamente todos os eleitores descontentes em votos para Lula.
A preocupação econômica também cresceu. A parcela que acredita que as tarifas prejudicarão a própria vida ou a família passou de 55% para 63%. Ao mesmo tempo, 58% disseram que Flávio Bolsonaro não tem força para convencer Donald Trump e o governo americano a recuar.
Na mesma rodada eleitoral, Lula apareceu com 40% no primeiro turno, diante de 28% de Flávio Bolsonaro. Em uma simulação de segundo turno, o presidente registrou 45%, contra 37% do senador. A pesquisa não permite atribuir toda essa diferença ao tarifaço, mas mostra que o tema passou a operar dentro de uma disputa na qual Lula ampliou sua vantagem.
O retrato da Quaest responde à pergunta central: na guerra das versões sobre as tarifas de Trump, Flávio Bolsonaro perde terreno. Lula consegue associar o conflito à soberania nacional e alcança eleitores independentes, enquanto o senador ainda tenta romper a ligação política entre sua família e o governo americano.
A nova etapa será medir a reação posterior à tarifa oficial de 25%. Como o trabalho de campo terminou antes da decisão final do USTR, outra pesquisa será necessária para saber se a lista de produtos atingidos consolidou essa percepção ou alterou o julgamento dos eleitores.
Acompanhe no Blog do Esmael a cobertura das eleições de 2026 e da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos.
Leia também:

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.
Publicação de: Blog do Esmael
