A precariedade do trabalho, a hiperconectividade sem pertencimento e a responsabilização individual pelo fracasso estrutural transformaram o sofrimento psíquico em marca geracional, e o suicídio juvenil, em sintoma de uma sociedade que não oferece futuro
Por Marcio Pochmann*, em A Terra é Redonda
1.
A crescente taxa de suicídio entre jovens no Brasil não pode ser entendida de forma isolada, mas analisada a partir do contexto mais amplo de transformações socioeconômicas que o país enfrenta.
Este fenômeno, que se manifesta de maneira alarmante, está intimamente ligado à saúde mental dos adolescentes e à constituição de uma nova condição social juvenil.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) revelam que a crise de saúde mental afeta uma proporção significativa de jovens, indicando que o sofrimento psíquico é uma realidade comum entre eles.
Os dados mostram que, em cada dez adolescentes, três relatam sentir tristeza de forma persistente. O mesmo número indica que já experimentaram vontade de se machucar.
Além disso, quase 20% dos jovens afirmam que a vida não vale a pena ser vivida e mais de 40% relatam irritabilidade constante. Entre aqueles que já se autolesionaram, os índices são ainda mais preocupantes, pois mais de 60% dos jovens nessa situação não veem sentido na vida.
Esses números não são meros detalhes estatísticos, uma vez que revelam como o sofrimento psíquico se apresenta social e amplamente distribuído. Uma condição que antecede e alimenta o aumento das taxas de suicídio entre os jovens.
Quando se observa a totalidade do segmento etário de 15 a 29 anos no Brasil, um em cada cinco jovens não está estudando nem trabalhando.
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Essa realidade é ainda mais preocupante, pois quase dois terços desses jovens vivem em condições de pobreza. Entre os que não estão em atividades produtivas, cerca da metade é formada por mulheres pretas ou pardas. Isso aponta para a formação de um novo sujeito social coletivo, cuja experiência tem sido marcada pelo contexto histórico específico, caracterizado por desigualdades persistentes.
No passado da transição do Brasil da sociedade agrária para urbana e industrial, a condição juvenil foi sendo estruturada fundamentalmente pela relação objetiva da educação, trabalho e autonomia.
O ciclo de elevadas taxas de expansão econômica associada à industrialização e urbanização nacional ofereceu importante previsibilidade nas trajetórias dos jovens, em geral cercadas de importante ascensão social.
No entanto, a partir da última década do século XX, o Brasil começou a experimentar a desindustrialização precoce acompanhada pela estagnação da renda per capita e bloqueio à mobilidade social ascendente.
Esse processo conduzido pelo receituário neoliberal terminou por reconfigurar as bases de integração e coesão no interior da nova sociedade de serviços hiperconectada fortemente marcada pela precariedade laboral e horizonte de expectativas de futuro cada vez mais rebaixadas.
2.
O trabalho, que antes era o eixo organizador estável da vida juvenil, tornou-se intermitente e fragmentado tendo e vista a incapacidade do capitalismo submetido ao receituário neoliberal gerar empregos decentes para todos.
Com isso, a inserção no mundo do trabalho está cada vez mais concentrada em setores de serviços de contida produtividade, baixa proteção social e trabalhista, o que resulta em um cenário de incerteza, insegurança e imobilidade social para os jovens.
Essa nova condição juvenil, marcada pela precariedade, reflete a ruptura da era industrial imposta pela transição para a era digital em que os filhos apresentam enorme dificuldade de alcançar padrão de vida superior, em geral a de seus país.
A geração de uma população sobrante às necessidades do capitalismo dominado pela financeirização rentista ressignifica o conceito de novo sujeito social coletivo que emerge como descrição da realidade juvenil atual. Este novo sujeito se assenta sob indivíduos em sofrimento que reconfiguram a sociedade de serviços caracterizada pela socialização fundada na incerteza estrutural.
Com isso, os jovens são forçados a interiorizar responsabilidades sobre suas trajetórias interrompidas ou não realizadas devido a condições extremamente adversas que ocorrem diferentemente do outrora jovem da sociedade industrial que tinha a identidade estruturada por referências mais estáveis, como o trabalho e a classe social.
A simultaneidade de sentimentos como tristeza persistente, a sensação de não pertencimento, ideação autodestrutiva e a fragilidade dos vínculos familiares e escolares indicam que a socialização contemporânea se dá sob o signo da instabilidade emocional e simbólica.
A adolescência, portanto, deixa de ser uma mera fase de formação para se transformar em um momento de antecipação do colapso das expectativas sociais.
Ao se articular a situação atual com o pensamento de Michel Foucault permite entender como a lógica da governamentalidade neoliberal molda a vida dos jovens. Eles são vistos como agentes responsáveis por suas próprias trajetórias, mesmo quando as condições estruturais são desfavoráveis.
Em diálogo com Pierre Bourdieu, observa-se como a ruptura entre “habitus” e campo revela como as expectativas de ascensão permanecem, embora as condições materiais para alcançá-las se estreitam. Isso resulta na produção de sujeitos frustrados sistematicamente que não se traduz em crítica social, mas em fracasso estrutural, internalizado como insegurança, falha pessoal e sofrimento como derrota individual.
A transição para uma sociedade de serviços hiperconectada introduz o novo elemento mediado pela datificação intensa das experiências sociais. Como observa Franco Berardi, a aceleração informacional gera uma sobrecarga cognitiva e emocional nos jovens que vivem sob a constante pressão para se comparar e ter um desempenho superior.
A consequência dessa dinâmica é a subjetividade permanentemente tensionada entre a exigência de sucesso e a impossibilidade concreta de alcançá-lo, resultando em ansiedade, exaustão e, em seus limites, a interrupção da vida.
3.
Dentro desse contexto, o suicídio juvenil deixa de ser visto como uma ruptura inexplicável, tornando-se uma expressão extrema da condição social. Pela perspectiva de Émile Durkheim, a anomia se espalha não apenas pela ausência de normas, mas também pela falta de possibilidades de futuro.
Assim, o suicídio torna-se um indicador extremo da desintegração social, evidenciando o bloqueio das trajetórias e a saturação subjetiva que caracteriza a nova forma de socialização juvenil.
Nesse sentido, o novo sujeito social coletivo não se apresenta como desvio, mas sim o resultado histórico de uma sociedade que organiza a vida sob a lógica da instabilidade, competição e responsabilização individual.
O aumento das taxas de suicídio entre os jovens se configura como um sintoma estrutural da atual organização social brasileira que é a primeira geração a ser formada completamente sob a hegemonia do neoliberalismo e do capitalismo digital.
Ainda que seja a geração juvenil mais conectada da história, encontra-se imersa em redes que prometem pertencimento, visibilidade e liberdade, mas que, na prática, resultam em uma comparação constante e em uma pressão contínua. Essa frustração sistemática não se traduz em uma crítica social, mas se manifesta como um sofrimento individual que abrange uma geração inteira.
A precariedade se torna a norma, as trajetórias são interrompidas e a hiperconectividade não proporciona pertencimento, apenas reforça a responsabilização individual em um contexto de escassez estrutural.
Portanto, o novo sujeito social coletivo é produto do neoliberalismo que dissolveu a sociedade industrial sem construir alternativas sólidas, resultando em uma transição precária para o capitalismo digital que transforma a vida em uma performance contínua fundada em serviços inferiores, em geral.
*Marcio Pochmann, professor titular de economia na Unicamp, é o atual presidente do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Autor entre outros livros de Novo sujeito coletivo: a governança de populações em três tempos do capitalismo no Brasil (Editora da Unicamp). [https://amzn.to/40lMNWU]
Referências
DURKHEIM, É. O suicídio: estudo de sociologia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
FOUCAULT, M. Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
BOURDIEU, P. A distinção. Porto Alegre: Zouk, 2007.
BERARDI, F. Futurabilidade. São Paulo: Ubu, 2019.
IBGE. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE). Rio de Janeiro, 2026.
POCHMANN, M. O novo sujeito coletivo. Campinas: Ed. da Unicamp, 2026.
Publicação de: Viomundo
