Oliver Stuenkel: Guinada à direita na América Latina pode ser mais frágil do que parece

Dificuldades de Kast, Milei, Noboa e Paz ilustram por que o ciclo conservador pode não durar tanto quanto se esperava

Por Oliver Stuenkel*, no Estadão

A onda conservadora que varreu a América Latina nas eleições de 2025 — simbolizada pela derrota da esquerda na Bolívia e pelos triunfos de líderes conservadores no Equador, Chile, Argentina e Honduras — tem sido interpretada, por numerosos analistas, não como mais um capítulo de um pêndulo político movido por insatisfação econômica e rejeição aos governantes, mas como um reordenamento ideológico mais duradouro.

Essa transição seria movida por uma preocupação crescente do eleitorado latino-americano com a segurança pública, o crescimento da população evangélica e a volta de Trump à Casa Branca, entre outros fatores. Vários apostavam, portanto, em uma consolidação da tendência em 2026, nas eleições no Peru, na Colômbia e no Brasil.

Porém, os eventos das últimas semanas sugerem que um domínio da direita por vários ciclos eleitorais é pouco provável. De fato, a maioria das novas lideranças conservadoras já enfrenta sinais de desgaste político, e o resultado dos três pleitos deste ano está longe de ser previsível.

Na Argentina, o governo de Javier Milei enfrenta turbulências próprias: os custos sociais das reformas econômicas, escândalos envolvendo figuras-chave da administração e, mais recentemente, denúncias de corrupção que levaram o Parlamento a convocar o chefe de gabinete.

No Chile, José Antonio Kast, que assumiu a presidência em março de 2026, viu sua aprovação desabar em questão de semanas — uma das quedas mais acentuadas de qualquer presidente chileno em período equivalente na história recente das pesquisas.

Na Bolívia, Rodrigo Paz, empossado há apenas seis meses, já enfrenta protestos e confrontos violentos no país após eliminar os subsídios aos combustíveis.

No Equador, Daniel Noboa assistiu à violência do crime organizado se agravar — 2025 foi o ano mais violento da história do país — e acumula acusações de autoritarismo que corroem sua base de apoio.

Em todos esses casos, os novos governantes de direita chegaram ao poder prometendo soluções rápidas para problemas estruturais — criminalidade, inflação, estagnação econômica — e agora enfrentam o duro teste da realidade.

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A história recente da região mostra que, sem crescimento econômico concreto e melhora tangível nas condições de vida, o eleitorado latino-americano tende a punir quem está no poder, independentemente do espectro ideológico.

O cenário no Equador talvez revele, de forma mais nítida, por que a onda conservadora é mais frágil do que muitos analistas previam: problemas de segurança pública podem facilitar vitórias eleitorais para candidatos que prometem ações duras contra o crime, mas seria um erro acreditar que governos de direita necessariamente consigam lidar com a questão de forma satisfatória.

O elemento externo também pesa. O retorno de Trump à Casa Branca, longe de ser apenas um vento favorável para a direita regional, produziu efeitos contraditórios: ao mesmo tempo em que legitimou figuras como Milei, Kast e Asfura em Honduras, gerou reações nacionalistas em países que se sentiram pressionados por Washington. No caso brasileiro, as interferências e tarifas de Trump parecem ter fortalecido o governo Lula.

No Peru, o primeiro turno em abril de 2026 ilustra como o voto peruano continua fragmentado e altamente volátil, mais movido pela rejeição a quem governa do que por qualquer adesão ideológica coerente — e o segundo turno, marcado para 7 de junho, ainda não tem resultado previsível.

Na Colômbia, cuja primeira rodada presidencial ocorrerá em 31 de maio, a fragmentação do campo conservador reduz as chances de que a direita mobilize um eleitorado unificado capaz de garantir vitória já no primeiro turno.

No Brasil, escândalos recentes envolvendo Flávio Bolsonaro podem fragilizar o campo conservador num momento em que a corrida ainda está empatada, o que sugere que uma vitória conservadora em outubro não tem nada de inevitável.

Nada disso significa que a onda conservadora esteja chegando ao fim. A Costa Rica elegeu Laura Fernández, candidata de direita, em fevereiro, e o bloco conservador ainda governa numerosos países do continente. Mas os desafios enfrentados por Kast, Milei, Paz e Noboa — escândalos, protestos, aprovação em queda — são um lembrete de que a força política mais poderosa na América Latina não é a guinada conservadora, mas o ceticismo e a impaciência em relação a quem governa.

Essa tendência antigovernista só se enfraquecerá se a região atravessar um período de crescimento econômico elevado por vários anos, como ocorreu no fim dos anos 2000 e início dos anos 2010, o que permitiria uma onda progressista mais duradoura.

Desde então, com um crescimento insuficiente para reproduzir os avanços socioeconômicos da época, qualquer “onda” está fadada a ser apenas uma marolinha — como a da direita nos anos 2015–2018, com as vitórias de Macri, Kuczynski, Bolsonaro e Piñera, ou a segunda onda rosa de 2019–2022, simbolizada pelos governos de Fernández, Boric, Petro e Lula.

*Oliver Stuenkel é pesquisador do Carnegie Endowment, na Harvard Kennedy School, e professor de Relações Internacionais da FGV-SP.

*Este artigo não representa obrigatoriamente a posição do Viomundo.

Publicação de: Viomundo

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