Privatizada por Ratinho, Copel quer tarifa até 50% mais cara

O líder da Oposição na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), deputado Arilson Chiorato (PT), denunciou esta semana que a conta da privatização da Companhia Paranaense de Energia (Copel) começou a cair no colo dos paranaenses. A proposta de Revisão Tarifária Periódica de 2026 da Copel Distribuição (Copel-Dis), em análise na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), prevê efeito médio de 19,20% nas tarifas, com 19,15% para a classe residencial e aumentos que passam de 50% em faixas da alta tensão.

Os números oficiais são pesados. A nota técnica da Aneel mostra 19,55% de alta média para consumidores da alta tensão e 19,03% para a baixa tensão. No detalhamento por subgrupo, a paulada chega a 51,21% no A2, faixa que atende parte de grandes consumidores industriais, e a 45,24% no A3. No residencial, o índice projetado é de 19,15%.

“O povo está a ver navios com um governo que privatiza empresas importantes e com acionistas que estão preocupados só com o próprio lucro”, lamentou o deputado Requião Filho (PDT), pré-candidato ao governo do Paraná.

A revisão atinge um mercado enorme. A própria nota técnica informa que a Copel-Dis atende cerca de 5,23 milhões de unidades consumidoras e que a nova revisão tem data-base em terça-feira, 24 de junho de 2026. Ou seja, não se trata de um ajuste lateral. É uma mudança com efeito direto sobre a casa, a lavoura, o comércio e a indústria do Paraná.

O documento da Aneel ajuda a entender de onde vem a pressão. O efeito médio de 19,20% resulta da recomposição dos custos reconhecidos na tarifa, com impacto de 10,34%, da retirada de componentes financeiros do ciclo anterior, que adiciona 9,96%, e da inclusão de componentes financeiros do processo atual, que reduz 1,11%. Em português claro, a conta sobe não só pelo custo da energia em si, mas também pela forma como o sistema regulatório recalcula despesas e empurra acertos acumulados para a tarifa.

Arilson tenta ligar esse tarifaço à mudança de modelo após a privatização. Segundo o deputado, mesmo com queda de cerca de 1% no custo da energia entre 2025 e 2026, a proposta apresentada para a tarifa residencial gira em torno de 19%, enquanto alguns segmentos, como grandes indústrias, mineradoras e centros comerciais, podem ultrapassar 50%. Ele também sustenta que a remuneração do capital, isto é, o ganho reconhecido sobre os investimentos da empresa, avançou mais de 70% e virou um dos motores da pressão sobre a conta de luz.

O ataque político vai no centro do discurso usado para vender a desestatização. Arilson afirma que a Copel deixou de priorizar o interesse público e passou a operar com foco em lucro e dividendos para acionistas. Também diz que já aparecem reclamações sobre piora no atendimento, demora na religação e redução de equipes, enquanto o governo Ratinho Júnior (PSD) não apresenta resposta concreta para a população.

A Copel, por sua vez, tenta dividir a responsabilidade com Brasília e com a regulação federal. Em nota divulgada na quinta-feira (16), a empresa disse que o índice de 19,2% foi apurado pela Aneel e ainda depende de homologação. A companhia afirmou ainda que o impacto inicial apontado pela agência rondava 26% e que pediu o diferimento máximo permitido, uma espécie de adiamento regulatório de parte da cobrança, para suavizar a pancada imediata sobre o consumidor.

A defesa da empresa segue a mesma linha: de cada R$ 10 pagos na fatura, cerca de R$ 2 remunerariam diretamente a Copel, enquanto o restante iria para compra e transmissão de energia, encargos setoriais e subsídios definidos pelo governo federal. A companhia também sustenta que, mesmo com o reajuste, o Paraná continuaria entre as três menores tarifas residenciais do país, em torno de R$ 0,76 por quilowatt-hora.

Mas o problema político não desaparece com a nota. A privatização da Copel foi concluída em agosto de 2023, depois que o Tribunal de Contas da União liberou a operação e a oferta de ações levantou cerca de R$ 5,2 bilhões, reduzindo o controle do Estado sobre a companhia. Agora, quase três anos depois, o governo que vendeu a empresa enfrenta a cobrança mais sensível de todas: a que chega impressa na conta de luz.

Ratinho Júnior vendeu a privatização como modernização. A proposta tarifária em debate entrega outra imagem: reajuste de quase 20% para a casa do consumidor, alta acima de 50% para parte do setor produtivo e um debate público dominado por planilhas que poucos entendem, mas que todos vão pagar.

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Deputados Arilson Chiorato e Requião Filho criticam o tarifaço da Copel, privatizada por Ratinho Júnior. Foto: Valdir Amaral/Alep

Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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