Plano Safra leva Lula ao terreno do agro no Paraná

O governo Lula lançou nesta terça-feira (30/6) o Plano Safra 2026/27 da agricultura empresarial com R$ 525,1 bilhões em crédito rural, e o número desloca a disputa política no Paraná para uma pergunta concreta: quem tem proposta para baratear a produção de comida e quem trata o agro apenas como cenário eleitoral.

O pacote anunciado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) prevê R$ 384,9 bilhões para custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões para investimentos. O dinheiro financia insumos, lavouras, rebanhos, armazenagem, irrigação, máquinas, tecnologia e modernização produtiva.

As taxas do Plano Safra empresarial ficam entre 8% e 12,5% ao ano, com redução de até 1,5 ponto percentual em relação ao ciclo anterior. O corte dos juros não resolve sozinho o custo de produção, mas mexe no coração da conta do produtor: crédito, risco, armazenagem, safra, frete e preço final dos alimentos.

No Paraná, esse debate não cabe em fotografia de feira agropecuária. O estado tem cooperativas, soja, milho, frango, leite, suínos, agroindústria, logística portuária e agricultura familiar no mesmo tabuleiro econômico. Quando o crédito encarece, o efeito aparece na propriedade, na cooperativa, no caminhão, no supermercado e na urna.

Os dados preliminares do Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab), mostram que o Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária do Paraná saltou de R$ 98 bilhões em 2019 para R$ 212,6 bilhões em 2025, alta nominal de 117%.

A pecuária respondeu por 53% do VBP estadual em 2025, com destaque para frango de corte, leite, bovinocultura de corte e recria para engorda. A agricultura chegou a R$ 91,2 bilhões, puxada por soja, milho e trigo; só a soja respondeu por R$ 42,3 bilhões.

É por isso que o Plano Safra entra no quintal eleitoral do Paraná. O Oeste, o Sudoeste e os Campos Gerais não votam apenas por identidade ideológica. Votam também sob a memória do preço do diesel, do juro bancário, da quebra de safra, do seguro rural, da fila do armazém, do custo da ração e da renda que sobra depois da colheita.

A disputa de 2026 precisa ser medida por régua verificável. Sandro Alex (PSD), Sergio Moro (PL), Requião Filho (PDT), Gleisi Hoffmann (PT), Alexandre Curi (Republicanos) e Alvaro Dias (MDB) não podem atravessar o calendário eleitoral apenas com aceno ao produtor. O eleitor rural, o cooperado, o caminhoneiro, o trabalhador de frigorífico e o consumidor urbano têm direito de saber quem defende crédito mais barato, seguro rural mais eficiente, armazenagem, logística e política de abastecimento.

O governo Lula tenta ocupar esse espaço com dinheiro, juros e política agrícola. A oposição paranaense, por sua vez, terá de responder se critica o governo federal e, ao mesmo tempo, defende os instrumentos públicos que financiam a safra. Essa contradição não é retórica. Ela aparece quando o produtor precisa contratar custeio, renovar máquina, renegociar dívida ou proteger a lavoura contra clima e mercado.

O anúncio também separa discurso de interesse econômico. O Plano Safra empresarial não é a totalidade da política rural. A agricultura familiar, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), a compra pública e a assistência técnica seguem como outro eixo decisivo para comida barata, renda local e permanência das famílias no campo. No Paraná, as duas agendas se cruzam no município, na cooperativa, no mercado regional e na mesa do consumidor.

O ponto político está aí. Não basta dizer que o agro é forte. É preciso dizer quem paga o juro, quem assume o risco, quem ganha com a armazenagem, quem perde com frete caro, quem protege o pequeno produtor e quem só aparece quando há câmera, boné e comitiva.

Para Lula, o Plano Safra é uma entrada direta no território onde a direita tenta falar sozinha há anos. Para os adversários no Paraná, a resposta terá de sair do slogan e entrar na planilha. Crédito rural, preço da comida e renda no campo são temas econômicos, mas em 2026 serão também perguntas eleitorais.

O eleitor paranaense não precisa escolher entre produzir e comer barato. Precisa exigir que os candidatos expliquem como pretendem financiar a produção, reduzir custo, proteger renda, garantir abastecimento e impedir que o agro vire apenas figurino de campanha.

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Jornalista e Advogado. Especialista em política nacional e bastidores do poder. Desde 2009 é autor do Blog do Esmael.  

Publicação de: Blog do Esmael

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